quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O enterro do Poeta


Lamentem-se viúvas
pranteiem órfãos
envolvam-se de negro
mães doravante silentes

Quem poderia te chorar Poeta?

Olhos de pedras
voltem a verter suas águas
impuras

O Poeta já não é

Virou o bixo
que queria devorá-lo

Levanta cedo
mas está morto
labuta
paga as contas
tenta acertar em tudo
já não respira
come
como o verme que o come
um dia comeu
e quando cerra as pálpebras
já não sonha

Adeus Poeta
Adeus caminho solitário
Adeus consolo transcendental

o Poeta não se tornou estrela
integrou-se
ao nada
à escuridão
tão longe
nem mesmo a luz
de outras estrelas
podem brilhar em si

A marcha fúnebre é celere
os abutres esperam famintos
que os alimente 
quotidianamente

O Poeta está morto
mas ainda dói


Fabiana Avila
13/02/2020

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Nada em flor


Quando eu já não for
Plante-me um jardim
Deixo este testamento
feito de sementes de amor

Se por acaso lembranças
sussitarem em teus olhos
cascatas de dor
Lembre-se só doerá
se houve amor

Quando as lâmilas verdes
irromperem do solo
envigoradas, viscosas
cheias de esperança
das flores que hão de vir
Contrua um trono feito de pedras
e uma fonte para descansar
teus pés cansados
Afrouxe os nós
não, não espere para sorrir

Quando o trinar dos pássaros
te acordarem deste sono que é a vida
verás que não estás,
nem nunca estivestes só

Cultive-me um jardim
de árvores e frutos
multicolores amores
epifanias em flores

Regue regularmente
as lembranças, sementes
E quando os feixes luzentes
Beijarem cálidos, mornos
as pálpebras dormentes

Acorde de leve
Boceje
e acompanhe sem pressa
a dança de uma borboleta

Apenas passo
ao passo que passas
Rastos apagados
tandos que passaram
que amaram

O amor fica
O inverno passa
A relva faz-se verde
E os pássaros filheiros
Anunciam vida
sob o tilintar secreto
dos lírios dos vales

Faz-me brotar de novo
E ouvir outra vez
O mensageiro do vento


Fabiana Ávila

sexta-feira, 15 de março de 2019

Antídoto



Aflito
Reflito
e aplico
em fluxo fluente
a flexibilidade léxica
às flechadas disléxicas
cujas setas de vernáculo tóxico
lancinantes afligem
flagelam, infligem
fincam como sufixo
inflexível em falácias
inflamantes
Faces perplexas
fixas a teu lixo
afixam difamantes
irrefletidos cravos,
furos, feridas
Fito-te do crucifixo
frágil, flâmula trêmule
ante meu afeto anti-circunflexo, diamante
obnóxio inflito,
desço
e te ofereço uma flor

Fabiana Avila

terça-feira, 12 de março de 2019

Concordância Em Sol Maior


Dança
pequena bailarina
nas cordas rijas
da infância

Com cor
rodopia na dança
da circunstância:
és criança

Paira etérea
substância atômica
e em constância
translada à chama

A pequena aleluia
encantada
pela luz morna
em tez macia
estremesse, cresce
efervesce na dança

Contrastasta o profundo
Aurora Boreal
farfalha como seda cintilante
contra o tafetá da noite

Ah voz pequenina
quando falas, cantas
borbulhante
sussurrante como bolhas em taça

Concordância
Esta tríade que soou em acorde
desde as cordas do universo
e te trouxe de lá

Dissonante este tempo
cujo pêndulo balança
retumbante
em nossas cordas já bambas
e cadencia a passos lentos

Em nossa aparente inércia
espectadores solícitos
assistentes somos
e nunca desapontas
resplandeces neste palco
em que saltitante danças!

Pequenina e translucente
alçando vôos, lançando sementes
bates ao vento constantemente
asinhas de esperança

Tanta ciência na flor de sua inconsciência
que perfume essa tua infância!


Fabiana Avila
12 de março de 2019

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Coisas pequeninas



Coisas pequeninas:
as células,
as sementes,
as gotas de orvalho,
lágrimas quentes
Dentro da membrana citoplasmática
o código enigmático
a sequência matemática
Exata
Das coisas que são
e das que hão de ser...
Coisas pequeninas:
a mãozinha quente recém-nascida
a florzinha cálida desabrochando em vida
sorrisos desdentados
as listras das abelhinhas
Coisas pequeninas
as ternuras, as finesses
as delícias mornas
de tantos amores
minusculamente,
estruturados
entre as fibras rubras
do coração que pulsa
Coisas pequeninas:
as estrelas,
pontinhos no céu sem fim
tão longe,
mas tão brilhantes
dentro de mim

Fabiana Avila
08/01/2019

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Mãos Atadas

Stanislav Szukalski - Struggle


Ah dedos longilíneos
dedos cruéis, mãos ossudas
Mãos maquiavélicas
atadas ao pescoço
sufocando o canto
suprimindo ares
exprimindo pranto...

Sob o tato frio
o cranio lateja
e desenrolando constante
o tapete vermelho pulsa,
se apressa!

Ah dedos cegos
vendando às iris
o universo infinito,
cerrando as janelas
e maniqueísticamente
vendendo triunfos
em fogos de artifício

Mão
entre teus vãos dedos
quanto tempo cabe
antes que tudo se acabe
mão finita, contável
hesitante

Garra cruel
como pássaro fascínora
encara, assassina
esmaga a presa impotente
que hipnotizada sob teu olhar
padece
e expira,
uma última transcendência

Fabiana Avila

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Irmãzinha

“Vem com a tata, vem!”
Sem hesitar ela vem, serelepe,
sainha amarela de bolsos grandes
cabelos compridos, soltos, sem pentear
Seguro firme a mãozinha da irmãzinha querida,
olho dos dois lados
sentindo o pêso da responsabilidade
atravessamos a rua Rio Negro
de terra, lama e valas profundas
O pasto verdinho convida a correr,
amparamos o arame farpado
eu para ela, ela de dentro, para mim
Adentramos ao espaço aberto
o mundo se torna bicolor, azul e verde
corremos, pulamos
beijamos as bebezinhas gêmeas
uma minha, outra dela
Ao longe no pasto, à direita,
uma mangueira
frondoza, generosa de mangas,
futuramente cercada e escola Juraci
à esquerda distante ainda, um muro longo,
branquinho, latidos de cães…
ferramos os dentes nas goiabinhas
verdes ainda, corações ainda sem sementes,
marrentas, pés raquíticos à beira do barranco
“Tumba, la tumba, la tumba, la gue..”
às doze badaladas esqueletos emergem das tumbas
um a um, ossinhos ágeis, frágeis dançando ao vento
máscara feita de dedos ossudos
a irmãzinha não consegue,
“tata, faz para mim!”
poeira e riso no sol poente
“Vou-me embora prá bem longe
Esta é a triste verdade,
talvez sozinha eu encontre, a paz e a felicidade”
- canto alto, sempre melancólica
Ela interrompe, alegre:
“Quando eu era neném...”
à tarde febril votuporanguense
daquele ontem tão pueril
cantamos o ciclo esperado
às mulheres de então
Minha irmãzinha, minha responsabilidade,
depois de escorregarmos incontavelmente
o barranco vermelho
da D. Zulmira,
voltamos para a casa
descalças, rubras de barro
sôfregas de felicidade
A irmãzinha perdeu sua boneca,
ela é pequenininha, dou-lhe a minha
ela cessa o pranto
mas ranheta, não quer tomar banho.
Mais tarde sob a manta (calor ou não)
Ela aponta o dedinho
para o quadro da moranguinho,
quer que eu conte a estória do sapinho
sobre a vitória-régia outra vez
Dormimos ainda ontem!
Acordamos tanto tempo depois
Ainda sinto a mãozinha quente
“Tata tô com medo, acende a luz”
acendo pronto e seguro ela pertinho
para não ter medo,
mas ela não sabia que eu também tinha medo
e que ela me dava uma baita coragem
Vim embora para bem longe, já não estou sozinha,
às vezes temos paz, foram tantas felicidades
Trouxe comigo essas memórias preciosas
bem guardadas no baú da saudade
e hoje que ela completa anos,
mando estas duas pedrinhas brilhantes
lapidada dos sonhos que sonhamos juntas
para brilhar lá longe, dentro dos olhinhos dela