Repicam
os sinos na torre da matriz. A brisa taciturna esfria o concreto que emerge do
solo estéril.
Julho
é um mês frio, as insidiosas lufadas gélidas mentem o sol que prometera aquecer
o frio intenso.
São
seis horas da tarde, apressados se locomovem os transeuntes. Brotam da portas
semicerradas que os mantiveram em movimento frenético durante as horas do dia
que se despede para sempre, porque o hoje sempre morre e o amanhã é incerto.
Agitadas
correm as secretárias em seus impecáveis uniformes cotidianos, vestem a sorte
do emprego e não permitem que nenhuma réstia de ousada brisa se lhes descubram.
Até mesmo Zéfiro perde seus poderes ante a garra que demonstram ao correr em
desespero para o ônibus das seis e quinze, segurando a barra teimosa das saias.
O
ponto de ônibus é um encontro rotineiro de desconhecidos que partem para o
vazio de suas vidas.
A
tarde sopra nos fios um uivo triste, os pássaros se recolhem e até mesmo os
periquitos inquietos silenciam a algazarra.
Algumas
pessoas correm para as filas, outras se sentam sob a sibipuruna banhando-se das
minúsculas folhas insistentes que caem teimosamente. Outras se sentam nas
gradezinhas que protegem as raízes das árvores, pouco a pouco os carros vão
ralentando.
A
penumbra gradativamente cobre as formas coloridas. Um velho acende um fósforo e
o aproxima dos lábios dos quais pende um cigarro. Eis um lapso em que toda a
paisagem muda; um rosto vincado iluminado pelo fogo emerge da escuridão, por um
instante ao entreabrir os lábios o homem é visto por dentro, o vermelho do
sangue salta da pele transparente à luz da pequena chama.
Então
ela surge, os cabelos oxigenados emoldurados por um lenço esvoaçante e
colorido, empalidecem ainda mais sua figura esguia e pequenina. Ela traz os pés
descalços como se a terra fosse sagrada. Hoje ela é Esmeralda, veste-se de
cigana e nós Quasímodos nos deparamos boquiabertos a espera de que a qualquer
momento ela rodopie ao som dos tamborins.
Ela
passa impassível, a cigana da praça não pede as mãos de ninguém, antes estende
as suas a espera de uma moeda para o pão de hoje.
A cigana da
praça não prevê o futuro de outrem pois ela é sábia, guarda consigo o segredo
de que ela é o futuro.
Lentamente
semicerrando suas pálpebras iluminadas por um holofote ocasional da iluminação
da matriz, para então abri-las novamente focalizando um outro ponto onde fica
seu lar: os duros bancos do jardim.
Mas
ela sorri, é a Bela do jardim, princesa de si mesma segue mancando para o
destino que a sorte lhe trouxe.
O
ônibus chega, o embarque é rápido e a partida breve, contudo, antes da partida,
ouve-se o som de tapas vigorosos e gritos frágeis por socorro.
Vagarosamente
o ônibus arranca. De trás da árvore a cigana chora arfando o peito franzino com
todas as forças que ainda lhe restam, parece um pássaro ferido; espalhadas a
sua volta jazem os fragmentos de sua vida, farrapos coloridos que já foram de
outrem. Ao lado dela um hercúleo garoto lhe brada uma coisa qualquer,
gesticulando agressivamente. Estendendo as mãos ela tenta freneticamente
recolher seus pedaços.
Impassíveis
os rostos alienados do ônibus observam a cena se desfocando, lentamente
desaparecendo. O ônibus vira a próxima esquina. Tão rapidamente muda a
paisagem, os passageiros já viajam em outros pensamentos. Interiormente dizem a
si mesmos que cada um segue o seu destino.