quinta-feira, 3 de março de 2016

Outro bicho


Ontem um homem fez uma má escolha
Ontem, enquanto eu trabalhava
alguém decidiu que era bandido
um perdido

Minha alma dói,
golpes de desumanidade
ferem como dois gumes

Ontem, com meus pés cansados
adentrei os portões do meu porto...
não mais seguro

Minha alma foi saqueada
Quebraram tudo
Derrubaram minhas muralhas
deitaram cacos de vidro
no aconchego do meu leito

A porta não fecha mais
A minha face chove
Dentro de mim gritos:
Por justiça
Por socorro
e tudo o que eu queria
era chegar em casa
ao por do sol
Por que?

A terra gira, testemunha dos meus passos
dos meus cansaços
Minha casa era retrato desses rastros
O relógio parou
Em minha casa, o tempo não passa mais

Ao cume da torre
gritam curicacas
Impotentes testemunhas
das tristes almas energúmenas
invadindo
destruindo devassas

Pobres almas ocas
cegas
moucas
desgraçadamente loucas

Ontem um homem decidiu ser mau
e foi
quebrou o que não podia levar
destruiu vasos que trouxe da jornada
rasgou papéis
levou anéis
despejou sua selvageria
sua brutalidade vã
sua insignificância
sobre o piso da casa que construí

Pobre homem que desconhece o amor
pobre ser defecado
pobre de ti alma esfacelada
sobre quem os olhos do universo
marcaram um ponto
este nosso infeliz encontro

Se tivesse mais esperança
gostaria de sonhar
que ainda és criança
e que a mãe vida
pudesse ainda te doutrinar
te ensinar, mas não...

Oh homem miserável
hoje você saqueou tua própria imagem
hoje você vai se olhar no espelho
e saber o que é
e saber que não é bom
Hoje você gritou ao mundo
tua péssima escolha:
- Vim ao mundo para ser vagabundo

Hoje eu vou acordar
Em minha volta
apenas cacos...
Mas eu vou levantar
e quando eu vir meu reflexo
no pedaço de espelho que sobrou
eu vou saber quem sou
E o que é bom
E que há muito ainda por vir

Meus olhos estão inchados
mas são lágrimas
de um coração puro, de alma lavada
lágrimas que recusam o teu escuro

O tempo parou em meu relógio
A porta não fecha mais
Prolepse?

Meus pés calçam caminhos por vir
sobre minha cabeça o capacete da esperança
e encouraçada de justiça
me desperto
e vou a luta

O cutelo da tua maldade
é obsoleto
ante o que desconheces:
Integridade

E quando o sol brilhar
réstias sublimes
hão de fazer cintilar os cacos no chão
e vou lembrar que meu alicerce
foi cuidadosamente erguido na rocha
Esses cacos serão mosaico
de uma nova obra prima

A noite de desfez em orvalho
Mas a manhã é uma flor que desabrocha
E minha força de vontade
afiada esgrima
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