Sete anos.
Uma vida inteira em fragmentos pelo universo
afora. Enigmas escritos em estrelas que versam em música, as metáforas não
pronunciáveis em palavras. A música de um choro, o gemido da criança expelida
entre lágrimas de amor.
Tudo faz sentido, ela segura o anel
e suspira, enfim, a verdade.
As cores dançam nas ruas, nas
vitrines, as árvores dizem tanto no balouçar de suas folhas, e quando o outono
lhes despem nas frias noites, dizem tristes histórias uivando ao vento com seus
galhinhos esturricados o sentido da primavera, pelo contraste da intensidade de
um inverno. Todas as coisas dizem seus mistérios.
Tanta dor.
A pedra cintila azul. Topázio azul,
um azul de profundidade infinita, de lágrimas, de tristezas passadas e por vir.
Uma coisa. O anel é apenas uma coisa, o veículo da mensagem que veio desse
entender de hoje, dessa sensação de adivinhar o que há por vir estampados na
dura permanência em forma de uma pedra. Pedra que já esteve enclausurada no
subsolo, em repouso, em silencio profundo, parte da sustentação deste solo que
sustém o peso das gerações que passam. Os grãos da tua poeira falam.
Um dia tesouro do garimpeiro, noutro
do comerciante, na mão da graduanda feliz, da esposa, da mãe.
A pedra nasceu bruta, foi gerada
pelo tempo, pelas condições propícias do solo, suja, foi manejada pelos homens
mais rústicos de mãos calejadas. A pedra sofreu perdas imensas, partes de si
amputadas para sempre para lhe darem o formato retangular. Enfrentou as lixas
cruéis, o calor das fricções em polimento.
O designer um dia se assentou, de
lupa na mão examinava-a entre a pinça pungente. O designer avaliou-a do ápice à
base, esquadrinhou sua beleza e inspirou-se nos arabescos para acentuar-lhe a
glória azul; decidiu que a pedra descansaria em uma liteira de ouro.
E foi assim, manhã de 31 de outubro
de 2003, dia de halloween que ela passou pela vitrine da loja e entendeu que a pedra
lhe dizia um enigma e embora não pudesse entender naquele dia, não pode
resistir-lhe como que hipnotizada. Uma vez tocada, se tornou escrava do anel,
embora não pudesse levá-lo pois nunca poderia comprar joia tão cara.
No ano seguinte ela partiu para bem
longe, iria estudar por um ano. Era uma estação de milagres tantos. Conheceu o
amor de sua vida, um amor barroco. Casou-se. Havia deixado aqueles três anos
sonhados da faculdade para trás. Sofria. O que fizera? E agora? Nada faz
sentido na confusão da mudança. Traçara caminhos na areia, e o vento do tempo
os apagara.
Em 2007 retornou, não podia viver o
transtorno de abandonar um sonho tão imenso que havia sido aquela faculdade.
Deixou o esposo, o cão faleceu, o dono da loja pediu para o esposo entregar as
chaves em 120 dias, depois de 16 anos no mesmo local. Caos. Lágrimas de
saudade. Noites em claro mergulhada nos livros, sorvendo o café do pai. Viera
dizer adeus. Andando nas ruas tão estranhas quanto familiares, avistou o anel
de longe. Já nem lembrava dele. Ele ainda esperava por ela.
Decidiu que seria seu anel de
formatura. Faltavam os símbolos, o ourives cravejou à direita uma flor-de-lis e
à esquerda a coruja. Comprou a prestação, agora podia pagar as prestações. A
pedra tinha um risco, razão porque permanecera esperando, uma marca sulcada na
superfície. O ourives ofereceu desconto ou lapidar novamente. Optou por lapidar.
A pedra guarda essas marcas dos últimos toques.
O anel fica em uma gaveta, na maior
parte do tempo, sempre grita de lá quando a gaveta é aberta. A estória toda lhe
passando por um instante pela mente. Oras ela sorri, outras chora. Uma pedra
cor da água da saudade.
Dentre as peças tantas do
quebra-cabeça enigmático, outro dia ensimesmando começou a ler coisas antigas.
Relembrou aquele texto, o dia do halloween, os cheiros todos, os risos da
amigas que não lhe sorriem mais. Ao final daquele relato, a data: madrugada de
01 de novembro de 2003.
Exatamente sete anos depois, às
2:57h puxara os bracinhos da filha que nascia para o mundo para si. Abraçara o
prólogo de uma nova história. O anel tentara lhe dizer, ela sabia em sentimentos
e só agora fora concedido o conhecimento daquele mistério. A pedra do anel, a
pedra do mês da criança, a porta de um segredo ainda por vir.
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