sexta-feira, 11 de maio de 2012

Oroboro oroborO


The Sphinx by Auguste Rodin
National Art Gallery Washington DC

Às mães que ficaram...


A imagem da tua mãe
Uma esfinge com garras, cabelos longos
uma esfinge amarela
de olhar enigmático
Esfinge pragmática
quase inundada das areias do tempo
rodeada de pirâmides austeras espetando o céu
apontando às estrelas escritas em luz
na escuridão do espaço
Peso na memória a imagem de vento
em nitidez apenas as cores desbotadas
Uma esfinge que fita do passado
fria,
Uma mãezinha querida,
imagem do embalo que tu criaste
do calor da cobertinha que te enrolou
dos peitos que te alimentaram
das entranhas aconchegantes que te
transportaram de lá
Âncora suspendida precocemente
que te deixou a deriva neste mar sem fundo,
barco delicado
feito da casca do ovo ainda
Mãezinha,
Ausência tão presente
que não emana luz mas que brilha tão forte ainda
no teu céu em imagens oníricas
compondo dos cacos o mosaico da tua vida
Mãe, que com a leveza do espírito crava no chão
com peso de pedras, mensagens hieroglifadas
ilegíveis porém tão claras
Mãe que levaram para longe de ti
naquele esquife feio
na poeira da estrada de chão
num caminhão de rodas negras, cruéis
que plantaram num chão gelado
tão longe que não pudeste chorar junto
ao casco do que tinha sido ela
nos dias do teu choro
E te fizeram rir
muito,
histericamente,
Um riso vazio sem os acordes do dela
As areias do tempo esfarelam a imagem
Enquanto aos poucos descobres e lanças
às águas tua própria âncora
mãe de si e de outrem
Teu barco já não deriva, pois tu és capitão:
Mãe!



À minha amiga Beth, e aos meus primos Simone, Silmara e Anderson
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