terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

INTERNET COMUNITÁRIA



            Você sabia que há um computador disponível à comunidade no mini-hospital do pozzobom? - Foi a frase que incrédula ouvi no ponto de ônibus dia destes. Internet de graça? Isto é incrível - imaginei já ponderando nas pesquisas todas que poderia fazer para enriquecer meus trabalhos acadêmicos, e isto aos domingos e nas madrugadas.

            Tomei um banho demorado, afinal não é todo dia que se faz uma conexão à internet. Perfumei-me e levei comigo tudo que iria precisar: canetas, caderno, disquete... Estampei o rosto com o melhor sorriso disponível e adentrei às portas do pronto-socorro como quem adentra a uma nova etapa existencial.

            Tive que esperar algumas horas, afinal as crianças do bairro já haviam descoberto alguns sites de jogos e apinhavam o pronto-socorro numa euforia incrível. Havia até um  garotinho de grandes olhos e pernas incrivelmente finas, de uns três anos de idade sugando algo que lembrava muito um pirulito.

            Enfim, chegou o momento solene em que assentei - me à frente do computador. Soube então que teria dez minutos de conexão, mas não atentei para o fato até perceber que já os havia gasto aprendendo como se utiliza o sistema. Levara comigo alguns endereços de sites, mas soube que não poderia visitá-los, pois o sistema já fornece os endereços que você pode visitar. Tudo bem - pensei e comecei a pesquisa sobre Almeida Garrett que meu professor solicitara. Consegui adentrar a algumas bibliotecas que discorriam sobre o escritor, já estava até eufórica quando de súbito apareceu novamente a mensagem de que meu tempo se esgotara. Aquilo começou a inquietar-me, mas esperta como sou não titubeei: muni-me de um disquete com ares de quem encontrou a solução de tudo, entrei novamente no site e apressadamente cliquei para salvar , entretanto, atônita recebi o recado de que o computador não permitia que se salvasse o conteúdo nele pesquisado.

            A esta hora eu já tamborilava com os dedos a escrivaninha, então tive a idéia brilhante de imprimir o conteúdo pesquisado. Olhei esperançosa para a recepcionista do hospital apontando a impressora, contudo ela ofereceu-me um longo sorriso amarelo com um meneio de ombros: - não imprime e nem há tinta na impressora - disse.

            Não sei o que houve comigo, mas as crianças começaram a esgazear os olhos e uma a uma foram se afastando em direção à saída. Ainda bem que eu estava no hospital, disseram-me bem mais tarde, teria sido fatal se não houvera sido socorrida de imediato.

            Do quarto onde permaneci de repouso eu ainda podia ouvir claramente a voz insidiosa do garotinho de pernas finas:

            - Tato, deixa eu tilá o papel do pililito, deixa!

            Prontamente a voz severa de um garoto mais velho respondia:

            - Não! Quem comprou fui eu, se tirar o papel eu chupo!


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