quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A vendedora de sorrisos



            Ah! Ah! Ah!

            Ecoa a Sonora gargalhada em meio as flâmulas farfalhantes, entre os tecidos multicolores que desfilam sobre as sombrias janelas da alma escancaradas para o mundo, permitindo que se lhes vislumbre etéreos fragmentos por entre os borrifos opalescentes que deslizam até culminar no salgado gosto do riso.

            Repicam os sinos da Matriz uma hora qualquer, que as horas não importam, importante é que toquem de hora em hora avisando que já são horas.

            - Bom dia, senhor! Em que posso ajuda-lo? – diz o sorriso da vendedora, amplo, cordial. O sorriso é o convite, a deixa que alguém esperava para entrar na alma da vendedora; ora, a alma de uma vendedora tem que oferecer flores, sóis, mar e promessas infinitas da possibilidade que há em se ver um arco-íris quando a chuva cair.

            Lá fora a chuva constante e miúda insiste em derramar-se, mas para quem visita a vendedora é sempre sol. O riso do cliente vai embrulhado nas suas mãos, pedaços de felicidade que por sorte ele pôde comprar.

            O sorriso da vendedora se desfaz por dentro quando o cliente vai embora, pois é importante que jamais se desfaça do rosto para o caso de ser pega de surpresa e alguém esperar um convite para entrar.

            Quando a vendedora pendura sua alma no canto escuro do vestiário, são horas de cerrar as portas.

            Trôpega ela caminha para encontrar sua casa. No rosto, o sorriso continua encantador, pois mesmo desprovida de alma carrega consigo o sorriso que é a chave para abrir as portas do vestiário para que novamente se transvista de vendedora.

            Sorrindo sempre ela chega, é preciso rir para os amigos da outra em que ela se veste agora, é preciso rir para os pais, para o filho, para Deus quando de joelhos lhe rende graças por tanto riso.

            Ah! Ah! Ah! Parece dizer o incômodo despertar do relógio, entorpecida ainda da noite sem sonhos ela desperta e sorri, porque chove e dentro do seu armário, no vestiário sombrio há uma capa que a protegerá do frio que vem de dentro dela.

            Nada se paga por ele, mas ela o dá passivamente. O objeto vendido vale mais que o sorriso que veio das entranhas, sem o qual não haveria o milagre do lucro: a venda.
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