terça-feira, 10 de abril de 2012

Horas Mortas



            Repicam os sinos na torre da matriz. A brisa taciturna esfria o concreto que emerge do solo estéril.

            Julho é um mês frio, as insidiosas lufadas gélidas mentem o sol que prometera aquecer o frio intenso.

            São seis horas da tarde, apressados se locomovem os transeuntes. Brotam da portas semicerradas que os mantiveram em movimento frenético durante as horas do dia que se despede para sempre, porque o hoje sempre morre e o amanhã é incerto.

            Agitadas correm as secretárias em seus impecáveis uniformes cotidianos, vestem a sorte do emprego e não permitem que nenhuma réstia de ousada brisa se lhes descubram. Até mesmo Zéfiro perde seus poderes ante a garra que demonstram ao correr em desespero para o ônibus das seis e quinze, segurando a barra teimosa das saias.

            O ponto de ônibus é um encontro rotineiro de desconhecidos que partem para o vazio de suas vidas.

            A tarde sopra nos fios um uivo triste, os pássaros se recolhem e até mesmo os periquitos inquietos silenciam a algazarra.

            Algumas pessoas correm para as filas, outras se sentam sob a sibipuruna banhando-se das minúsculas folhas insistentes que caem teimosamente. Outras se sentam nas gradezinhas que protegem as raízes das árvores, pouco a pouco os carros vão ralentando.

            A penumbra gradativamente cobre as formas coloridas. Um velho acende um fósforo e o aproxima dos lábios dos quais pende um cigarro. Eis um lapso em que toda a paisagem muda; um rosto vincado iluminado pelo fogo emerge da escuridão, por um instante ao entreabrir os lábios o homem é visto por dentro, o vermelho do sangue salta da pele transparente à luz da pequena chama.

            Então ela surge, os cabelos oxigenados emoldurados por um lenço esvoaçante e colorido, empalidecem ainda mais sua figura esguia e pequenina. Ela traz os pés descalços como se a terra fosse sagrada. Hoje ela é Esmeralda, veste-se de cigana e nós Quasímodos nos deparamos boquiabertos a espera de que a qualquer momento ela rodopie ao som dos tamborins.

            Ela passa impassível, a cigana da praça não pede as mãos de ninguém, antes estende as suas a espera de uma moeda para o pão de hoje.

A cigana da praça não prevê o futuro de outrem pois ela é sábia, guarda consigo o segredo de que ela é o futuro.

Lentamente semicerrando suas pálpebras iluminadas por um holofote ocasional da iluminação da matriz, para então abri-las novamente focalizando um outro ponto onde fica seu lar: os duros bancos do jardim.

            Mas ela sorri, é a Bela do jardim, princesa de si mesma segue mancando para o destino que a sorte lhe trouxe.

            O ônibus chega, o embarque é rápido e a partida breve, contudo, antes da partida, ouve-se o som de tapas vigorosos e gritos frágeis por socorro.

            Vagarosamente o ônibus arranca. De trás da árvore a cigana chora arfando o peito franzino com todas as forças que ainda lhe restam, parece um pássaro ferido; espalhadas a sua volta jazem os fragmentos de sua vida, farrapos coloridos que já foram de outrem. Ao lado dela um hercúleo garoto lhe brada uma coisa qualquer, gesticulando agressivamente. Estendendo as mãos ela tenta freneticamente recolher seus pedaços.

            Impassíveis os rostos alienados do ônibus observam a cena se desfocando, lentamente desaparecendo. O ônibus vira a próxima esquina. Tão rapidamente muda a paisagem, os passageiros já viajam em outros pensamentos. Interiormente dizem a si mesmos que cada um segue o seu destino.
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