segunda-feira, 19 de março de 2012

Vácuo


Caiu um raio na manhã ensolarada 
partindo em milhões de fragmentos 
as sensações de realidade que supunha sol e firmamento. 
Trevas banharam num repente tornando azuis as incolores veias. 
Da brisa veio o vento arrancando as pétalas que eu tinha para deitar sobre estas folhas,
 uivos, em lugar do mavioso canto do pássaro, ora enclausurado dentro do ovo. 
Vai vento doloroso
 grita sobre os montes feitos pedras,
 e pedras são pessoas e caminhando entre pedras faz-te só.
Há um grito dentro de mim, 
um grito de horror que ensurdece, 
há lágrimas jorrando dos meus olhos secos, 
há um rio de sal aos pés dos montes calados
um rio que umedece a fúria da rosa em cores, 
sangrando rochas feridas no espinho cruel.
 Silenciosas as rochas rolam,
 se esmagam, se chocam, se quebram. 
Quando ainda havia sol, havia no horizonte um talvez, 
embalado em sensações alantes, 
já aspirando o primeiro centímetro longe deste chão
 golpeou-me abruptamente o raio que partiu do céu.

Aprende-se a saber o escuro, 
e o raio fêz-se em teias, 
e as teias se desprendiam das rochas e me envolviam, envolviam. 
Pesadelo.
 Se meus olhos estão fechados, só abrí-los então? 
O que há com meus olhos? 
Não eram apenas sensações? 
Não! Eu sinto a teimosia da teia que me ata, 
sinto o cheiro das minhas penas arrancadas,
 lançadas à fúria do vento
com uma delas eu luto contra a teia, o vento. 
Luto impelida a esta força que quer saltar para além de mim, 
onde está a minha vida.
O escuro faz-se um palco brilhante, 
colorido, cheio de vozes, de expressões e um quase de sensações. 
Cai o pano, apagam-se as luzes, silenciam-se as vozes. 
Lá está ele! 
Oculto e distendido sobre as armações da vida: o nada.
A luz se acende em neon. 
Próximo ato: 
A mudança.
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