POMAR - Cap 1 - Pitanga

PITANGA


          Íamos de circular até a estação, todo mundo na sua melhor cara, com a melhor roupa; o banheiro era a coisa mais luxuosa que nossos grandes olhos curiosos já vira. A mãe ralhava “não toque no vaso nojento!”. E a gente tentando imaginar como um banheiro tão lindo podia ser nojento. Madames, mulheres de jeans e batom vermelho, com longas unhas pitando cigarros, nublando a salinha de estar do banheiro. Mulheres muito chiques que compravam pastilhas e balas piper.
          O trem surgia onipotente, ensurdecedor, tapávamos os ouvidos e gritavamos juntas. Fooommmmmmm! O pai segurava a mão, dava um frio gostoso no estômago; o trem sacolejava de leve quando a gente subia no degrau “Cuidado menina, olha o vão”! O pai virava o banco um para o outro, e nós brincávamos de esconder no vão. O pai logo beliscava e mandava sentar quietas. A janela se abria para a estação, transeuntes tardios apressavam os passos e saltavam para dentro do momento. O cheiro de óleo e metal quente recendia. O guarda apitava, nós três disputando a janela, cuidando para que a pequenina não colocasse a cabeça para fora, o trem vagarosamente engrenava, como um pulso que aos poucos acelerava para acompanhar nossos corações batendo forte. Um cãozinho franzino, de marrom indefinido se misturava a sombra da última imagem da estação que ficava para trás. Dormindo alheio ao barulho ensurdecedor da locomotiva.
          A paisagem se pintava de cores mil, colonhão alto riscando as margens dos trilhos, pastos verdinhos, casarões ao longe. Cafezais, frutinhas vermelhinhas a espera da colheita. Crianças nas janelas acenando contentes para o trem que passa. Senhoras de calça, com vestido por cima e enxada nas mãos. Homens que alheios continuavam lavrando a terra fértil. Riozinhos, vacas berrando amistáveis, garças brancas de pernas muito finas com olhar intrigado. Os quero-queros gritavam em algazarra protegendo seus ninhos nos pastos. Cavalos puxando arados, sob um calor causticante.
          Suntuoso, em seu uniforme azul, de gravata, com um boné imponente, o condutor adentrava o vagão, penetrava o nosso momento como se de outra realidade; de um vagão desconhecido, de pessoas desconhecidas, de destinos mil. Entrava com ares de importância:
          - Senhoras e senhores, este é o trem “fulano de tal”, com destino a São Paulo, capital, próxima estação Roseira.
          - Bilhete por favor!
          O pai estendia três, apenas ele a mãe e a irmã mais velha pagavam. O condutor fazia um buraco com um furador misterioso. Ficava redondinho. Pedíamos ao pai para ver, muito curiosas. A irmã mais velha se exibia pois tinha um só para ela. E a gente choramingava para o pai comprar um também. O pai ria e não respondia nada.
          A cabine era invadida por um irresistível cheiro de amendoim recém torrado. O pai olhava feio para não pedirmos nada. Nossos olhos esgazeavam ante tantas guloseimas: pipocas, amendoim, castanhas de cajú salgadinhas, coca-cola, guaranazinho, balas Sete Belo...
          O pai comprava uma coca-cola e um saquinho de amendoim torrado, que ia descascando, rolando as castanhas saborosas nas mãos longas, calejadas e soprava as casquinhas vermelhas pela janela do trem.
          - O pai, olha ela tomando tudo! - a irmã mais velha reclamava da irmãzinha que engolia a coca-cola com gula.
          O trem chacoalhando gostoso: pelém, pelão, pelém, pelão.
          A mãe acompanhava recitando “Café com pão, café com pão”.
          - Cosmorama!
          As estações passavam devagar, transeuntes sonolentos desembarcavam, gritinhos alegres ao longe. Outros saltavam para dentro. Apressados. Por que será que os adultos estavam tão apressados?
          - Tanabi!
          Nos impacientávamos.
          - Pai, já chegou?A casa da avó fica em um barranco alto. Cheira a óleo da estrada de ferro que passa quase que no quintal da casa. Visitar a avó, que saudade, os adultos todos se abraçando apertado, lágrimas de alegria rolando entremeio aos risos e vozes altas. A gente vinha meio nauseada da viagem, principalmente quando se vinha de ônibus; desde Votuporanga olhando o chão preto e as listras amarelas ora pontilhadas, ora contínuas, incessáveis. A rodovia quente exalando vapor criava uma ilusão, parece que terminava ali mesmo, abruptamente subindo para o céu imensamente azul. O pai ia ditando as cidades, tentando aliviar nossos estômagos com histórias das cidadezinhas fenomenais. Como o pai era inteligente, pensávamos. Víamos Bálsamo de longe, o trevo tão perigoso, a avenida de entrada com suas palmeiras recém plantadas... e o pai dizendo que a cidade é conhecida como a cidade das palmeiras. A gente pensando como pode ser tal se são tão pequenas e recém plantadas. A igreja da cidade fica em uma pracinha, onde toda a vida social acontece e que mais tarde nunca seríamos autorizadas a frequentar. Encontro dos desajeitamentos da adolescência.
          A gente vinha andando da estação. O pai carregando as malas pesadas, íamos parando para ele descansar um pouco, as mãos sulcadas de vergões vermelhos. A mãe com a irmãzinha no colo. A irmã mais velha ia distraída. Uma canseira sem fim.
          - Já chegou pai?
          Avistávamos de longe o casarão com a cerca construída de postes de trilhos de trem, o avô fora um dos pioneiros da cidade, trabalhando na ferrovia. As roseiras plantadas a esmo no solo arenoso, vermelho, ocasionalmente manchados quando aguados com baldes, carregados um a um do tanque ao quintalzinho. A pitangueira majestosa em meio as roseiras, samambaias ao doce zum zum das abelhas. Nas estações de fartura chegávamos ávidas abraçando o tronco da pintangueira moça antes mesmo de beijar a avó, as pitangas rochinhas, marengas e maduras, as vermelhas com sabor tão fresco e as laranjas enchendo a boca de água antecipando o sabor azedinho, um cheiro como o da avózinha recendendo das folhas amassadas enquanto subíamos os troncos fortes, escorregadios. Florzinhas alvas, felpudinhas escondendo os ninhos ocasionais dos passarinhos filheiros entremeio às memórias das pitangas. Beijávamos a avó com lábios e dedos coloridos da fruta.
          A casa cheirava a cera Paquetina, o piso de cerâmica vermelha colorindo de imediato os sapatos, os pés. A avó tinha uma televisão branco e preto, contrastando a estante nas mesmas cores. As portas com tons madrepérola escondiam segredos tão proibidos que mal adentrávamos já éramos atraídas às portas cerradas.
           A avó tão linda, os cabelos da avó sempre foram brancos, muito finos, esvoaçantes – olha que paina - a mãe observava. A avó sorria de contente, um sorriso tão gostoso, tão aconchegante com um pequenino detalhe de ouro a luzir. A avó sempre tinha pão fresco, hoje escrava das rotinas loucas de um dia, nunca entendi como ela conseguia tal façanha. Vivíamos no tempo em que não havia telefone nas casas de ninguém, no entanto a vó sempre sabia – Eu falei po Zé que ceis vinha! - O cheiro de pão, manteiga e café coando no coador de pano. Cheiro de roupa lavada com sabão de soda feito em casa nos varais.
          Ah a casa da avó... A casa imensa, alta de janelas amplas de madeira marrom. A porta dupla que corríamos quando se ouvia o trem. A gente gritando tanto quanto os pulmões nos permitiam.
         - Foomm!
         Por um instante a casa chacoalhando toda. O momento preso pra sempre sacudido entre a cadencia do trem barulhento e as imagens correndo entre as folhas miúdas da pitangueira.
         A avó é gorda, tem macãs tão rosadas no rosto, que colo gostoso o da avó. Veste vestidos coloridos, lindos, desenhados e feitos pela tia Cida, a modista da família. Sempre trazem uma florzinha, um bordado, um viés, um carinho especial que a tia imprimiu à fazenda macia. Vestidos leves balouçando com os passos um pouco coxos da avó, coitada, tivera trombose nas pernas e se recusara a cortá-las, uma tão mais fina que a outra, e a avó lindamente anda de um lado para outro sem nunca reclamar, sempre com um sorriso cúmplice às nossas doces travessuras.
          A avó alimentava gatinhos perdidos, sempre havia um cego, um coxo, um feio que carinhosamente lhe enroscavam às pernas enquanto ela ralhava de leve:
           - Sai daí Menino, ara sô.
          O almoço era sempre pontual, arroz bem cozido, o cheiro da comida da avó, que delícia! As compotas esperando para serem abertas a tarde e depois do almoço ela servia o pudim já fatiado que cortara para nos dar “um teco” escondido da mãe.
           A avó tinha um quintal que dava para o mundo todo, com duas mangueiras frondosas imensas no fundo, o quintal da avó permitia aventuras mil, explorações, sentávamos na areia macia debaixo das mangueiras por horas a fio. Cozinhávamos nossos bolos, construíamos casas, brincávamos de roda rodeando a mangueira feliz. As mangas maduras eram bois, ora paredes das nossas casas, ora barreiras das nossas estradas. As seriguelas sempre estavam verdes, mas a avó deixava a gente comer escondido, com sal, da mesma forma procedia com as laranjas preciosas do avô, escondendo-nos detrás da casa a sorver o fruto azedinho com sal.
          A avó tinha uma cama de armar, já saíamos de casa disputando quem dormiria nela, era uma caminha pequena, de ferro verde, que doía as costas o dia todo na manhã seguinte, mas que a avó enfeitava das suas colchas de retalho e nos aquecia com suas histórias. Ora dormíamos na sala, a mãe ajuntava duas poltronas e fazia um berço improvisado; o tique-taque do relógio acompanhando as noites insones, enquanto os roncos altos ressoavam em competição no silencio da noite.
           A avó tinha perfumes na penteadeira, vários, misteriosos e proibidos. Sempre teve uma boneca em sua cama, deixava-nos segurá-las com muita cautela, supervisionando-nos. Seriam lembrança talvez dos bebês todos que tivera, da doçura de ver um bebê repousando entre seus travesseiros fofos?
           O assoalho rangia quando levantávamos para explorar a noite, um medo horrível pensar nos monstros todos que viviam embaixo daquele assoalho mal assombrado. No quarto havia um guarda-roupas escuro, muito antigo com uma gaveta ampla cheia de fotos antigas que o tio Isaías minuciosamente havia colecionado. O pai pousando com uma motocicleta, o tio Davi com sua farda, a tia Rose espiando de uma janela, tão sorridente. Retalhos de uma outra era, de outros momentos que nos fitavam em incógnita. Durante horas, por noites inteiras fui companhia a essas fotos em preto e branco, tão cheias da cor de ontem.
             Ouvíamos também os “causos”, imagine, contavam, a tia Célia chegara mancando um dia, da porta da casa da avó se avistava a rua da praça longe, e de lá a avistaram, a avó toda intrigada. A tia devagarinho caminhando, sorvendo um picolé amarelo. Chegou em casa e a avó indagou preocupada o que acontecera a seu salto e ela com sua voz também lenta respondeu - acho que quebrou. Nós ríamos da lentidão engraçada da tia.
            Outra vez estavam fazendo o bolo para o Réveillon, o tio Isaías montando o palco, microfone, luzes coloridas em volta do palco, folhas de coqueiro. Nossos olhinhos pasmos fitando estupefatos as promessas de tantas alegrias. As mulheres todas na cozinha, batendo o glacê para não perder o ponto, tentando driblar o calor e então acabou o açúcar. A avó enviou a tia Célia para comprar açúcar de confeiteiro “correndo” no armazém da esquina, meia hora depois ela chegava com o passo lento, arrastando a chinela e deitou o pacote de cinco quilos de açúcar cristal em cima do bolo dizendo espaçadamente – só tinha “pelóra”. Nós ríamos de doer a barriga.
             Ai a mãe nos contava escondido que quando o bolo ficou pronto, todo decorado de glacê rosa e branco, apanharam uma rosa do jardim e pediram para a avó fazer as honras de colocar no bolo que estava escondido no quarto da tia Cida para não beliscarmos o glacê, horas depois quando foram buscar, a avó tinha enterrado o galho plantando a rosa bem no meio do bolo. Risadas tão gostosas.
             O tio era radialista, musicalizava o evento todo, discursavam, o pai era sempre convidado a discursar também. Falavam das alegrias, das tristezas de um ano todo, durante um momento compartilhávamos em perfeita comunhão as dores e felicidades comuns. Vestiam ternos e falavam tão elegantemente, como se fossem presidentes, autoridades. A vida fazia tanto sentido, era o ponto final daquela jornada, pois na manhã seguinte, juntamente ao novo ano iniciávamos uma nova etapa com a esperança reforçada: não estávamos sós. O tio ainda gravou a célebre música de Michael Jackson “We are the world”, e foi traduzindo como se fosse um poema, as poderosas vozes ao fundo, compartilhávamos junto ao mundo o milagre daquela intenção bonita.
            E o pai ainda contava que, quando pequeno, sua única calça para ir a escola estava curta, mostrando-lhe as canelas, o pé encardido, o sapato furado; foi então que um dia seus pais sairam a lhe comprar uma calça nova no armazém. O pai peralta, assim que vira os pais pelas costas correra e com a tesoura afiadíssima da irmã que aprendia costurar picou a calça em pedaços miúdos, e aguardava ansioso a chegada dos pais com a calça nova em seu calçãozinho. Os pais só chegaram a tardezinha, vinham com as mãos vazias pois não encontraram calça alguma e o pai ficou sem ir a escola por uma semana inteirinha. A vó lhe dera uma das maiores broncas:
           - Ei Miro! Mais é trapaiado memo.
          Certa vez a vó contava que quando compraram o sofá da sala a vizinha viera toda esbaforida, curiosíssima assim que o caminhão (imagine que chique) encostou para fazer a entrega, a avó palestrava:
            - É dona Nena, compramos o sofá com o décimo tercero, agora podemo recebê mió as visita.
            Ao que a vizinha imediatamente responde:
           - Nós somos mais prudentes, compramos uma vaca, agora quando precisarem de leite vão ter de tirar leite do sofá.
           - E quando suas visitas chegarem vão sentá na vaca – respondeu a avozinha.
           De outra feita a mesma vizinha bisbilhoteira, havia tirado a avozinha do sério, e a avó chegara toda vermelha, suada e descabelada falando muito alto:
           - Hoje eu acabei com a raça dela, xinguei ela de tudo quanto nome, até de vaca!
           O pai presenciou pela televisão o homem pisando na lua, contava com entusiasmo como foi a missão toda, ainda hoje sai recitando pela casa as célebres frases de Neil Armstrong.
           -“Este é um pequeno passo para um homem, um  grande salto  para a humanidade”. - A lua se fazia tão ao alcance na noite fria e assustadora do quintal sombrio.
O banheiro da casa da avó era um cômodo enorme, com um chuveiro de cano bem comprido, chão de cimento, janelinha de cortininha estampada e um espelho que a gente se via banhando fazendo caretas mil. Um banheiro marrom, à direita uma prateleira muito alta cheia de revistas de fotonovelas que eu tentava ler às escondidas. Havia sempre alguém gritando de fora que era o próximo, outras vezes havia fila. A gente saia recendendo a sabonete Gessy, Vinólia que sempre lembrava a propaganda na tevê com as moças elegantes cascavelando ao som da primavera de Vivaldi.
O banheiro saía para um rancho feito entre um comodo que o avô guardava suas ferramentas de carpintaria, o rancho era sempre cheio de pó de serra que gostávamos de brincar pegando aos punhados e lançando ao ar, ao que todos adultos ralhavam em coro. O avô era Zé, Vô Zé, ligava o radio todas as manhãs cedinho, um rádio marrom com uma espécie de tapeçaria na frente e dois botões de controle. O radio competia com a família inteira falando alto, rindo, ralhando. O Vô Zé sempre foi caduco a lembrança dele vem sempre entre os risos mal disfarçados, todos contavam uma ou outra que ele fizera. Risos carinhosos.
Houve um ano que o vô fez duas cadeirinhas, pequenininhas, todas envernizadas e nos presentou, à caçulinha e eu. Que felicidades aquelas cadeiras nos propiciou... fomos alunos em escolinhas imaginárias, galgamos como escada, dançamos a dança das cadeiras, fizemo-las camas para as parcas bonecas, alcançamos pitangas mais altas. A cadeirinha viajou para Votuporanga, São Paulo, Araçatuba, Peixoto de Azevedo, Carro Velho... Companheira das nossas aventuras. Lembrança do riso satisfeito do vô ao entregá-las:
- Aim, tó que eu fiz po ceis.
Três dias depois vinha dizer:
- Oia que saudade do ceis, que hora ceis chegaro?
Tinha uma mania de coçar a nuca quando estava irritado e nunca deixava por dizer coisa alguma:
- Ai tava bão do ceis catá essas mala e ir embora.
A avó berrando do tanque:
- Zé! Mai é caduco memo, o Miro não liga não.
O Vô estava entalhando flores em uma caixa, não uma caixa simples, não senhor, era uma caixa engenhosa, com segredo, precisava estar aberta, puxar uma tabuinha da frente para escorregar a parte de baixo e deslocar a caixa escondida. Uma caixa vazia sonhando com segredos guardada no maleiro do guarda-roupas.
Certa vez a avó tinha ganhado neném, estava ainda de resguardo e o avô saiu para passear o bebê. Voltou todo orgulhoso, entregou o bebê para a avó e declarou:
- Registrei o menino!
- O Zé que nome cê pois? – indagou a apreensiva avó.
-Donozor – o avô declarou triunfante; tinha tido a ideia maravilhosa de colocar Nabucodonozor, como o escriturário do cartório lhe sugerira que ficaria muito longo, abreviara para Donozor.
Dizem que a avó apenas chorou. Mas hoje ele tem apelido de Zor, e lhe cai muito bem o nome, obrigada. Coitadinho chorava muito quando pequeno, até descobrirem que ele não enxergava bem, foi só colocar óculos que o choro (e tombos) pararam.
Havia ainda a estória que a vó contava, da finada Nonó. Fora uma mulher muito preguiçosa, que rasgando roupas ela as consertava dando nós; o tempo passava e as roupas ficavam cheias de nós. Passando desta para uma melhor, seu esposo casara novamente. O tempo foi passando e o pobre homem se deu conta de que, ao invés de costurar, ou amarrar as roupas, a nova esposa de rasgava a parte comprometida e jogava fora.
- Ai que saudade da finada Nonó, pelo menos aquela dava nó...- choramingava o pobre coitado.
A mãe sempre repetia esta frase se estávamos com má vontade para fazer alguma coisa.
Ir ao banheiro a noite, xi uma coisa macabra. Sempre precisávamos acompanhante, pois o banheiro ficava lá no meio do quintal, íamos pisando com medo de cobra, sapos, bandidos, monstros trogloditas aterrorizantes. Sempre havia um engraçadinho a pregar peças esperando no quintal. O banheiro ficava sombrio, as telhas lançando sombras esquisitas, reflexos amarelos cinzentos na parede desbotada, desenhando figuras do além, uma luz bruxuleante quase minguada de todo. Monstros sem fim habitavam o banheiro noturno. Apenas adultos quando iam aos pares pareciam não se importar das sombras todas, demorando horas no silencio do quintal.
Outras noites tantas passávamos insones, Dona Nersa, a vizinha, fazia um tal de forró que ia pelas tantas, barulho de copos, risos, falas desconexas altas ressoando pela casa da vó. Músicas sertanejas tão altas que doíam os ouvidos. A mãe não deixava a gente ouvir rádio lá em casa, ficávamos em silencio copiando as letras mentalmente. A avó reclamando da barulheira, a mãe falando da “pouca vergonha” e a tia Cida bailando pela casa:
- Ui esse é chote!
No dia seguinte todo mundo acordava com olheiras, ninguem nunca reclamava.  Era só abrir as portas marrom-carmim que o quintal cheio de possibilidades se abria, às uvas verdes azedinhas penduradas na parreira, convidativas, tinhamos de afanar escondido pois o avô ansiosamente as esperava madurar. Tomávamos café no sofá da área, pão fresquinho da padaria e manteiga fresca que a avó batia. Café no copo americano, quente, docinho. O trem aparecia ensurdecendo tudo, por um instante a paisagem toda sacudida pelo vibrar do trem nos prendia no instante indefinido.
Houve tempo de chorar as pitangas... O avô fora diagnosticado com angina, ficava quietinho agachado pelos cantos, gostava de ficar de cócoras, ressoa ainda na memória os ais ocasionais. Uma dor que doía na gente também. Faleceu dentro de pouco tempo, a casa da avó se vestiu de luto, as portas que se abrem à pitangueira ilustravam ao fundo da segunda sala o esquife marrom escuro, a coroa de flores tristes e o som da tia Lena que chorava um ai sem pausa, constante, um ai que grita ainda no escuro das noites tristes. Cada um que chegava os ais se intensificavam, recontava-se como fora, a que horas. A avó serena tinha o semblante perdido, duas lágrimas constantes escorrendo sobre a face, duas alianças no dedo desta que agora seria para o resto de sua vida só. O tio Isaías ralhara pois eu lia fotonovela. Que vergonha, tão distraída eu lia e ele falando do desrespeito, que as crianças hoje em dia não tem respeito algum para com coisas serias. As palavras dele machucando tão fundo. A dor do luto misturando a dor da vergonha.
       O tio estava com uma cirurgia marcada, transplante de coração, dias depois foi visitar-nos, olhou-me nos olhos e tirou uma bolsinha dourada de moedas, cheinha, e me jogou a bolsinha dizendo:
          - Tó, para você não dizer que nunca te dei nada.
         Coitado do tio, nem imaginava o quanto já havia dado, as lembranças sem preço, o sorteio na rádio do carrinho de boneca que ele ligara e dera meu nome, viera para casa correndo quando soube que ganhamos e ligou o rádio para eu ouvir meu nome sendo chamado. Fomos buscar o carrinho lindo, cor-de-rosa no Feirão do Alumínio de Votuporanga. Os discursos cheios de profundidade nos finais de ano. As músicas, poesias que recitava. O estilo dos Beetles. O tio tinha alma de artista. Tinha trazido pipoquinhas de saquinho vermelho, docinhas. O tio ficou a noite toda, foi embora de manhãzinha. O transplante tinha sido um sucesso absoluto.
         Foi numa época em que não encontramos pitangas, desde um pouco antes do funeral do avô não havia rosas e nem flores no jardim seco da avó. A terra vermelha arenosa, a avó apontando chorando que até a samambaia secara. A casa da avó mais lúgubre ainda, mais escura, mais triste, o caixão no mesmo lugar em que o do avô ficara. O tio tão jovem, apenas vinte e dois dias depois do funeral do avô, seus três filhos, a Eliana, a Débora e o pequeno Anderson com os olhos azuis tão inchados e vermelhos de chorar a partida do pai. Tarde triste quando chegamos em casa. Sem palavras, um silêncio que desde o cemitério nos seguia. Foi a primeira vez que vimos o pai soluçando, agachado como o avô fazia. Chorou muito soluçando em frente ao muro de placas sujos de terra vermelha, o sol se punha e a mãe acompanhava com lágrimas silenciosas. Uma tristeza quase palpável, suspensa no ar.
          O tio deixara em casa, no maleiro do guarda-roupa escuro, uma coleção de discos de vinyl, uma maleta marrom com papéis avulsos, e um mini diário com pouquíssimas notas enigmáticas. Uma delas ainda nítida na memória “sei lá, medo”.
          A avozinha já não mora mais lá, a casa já não possui mais o banheirão no meio do quintal, nem a oficina do avô. O tio se foi, o avô, o primo Paulo animadíssimo... as filhinhas gêmeas que nasceram mortas. Que dor sentíamos, crescemos imaginando as bebezinhas de cor-de-rosa sepultadas no frio chão.
         Houve também épocas em que as grávidas ansiavam o sabor das pitangas, em que os bebês as experimentavam maravilhados pela primeira vez, ávidos por mais. As mães filheiras aplaudindo a meleca das criancinhas.
         A pitangueira ainda existe, opulente, é a primeira que avista-se ao longe, balançando as folhas de boas vindas. Acima do telhado, a chaminé se ergue, uma chaminé de uma era que não existe mais, de um fogão a lenha que não mais se acende, mas que queima na memória defumando a lembrança do sol batendo na brancura da chaminé contra o céu azul celeste, com núvens brincando, criando degradês bicolores enquanto um galo de metal gira ao vento, apontando um norte já tomado.


Postar um comentário