terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Milagre de Natal





  É véspera de natal, a moradora dos bancos de concreto repousa sobre os ombros pruridos do duro concreto. Lágrimas secas, já derramou todas por si e pelo mundo. Ecos longínquos, brilhos enevoam-se enquanto braços abraçam distantes a fortuna de uma história.
   A mulher da praça estremece no desvario febril. Tem saudade da história interrompida há tanto tempo atrás, confunde se o que relembra são fábulas ou a si. A sua volta a concha acústica parece enfeitada. Latas brilhantes, pedaços coloridos de maça do amor, fitas, papéis ilustrados em cores vivas, recortes da felicidade testemunhada.
   A neve postiça meio arrancada balouça ao vento, dançam os copos de plástico coloridos negligenciados após o uso. "Eram tão brilhantes" - ela pensa entremeio um leve despertar.
   Quando cerram-se-lhe os olhos, vê desprender-se a neve que como confete branco cai sobre a cidade, voando na brisa suave. Abaixo de si já não sente o cimento, mas a suavidade macia da alva neve. Uma neve morna e envolvente lhe abraça por um instante, apenas para despertar novamente no minuto seguinte pelos risos de adolescentes a lhe fitar entre gargalhadas. Ela sorri apreciativa pela visita, feliz, soam-lhes os risos como espinhos crepitando no fogo.
   Uma a uma as lojas cerraram suas portas. Apagaram-se as luzes, extinguiram-se os passos, já não se ouve a voz do canto e eis que os sinos da matriz anunciam as doze badaladas.
   Com os olhos cerrados, vestida da alva neve ela flutua galgando dos doze degraus da escuridão, um a um. Alongam-se-lhe os cabelos, resplendecem-lhe as vestes e um sereno aroma de rosas lhe invade as narinas. Ela sente a face enrijecer, ruborizar. Já do terceiro degrau avista a estrela longínqua entoando vozes celestiais, aproximando-se desta que estende as mãos pela derradeira vez.
   A praça permanece escura. Alheia com seus plásticos todos ao milagre de natal. Foi preciso o escuro para que ela recebesse sua tão desejada estrela.
   Encontraram-na na manha seguinte. Coberta de misteriosa substancia alva, cintilante; esboçava um sorriso e os olhos vítreos brilhavam como que fitando a estrela da manha.



National Hospital, 25 de dezembro de 2012...
Saudades imensas.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Pedido de Natal



            As ruas da cidade estão feéricas, iluminadas e sorridentes. De férias, muitos vêem à cidade das brisas suaves em busca de movimento, cor e vida. É dezembro, e dezembro é o mês de se esperar por um ano melhor, é o mês em que o brilho nos olhos esperançosos das crianças contagiam a todos. Nos brinquedos embrulhados em papéis coloridos há a esperança, a promessa de que sorrir é certo, e que a felicidade de agora pode durar para sempre.
            Macia, desliza a neve postiça no palco da Concha Acústica, a névoa artificial colorida pelos holofotes reluzentes emoldura as vozes da cidade. É noite de dezembro, as estrelas longínquas estão além dos deuses, porque é Natal e as luzes dos intermináveis pisca-piscas iluminam o céu da cidade.
            Na arquibancada da Concha Acústica, bem próxima à calçada de paralelepípedos bicolores, longe da conglomeração humana dos transeuntes tardios, há uma mulher sozinha.
 A mulher é pequenina e fraca, tem os cabelos oxigenados e uma ampla faixa oculta-lhe um ferimento qualquer. Pode-se de longe vê-la estremecer, desolada, debruçada sobre os próprios joelhos ela olha para os pés descalços e não consegue conter um pedido ao Papai Noel.
 O pedido da mulher não é feito de palavras escritas, faladas ou pensadas, mas sua mensagem ecoa sobre os ouvidos, mais alto que o som dos poderosos falantes que amplificam as vozes dos que cantam. Encolhida ela não pode cantar, e o seu pedido estrondoso é uma lágrima silenciosa que cai.
Se não houvesse tantas luzes na cidade, haveria estrelas para ela, pois todas as que estão visíveis são compradas, vê-se, contudo que ela não pode comprar uma estrela.
O pedido da mulher da praça é só uma estrela natalina. Será que ela vai ter Natal?
            

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A




A letra matriz do encadeamento de símbolos, uma história contada por uma tia chamada Áurea. Aos meus seis anos de idade, vestida de uniforme xadrezinho vermelho e branco, camisetinha branca escrita Enny. Fora um dia muito estranho, mistos os desejos de ver coisas novas, e a ansiedade de ser deixada pela primeira vez do colo gentil da minha mãe.
A dona da Fábrica de Letras foi minha tia Áurea, ela pintava em nossa memória as histórias das origens dos símbolos que seriam nossas ferramentas. Vagarosamente, no primeiro dia, desenhou um círculo aberto que partia da direita para a esquerda, descendo lentamente para atar-se novamente a direita com um traço reto e descer em um arabesco à esquerda que chamou “perninha”. À nossa primeira letra chamou Alice, disse que era uma menininha |a'|legre que adorava rabo-de-cavalo, e que era tão faceira que vivia fazendo o som |a|. No livro da vida, aquela página desencadeadora de mistérios sem fim. O “a” aprendido se juntando às próximas letras, formando palavras mil que misturadas à alquimia da imaginação, desprendia das folhas amareladas do caderno transportando-nos ao mundo infinito das possibilidades.
A mestre da Fábrica nos presenteou as chaves mágicas decifradoras de coisas tantas que vieram depois.Quando penso na Fábrica, vislumbro aquela janela de ontem, tão cheia dos ecos das canções que Áurea nos embalava todas as manhãs, penso na mão doendo para adestrar-se ao hábito de fabricar letras. Uma chave, foi tudo o que nos deu. Deparo hoje ainda com esta chave alpha me desafiando com aparencia enigmática: decifra-me ou te devoro.

a

domingo, 11 de novembro de 2012

O segredo do Anel



Sete anos.
Uma vida inteira em fragmentos pelo universo afora. Enigmas escritos em estrelas que versam em música, as metáforas não pronunciáveis em palavras. A música de um choro, o gemido da criança expelida entre lágrimas de amor.
Tudo faz sentido, ela segura o anel e suspira, enfim, a verdade.
As cores dançam nas ruas, nas vitrines, as árvores dizem tanto no balouçar de suas folhas, e quando o outono lhes despem nas frias noites, dizem tristes histórias uivando ao vento com seus galhinhos esturricados o sentido da primavera, pelo contraste da intensidade de um inverno. Todas as coisas dizem seus mistérios.
Tanta dor.
A pedra cintila azul. Topázio azul, um azul de profundidade infinita, de lágrimas, de tristezas passadas e por vir. Uma coisa. O anel é apenas uma coisa, o veículo da mensagem que veio desse entender de hoje, dessa sensação de adivinhar o que há por vir estampados na dura permanência em forma de uma pedra. Pedra que já esteve enclausurada no subsolo, em repouso, em silencio profundo, parte da sustentação deste solo que sustém o peso das gerações que passam. Os grãos da tua poeira falam.
Um dia tesouro do garimpeiro, noutro do comerciante, na mão da graduanda feliz, da esposa, da mãe.
A pedra nasceu bruta, foi gerada pelo tempo, pelas condições propícias do solo, suja, foi manejada pelos homens mais rústicos de mãos calejadas. A pedra sofreu perdas imensas, partes de si amputadas para sempre para lhe darem o formato retangular. Enfrentou as lixas cruéis, o calor das fricções em polimento.
O designer um dia se assentou, de lupa na mão examinava-a entre a pinça pungente. O designer avaliou-a do ápice à base, esquadrinhou sua beleza e inspirou-se nos arabescos para acentuar-lhe a glória azul; decidiu que a pedra descansaria em uma liteira de ouro.
E foi assim, manhã de 31 de outubro de 2003, dia de halloween que ela passou pela vitrine da loja e entendeu que a pedra lhe dizia um enigma e embora não pudesse entender naquele dia, não pode resistir-lhe como que hipnotizada. Uma vez tocada, se tornou escrava do anel, embora não pudesse levá-lo pois nunca poderia comprar joia tão cara.
No ano seguinte ela partiu para bem longe, iria estudar por um ano. Era uma estação de milagres tantos. Conheceu o amor de sua vida, um amor barroco. Casou-se. Havia deixado aqueles três anos sonhados da faculdade para trás. Sofria. O que fizera? E agora? Nada faz sentido na confusão da mudança. Traçara caminhos na areia, e o vento do tempo os apagara.
Em 2007 retornou, não podia viver o transtorno de abandonar um sonho tão imenso que havia sido aquela faculdade. Deixou o esposo, o cão faleceu, o dono da loja pediu para o esposo entregar as chaves em 120 dias, depois de 16 anos no mesmo local. Caos. Lágrimas de saudade. Noites em claro mergulhada nos livros, sorvendo o café do pai. Viera dizer adeus. Andando nas ruas tão estranhas quanto familiares, avistou o anel de longe. Já nem lembrava dele. Ele ainda esperava por ela.
Decidiu que seria seu anel de formatura. Faltavam os símbolos, o ourives cravejou à direita uma flor-de-lis e à esquerda a coruja. Comprou a prestação, agora podia pagar as prestações. A pedra tinha um risco, razão porque permanecera esperando, uma marca sulcada na superfície. O ourives ofereceu desconto ou lapidar novamente. Optou por lapidar. A pedra guarda essas marcas dos últimos toques.
O anel fica em uma gaveta, na maior parte do tempo, sempre grita de lá quando a gaveta é aberta. A estória toda lhe passando por um instante pela mente. Oras ela sorri, outras chora. Uma pedra cor da água da saudade.
Dentre as peças tantas do quebra-cabeça enigmático, outro dia ensimesmando começou a ler coisas antigas. Relembrou aquele texto, o dia do halloween, os cheiros todos, os risos da amigas que não lhe sorriem mais. Ao final daquele relato, a data: madrugada de 01 de novembro de 2003.
Exatamente sete anos depois, às 2:57h puxara os bracinhos da filha que nascia para o mundo para si. Abraçara o prólogo de uma nova história. O anel tentara lhe dizer, ela sabia em sentimentos e só agora fora concedido o conhecimento daquele mistério. A pedra do anel, a pedra do mês da criança, a porta de um segredo ainda por vir.



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Halloween



            Manhã de outubro, o ar está fresco e o cheiro da chuva recende no quarto. Rompe um sol silenciosamente gritante que tornam mornas as brisas da recém-manhã.
            Antes que o relógio desperte, ela acorda com o gorjeio  dos pássaros e um feixe de luz teimoso que lhe brinca nos olhos tristes. O quarto está quente; por todos os lados vêem-se objetos que foram negligenciados pela correria frenética da semana que está se findando.
            Dizem que hoje é dia das bruxas – recorda-se ela pondo-se de pé de um só salto. A manhã amanhece querendo correr, o dia vai passar muito rápido. Todos os dias são assim: a natureza lá fora explode num espetáculo grandioso que ela não tem tempo para assistir.
            - Pai, acorde! Faz um cafezinho para mim?
            Ele é pedreiro, mas está desempregado há três anos, desde que ficou doente e perdeu o emprego, justamente quando ela conseguiu realizar um sonho gigantesco e quase impossível: entrou para a faculdade. 
            A casinha é muito pequena, quatro cômodos apenas e a mãe ainda dorme.
            Ela escova os dentes fitando-se no espelho manchado do banheiro fazendo caretas de bruxa, afinal hoje vai ser o primeiro dia em que ela vai a uma festa de Halloween.
            O cheiro do café exala pela casa toda, o café do pai é o melhor do mundo, principalmente quando ele o serve a ela numa xícara de louça.
            O pai reclama que o álcool vai acabar, nem vai dar para levá-la ao emprego. De repente o café se torna amargo demais.
            O carro é muito velho, tudo o que têm. A casa é emprestada e o carro uns amigos deram para os pais dela. Os pais têm um coração tão cheio de amor que não vêem as próprias condições e saem, religiosamente, a visitar enfermos, necessitados e a levar palavras de paz, de companheirismo e de amor.
            Têm muitos amigos, a casa humilde é sempre visitada e as pessoas gostam de estar com eles.
         Finalmente o carro pega, mas é preciso empurrá-lo, não está engatando a marcha-ré. Partem então, ela vai ansiosa na esperança de que as coisas sejam melhores na loja hoje, ama seu trabalho e tem vontade de melhorar sempre, de atender da melhor forma possível, de agradar para fazer prosperar o sonho do patrão dela. Sabe que muito depende dela, não mede esforços pois sabe que seu trabalho é seu espelho.
            Hora do almoço. Hoje, como usualmente acontece não vai dar para almoçar em casa. Come um salgado e sai para organizar os preparativos da festa de Halloween do curso de Letras.
            Compra um rato enorme de olhos vermelhos, magnífico, parece real. Vai usá-lo no painel da decoração. Compra uma aranha para usar no pescoço, vai se vestir de viúva-negra. Vão-se tecendo os minutos.
            Súbito, em uma vitrine brilhante avista um opalescente anel, o momento como que congelado paira por um instante de transcendencia pura, o anel lhe diz tantos enigmas em forma de brilho que não se contém: adentra a loja e demonstra seu deslumbramento.
            Solícita a vendedora abre a vitrine e lhe oferece a jóia para que experimente, finge não lhe ver as vestes simples, a impossibilidade de tal venda.
            O anel é de ouro, esculpido em arabescos delicados com um grande topázio azul, lapidado em forma de um quadrado que descansa sobre a elevação de uma base no formato de liteira.
            Com a respiração suspensa ela desliza o olhar sobre a jóia que cintila no seu dedo em epifania, tão real quanto o céu que dizem não ser azul mas que é, basta olha-lo.
            Devolve com pesar a jóia para a vendedora, e continua seu caminho para o dia das bruxas que a espera.
            Leva consigo um brilho mais intenso que o da jóia, refletido no olhar. Segue pensando que se pudesse comprar aquela jóia não teria os problemas todos que tem.
            Cai a noite, a chuva, e então as bruxas, as odaliscas, monstros de todos os tipos tomam as ruas da cidade. A festa é um sucesso, e ela ficou linda toda de negro com uma aranha a lhe subir pela garganta.
            Contagiada pela alegria dos monstros ela sorri e brinca, o brilho do anel não vai apagar a esperança de seu olhar. Sabe que a vida a está lapidando para que brilhe algum dia.




Continua amanhã... não percam  a parte II: O  segredo do anel 
3º Letras – UNIFEV
01 de novembro de 2003
2:50

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Revoar de folhas



Sagradas raizes prendem-se ao instante da semeadura
opulentas, as árvores contam as histórias dos serenos
das estiagens, das voltas de tantos corações
Guardam em si a memória dos passarinhos
Do repouso das borboletas
Do menino que viverá para sempre envolto às lembranças de uma infancia
A avó varre as folhas com a vassoura de piassava, uma vassoura feita de folhas mortas
folhas que um dia transcenderam a verde fotossíntese
das cores tantas de um arco-iris oculto em luz branca
Luz de um sol tão distante
As folhas da mandioqueira picadinhas em sopas para as bonecas de plástico
As das mamoneiras a crescerem desvairadas, nos barrancos, à esmo
folhas de coqueiros vestidas como cocar
Folhas aladas em sonhos infantis
Crepitam no fogo as chamuscadas, carbonizadas
folhas desprezadas esmaecendo-se em cinzas
folhas na mesa do jantar
sabores em folhas exóticas
Folhas tenras, ora secas, murchas...
Folhas envenenadas cobrindo o sexo ante o primeiro saber da ciência
O menino levanta-a contra a luz lá fora
Tenta ler o destino escrito em veias verdes
Bebe com elas água nas fontes dos esmos
enquanto um pajé espreme sumos curandouros em uma cuia cheia de esperança
Folhas que voam ao vento
Rodopiando bailarinas ao pulso do momento
descrevendo arabescos, linhas, hieróglifos
estalando silenciosas dos galhos da que choram-lhes a perda
Repousam folhas sobre o solo macio
Sepultadas, esperam a metamorfose alheia de um tempo
que lhes fará alimento, seiva à nova folha por vir

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Código



Helen Kellers da vida
tentando decifrar o código
de dentro do ovo
lá fora uma multidão que não enxerga
que não fala
que não ouve os pios vãos
uma vóz que grita do deserto
não me faço entender?
Ou ignoras o que digo?
Ouça!
Se me ignoras me aniquilas
e já não existo
não me tranque no armário escuro,
sim, imploro
o veículo para nos vermos
está em suas mãos
é o que já dizia uma mãe
é preciso ser gentil, ouvir
o que é feito da gentileza?
Ouça!
não pise com pés sujos
o terreno sagrado das idéias alheias
Helen Keller ainda no escuro
espera a senha para ser

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Epifania em Azul Tiffany



O céu por vezes parece um terreiro varrido,
azul tiffany
epífane
nuvens brancas leves soltas
algodão doce dissolvendo no azul
da boca do céu
Como um véu
cobrindo o mistério turquesa
de branca incerteza
Firmamento de vento
que encerra dos olhos
um infinito oculto em luz e ar

Quando a aurora enegrece os outeiros longínquos
emudecendo dos pássaros os faceiros canticos
desfaz-se o azul celeste
pintando o céu em degradês de azuis royal, marinho
até que os cabelos da aurora cubra de negro o oeste
A mágica quietude da ausência da luz clarinha
deixa entrever além da esfera, que é necessário
o escuro, para avistar a luz de outros mistérios

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Estilhaços


Um laço
gira o compasso
como um carrasco
devasso
O que faço?
Corto ou amasso?
Me arrasto
feito aço
fingindo ver pasto
nos algures deste paço
de boninas escasso
Passos
pedaços inefastos
bagaços
sulcos, rastos
Ouro gasto
me afasto
do teu abraço
Picasso

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A rendilheira

Mãos destras atam o pique ao rebolo
agilmente alimentando os bilros
com linhas de nuvens de algodão
A rendilheira espeta o pique
com agulhas de laranjeiras

Cuidadosa ata o primeiro nó
cantando, repetindo versos
que tratam do mesmo enigma
do código de nós

Esquece a barriga vazia,
a pobreza triste do pé no chão
canta a beleza azul de seu rebolo
e desenha com com o branco
a figura de sonhos feita de algodão

Subserviente obedece às ordens das agulhas
retirando-as cada uma a seu tempo,
libertando o rebolo da ponta punjente

A rendilheira distraída
ignora a face sulcada de linhas de ontem
ou as próprias mãos calejadas,
absorta em transformar a linha contínua
na história que conta em renda

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Acorda Borboleta


A borboleta acorda vagarosamente de seu longo sono, confinada no escuro casulo. Tenta mover-se com seu cérebro de lagarta, não sabe ainda que as amarras que a atam são suas recentes asas que como camisa de força lhe confinam dentro da seda. A borboleta se rebela, se estica, rompendo gradativamente o berço de sua transformação. Emerge da crisálida molhada, com as asas murchas, as anteninhas tortas. Fita confusa, ainda acostumando-se à luz os pezinhos que antes eram apenas curtos cotos, agora longas pernas como de gazelas. Boceja faceira esticando a probóscida comprida e se assusta com o novo dispositivo; em deleite sente o cheiro que vem do néctar. Precisou comer muita folha verde, amarga, para sentir o cheiro deste mel. A borboleta transcendeu a fotossíntese, partindo as cores ocultas da luz no arco-íris das escamas de suas asas. Treme-las, sacude-lhes os tubos que se enchem de fluido vital, estica as rugas e se abre esplendorosa. A borboleta nunca saberá a glória de sua beleza, mas ao primeiro impulso aprende as delícias de voar. Deslumbra-se com as flores, sorve-lhes o doce mel, alheia que possa ser tão fascinante como tais. Borboletas não se olham no espelho.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Gorjeio


O pássaro teimoso canta da gaiola feia
Asas cortadas para não voar
Alpiste
grades ante o olhar,
as minhocas risonhas assistem do chão
gatos gulosos esperam a hora da ceia
e ele tem saudades de enlevar-se ao ar...

O pássaro cerra os olhinhos
canta o ninho,
a árvore, o voo
o ar, o horizonte
inflando o peito
transcende sua alma de passarinho

O pedreiro para,
a diarista para
para o vento
Até o bebê cessa seu chôro
Ante a mãe que também para a ouvir o côro

A melodia viaja nas asas do ar
e por um instante até os desemplumados
voam com tais notas a soar

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Apuro


Uma noite agoureira
A lua espreitando das negras nuvens passageiras
A coruja pia um pio soturno
Lobos uivam além em resposta aos uivos dos fios
Rangem dobradiças enferrujadas
das tábuas de portas abandonadas, fechaduras quebradas
Covas abertas no chão guloso
gritos abafados
olhos maquiavélicos espiam do milharal em flor
cobras sibilam das sombras rasteiras
é preciso fazer muito silencio,
para não acordar as criaturas
Morcegos em rasantes passam rentes ao pescoço,
ávidos pelo tesouro draculano
Em agonia o ente se retorce
ante as forcas penduradas nos galhos
num sobressalto o pé quebra um graveto
estrondando com um créck na noite que subitamente silencia
O vento sopra a lamparina que se apaga
shhhhhh
da fria noite uma jorrada quente desce pernas abaixo
Lá ao longe espia o WC maldito com sua boca sarcástica aberta
“Ah ha ha ha ha!
Mais um”, parece dizer.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Metamorfose Reversa



Uma borboletinha vivaldina
passou pela janela de Alina

Asinha pintadinha amarela
pequenos círculos azuis

Pousou na flor rasteira, abrindo,
fechando as asas, esticou a língua
e devorou o nectar das flores cálidas

Uma a uma as beijava, pulando para o ar
e pousando em outra pétala de mel

Alina puxou a cortina de voal
abriu o vidro e pulou para o quintal

Disse “olá borboletinha”, e suave
tocou na pontinha de sua asinha

A borboletinha riu de cócegas
e mostrou a língua para Alina,
“ah menina”- desde lagarta cócegas lhe fazia

A mãe espiou da janela de cima
“Que faz menina?”

Alheia Alina confabulava
seus sonhos de bailarina
à borboletinha amarela
de fina pálida purpurina
que pousara em seu dedinho

“Suba já Alina, o sol se põe além”
Alina não ouvia senão “ém”
Que soava como eco do sino de Belém

A primeira estrela despontava
a borboletinha com três piruetas
beijou-lhe boa noite e foi dormir
sob a seda de seu casulo

Sobre uma folha tenra
Alina viu ovinhos,  
lagartinhas a nascerem
devorando com pressa
a folha do próprio berço

“Viva! Novas borboletas”
Alina exclamou feliz…

Crepúsculo já se fazia
Alina voltou a sua janela
e saltou para dentro da casa

Uma casa casulo, foi jantar
e mais tarde enrolada em cobertas
dormia como uma lagarta
em metamorfose reversa






Para Alina, uma menina-borboleta

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Despir-se


Corcunda do peso das fábricas tantas
De botas, do siso, de cintos de risos
Ela adentra o cômodo em suas mantas
Empurra o carrinho cheio de juizos

No rosto os vincos da blasfêmia
cabelos emaranhados de infâmia
Calça sapatos que sangram os pés
bolhas da fricção da conveniencia

Caminha até um espelho adiante
e não se vê, se espanta, se rebela
rasga de si os botões censurantes
é tempo de lançar fora a mazela

O vestido roto, fétido de pragmática
rasgado em nesgas negras sensatas
Mãos trêmulas, os olhos estáticos
se lavam, lágrimas despem castas,

a máscara, as rugas, as linhas ásperas
o peito arfa e um alvo seio se mostra
outro segue, um umbigo em esfera
centro do círculo, do princípio desta

Ombros rejeitam o pêso dos desejos
mostram-se alvos, eretos, em meneio
costas que se alinham, ensejam
à medida que despe seus receios

O lábio agora esboça um ar de riso
a peça desliza, descobre o âmago
dos desejos puros sem modismos
o triângulo amparador, aconchego

As nádegas alvas, à mostra, sustentadas
por firmes colunas, suas fortes pernas
pilastras paralelas, de verdade alicerçadas
sobre os pés nus, em igualdade superna

Ela se reconhece assim no espelho
vislumbra em si o sábio centelho
Uma lufada lhe sopra esperança
desmancha as emaranhadas tranças

E ela caminha para a luz
Sem nada,
À luz da chama,
que lhe chama,
Sinceridade