quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Cor-de-rosa


            É maio, um cheiro de brisa invade as manhãs no reino distante das majestosas paineiras em flor. Elas vivem no alto da montanha do Pozzobom. Em meio a relva fresca, um caminho de cascalho abre passagem aos dois lados: de cima, abaixo. A grama floresce, são pequeninas flores amarelas que parecem pompoms, peninhas de pintinhos recém-nascidos.

            Há flores minúsculas e roxas, quase negras que quando apertadas entre os dedos deixam manchas rubras. O burburinho de risos passeia ao vento; risos felizes de crianças, os primos queridos. Sempre encontra-se em meio a vegetação selvagem algumas marias-pretas, madurinhas. O ar frio da manhã enche gostoso o peito, cheiro de grama pisada, o cabelo acariciando o rosto de leve.

            O “descidão” é o melhor escorregador do mundo. E lá de baixo pasmos cismamos por um instante a beleza das paineiras. Como uma nuvem de esperança os periquitos filheiros chegam em bando, e a manhã se enche de canto; misturados risos e o barulho dos periquitos. Começa a chover pétalas, o céu turquesa, as nuvens esparsas e imensamente brancas emolduram a imensidão rosa. Um cheiro suave de flor começa a rescender.

            A subida é íngrime, mas quando se brinca de “quem chegar por último é mulher do sapo” não se percebe se sobe ou se desce. O riso tem o mesmo som. E lá de baixo da paineira está ela, com os pezinhos descalços acariciando a grama, a mãozinha delicada tentando enlaçar o tronco robusto da paineira, tão gentil que os espinhos afiados não lhe causam dano algum. Ela sempre sorri, uns dentes brancos lindos e covinhas dos dois lados do rosto; ela espera pacientemente que lhe acerquemos.

            A chuva de pétalas é mágica: um mundo rosa de suavidade e doçura qual algodão doce. Em meio a chuva ela rodopia com seu vestidinho branco, esvoaçante, cantando sempre dança em meio a chuva cor-de-rosa com um ombrinho delicado à mostra.

            “Meu potinho de melado

             Minha cestinha de cará

             Quem quiser casar comigo

             Feche a porta e venha cá

             Ô lê lê lá lá...”

            Corre ligeira para a cestinha de vime. Retira uma colcha de chenille veludosa; lança-a com as duas mãos ao vento que vai abrindo as dobras da fazenda macia. Delicada e ligeira, com as pontinhas dos pés ela pisa o tecido e se assenta, graciosamente. O vento brincalhão lhe joga o chapéu de palha na grama úmida.

            Como um íma nós corremos para ela, enchemo-lhe os cabelos longos, fartos e negros com as flores rosas. Há flores em seu colo e ela enfeita o chapéu cantarolando sempre. E como as saúvas nós todos em uma busca frenética lhe trazemos as frescas flores que caem.

                    Tia Maria, olha esta que linda!

            Ela sorri, agradecida mostrando as covinhas encantadoras e começa:

                    Era uma vez...

            Em segundos estamos todos em silêncio, apenas o som da manhã orquestra o fundo da estória encantada que lá vem. Os olhos brilhantes e ávidos fitam a espera enquanto assentados a sua volta ouvimos. Eram estórias de princesas encantadas, de moças gentis que só faziam o bem; de homens valentes, príncipes que vinham e resgatavam a princesa de uma sempre buxa malvada. Foi assim que conhecemos às princesas: Cinderela, Branca de Neve, Bela Adormecida, Bela... Todas tão diferentes porém tão iguais: gentis, espirituosas, alegres e sempre muito bondosas.

            E os maios foram se passando. Ela conhecera um moço muito alegre que visitava aos domingos a casa do avô em sua motocicleta. Resolveram um dia que se casavam. Tia Beth também conhecera a um rapaz. Com a tia Beth canta-se, sempre. Seus dedinhos pequeninos e calejados das cordas do violão corriam frenéticos acompanhando a voz maviosa nas tardes de domingo. Job controlava o gravador misterioso que o avô sempre ralhava se se apertasse as teclas. Como as duas estavam casadoiras, resolveu-se que se casavam no mesmo dia.

            Foi em maio, a mágica das paineiras traduzidas num bolo de escadas cor-de-rosa. Lindo. A caprichosa mãe do noivo (também Maria) o fizera. Elas chegaram de branco tão limpo que doía os olhos ao sol. Vestiram coroas com gotas na testa e um lindo véu que voava ao vento cintilando das minúsculas gotinhas transparentes que lhes ornamentavam. Etéreas posavam para o fotógrafo. As noivas mais lindas que já se viu, segurando as mãos sorriam felizes uma para a outra, vislumbrando as delícias do encanto do momento. Véus brancos, flores rosas, céu azul.

            Outros maios vieram. Alguns acerca das paineiras, outros, tão longe. Crescíamos impacientes do dia em que poder-se-ia feqüentar os círculos concêntricos das moças bondosas.

            Então vieram os doze anos, havia uma reunião que se fazia na igreja somente para jovens; vesti neste dia  o meu melhor sorriso e fui, encantada em conhecer jovens dóceis, mal podia esperar pelas amigas todas que teria.

            Já no pátio sorria olhando para os formosos vestidos coloridos, procurando por olhos, sem contudo encontrar nenhum. Não vencida aproximei-me do bebedouro e exclamei às duas jovens que lá bebiam:

                    Que lindo dia, não?

É minha primeira reunião!

            Com as bocas ainda entreabertas elas pasmaram-se estarrecidas por um instante, a água escorrendo-lhes boca-abaixo. Tornaram-se, fitaram-me de alto abaixo, com um meneio de ombros rolaram seus olhos de suas órbitas e me deram as costas. Meu sorriso ainda congelado murchando aos poucos.

            Depois disso muitas outras vieram, muitos meneios de ombros, comentários malvados, suspiros de exasperações. E aprendi assim que as moças não eram princesas; não havia encanto nelas, não havia senso de irmandade e sim rivalidade. As moças gentis se desvanesciam como o orvalho após o sol sair.

            Durante muitos maios magoada eu sentia saudade das princesas. Era continuamente admoestada a fugir dos tons pink.

                    Demonstram fraqueza – uns diziam.

                    Encouraja à fé em coisas que não existem – diziam outros.

                    Mulher tem que ser forte! - exasperados outros apregoavam.

            E tudo não fazia muito sentido até o momento em que me dei conta de que na verdade pink, rosa, cor-de-rosa não rotulavam fraqueza alguma, e que o rosa das paineiras não nos havia de forma alguma feito acreditar em coisas que não existiam: falávamos de bondade, de amizade, de vínculos de amor tão fortes que nem a morte conseguia separar.

            Hoje tão distante das paineiras eu sei que aprendi, em imensa parte com minha tia Maria a como ser forte, como acreditar nos sonhos encantados porque eles são sim reais. Minha tia Maria foi minha primeira princesa.
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