segunda-feira, 4 de março de 2013

Cambuquira


Acabou o gás, um fogão improvisado no fundo do quintal cozinha o feijão carioquinha. A vizinha espia do muro de placas ralado, cheio de barro vermelho e sai rindo alto. O tijolo vermelho estala sob a panela de pressão untada de sabão por fora para proteger a panela de encarvoar-se permanentemente.
A mamona estala despejando sementes sobre a roupa de molho no sabão de soda dentro do tanque. A outra boca cheia de água colhida da chuva.
- O fia cata uma abobrinha lá no pasto.
Uma aboboreira nasceu a esmo a espera do sacrifício de seu fruto.
- O mãe acho que robaro, num tem nenhumazinha.
A mãe engole o nó da garganta. Deixa a bacia rachada de pregadores no canto do tanque, um vento brincalhão derruba tudo. O sol escalda.
- Fia cata os brotim, vamos ter cambuquira.
A mãe chacoalha a camiseta de uniforme, precisa estar seca em uma hora, ela torce e chacoalha repetitivamente. O cheiro de feijão tostado rescende, a mãe corre socorrer pendurando a camiseta no varal de arame farpado.
A tábua de carne já espera com meia cebola, dois dentes de alho, a mãe refoga no óleo de soja e joga o feijão borbulhante dentro. A vizinha linguaruda grita que o cheiro “tá de matar”.
A mãe pede para lavar os brotinhos e colocar na tijelinha com um cadinho de vinagre ralhando para economizar, uma colher basta!
O banho é de canequinha, a água aquecida no fogão improvisado do quintal.
Ela refoga o arroz quirera e a cambuquira ao mesmo tempo. A vizinha chega comentando que acha que de hoje não passa, há de chover. Que a vizinha da esquina “aquela sirigaita” ta saindo com o vizinho da frente, que “a fia ta bem ali para não deixar ela mentir sozinha”.
O pai chega de bicicleta Monarch verde, a verduca, chega roxo do sol. Tem cimento até nos cílios, reclama do atraso no almoço e xinga a luz cortada. A mãe corre no quintal e estica o uniforme para melhorar a aparencia.
A vizinha achega-se à mesa, “o vizinha mas eu vou ter que experimentar um cadim, o trem cheiroso”! - diz, aconchegando os dois filhos com cara de gulosos. A mãe diz que ela é muito bem vinda, corre no fundo do quintal, colhe um mamão verde que rala em segundos, refogando e já servindo aquela mesa de delícias. As crianças da vizinha gulosamente se refestelam e ela envergonhada reclama que não comem nada em casa, que deixam tudo no prato.
A comida da mãe satisfaz os desesperos, as chacotas, nos enche os estômagos e os olhos de esperança. A mãe está em perfeita sintonia com a terra. Saímos para a escola, o pai para o trabalho cheios do conforto de hoje. Que saudade da cambuquira da mãe.
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