sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Está decidido: vou criar galinhas


E dá-lhe padecer em um paraiso… Outro dia dentre o vuco-vuco diário, dispus de um tempo e fui finalmente buscar minha filha de 4 aninhos na escola pública aqui nos Estados Unidos. A professora substituta pergunta se sou a tia da menina. Disparate, meu coração caiu no dedão do pé, respiro fundo digo que não, sou mãe dela e a energúmena acresce:
- Mãe da Oliva? Nunca vi mãe de Olivia nesta escola...
Lá corro eu cheia de vergonha, gaguejando feito criança pega em meio a traquinagens, explicar-me (afinal é preciso explicar-se, mãe ocupada não existe, exite pai, coitado que estressa, esbraveja, dá chilique e vai dormir mais cedo porque está muito cansado). 
Abaixo essa geração mãe de ferro afe, pressão pode até gerar diamantes, mas o que tem de carvão sendo esmagado neste mundo não está escrito. Cansei de querer ser diamante, pense, carvão pode um dia pegar fogo e aquecer muitos corações frios, cozer uma sopa de esperança (olha que o mundo está de cama precisando de umas sopinhas dessas de encher a barriga de borboletas).
Me faz lembrar um dos lemas do Arcadismo: fugere urben...
Saímos do campo, ocupamos lugar “de homem” no mercado, lotamos as faculdades cheias de saudade daquele tempinho que podíamos trepar em árvores, brincar de fantasia, éramos tudo com tão pouco e tudo tão simples. Ai vem a tal da puberdade e estupra nossa inocência, mata nossos ideais infantis, vamos lá, seja responsável, estude, trancafie-se, ensimesmamo-nos. Deixamos de ver o outro, pois é preciso ser objetivo: aquela não vai dar em nada. Casou nova, filhos que horror vai com certeza para a fila do bolsa-família.
E o tempo passa, casamos por amor ainda, mas olha que as coisas estão mudando é preciso ser seletivo, vai querer “esta vida” para você?
Nossa misericórdia ficou lá atrás pendurada nos galhos da árvore que arrancaram para cimentar o quintal; eca terra, que nojo, minhocas, lagartas, frutas podres e folhas ao chão. O pasto virou bairro, as vacas churrascos de há muito. Ah mas não nos esqueçamos, há que se deixar de comer animais, que crueldade, desumano, humanização de animal é coisa séria. E sua filha quer saber, ela quer saber tudinho, tim tim por tim tim.
Eu lembro dos frangos agonizantes no sítio, os porcos gritando, lembro dos peixes pouco a pouco adquirindo olhos vítreos. Passada a dor as mesas estavam plenas, agradecíamos o pão, inconscientes de que as mesas esvaziariam-se drasticamente, a ceia já não teria mais doze. Hoje nós agonizamos juntos, mas nunca tão separados, antropofagicamente consumidos pela culpa, é preciso culpar-se por tudo. 
Inevitavelmente, você se depara com o abismo abaixo de você, e era um coisa quando você se equilibrava, agora sua filhinha inocente, coloca a sapatilha na corda bamba e olha confiante para você, com olhinhos cheios de estrelas, ela sabe que mamãe “sabe de tudo”, que vai lhe mostrar o melhor caminho, que não a vai deixar cair, e você descobre que nunca esteve tão incerta em sua vida inteirinha.
Os orquestradores deste plano de desenvolvimento estão de boca escancaradas de felizes: não sabemos mais plantar, não olhamos para os astros, apenas por aparelhos precisos. A terra continua pedindo clemência, a abóboreira do fundo do quintal lastra-se e diz que tudo vai ficar bem, olhe, estou aqui, eu produzo teu sustento. Mas nossa mente já está muito configurada, o mercado tem tudo embaladinho assepticamente, cada gole de suco produz um lixo permanente a ser potencialmente lançado ao chão que adoece.
Então me vêm os grandes apregoadores da pró-natureza, estacionam seus veículos emissores de toxinas, vestem sintético para salvar os animais, e o benzeno que derreteu o plástico sai envenenando as fontes, o solo, nossa capacidade de ver. Instalam secadores para as mãos, imagine cortar árvores para fazer papel é um horror. E lá se vão a cortar florestas do coração do mundo, nossa Amazônia, reposicionar índios ancestrais e mudar o curso do rio para construir hidrelétricas... O secador precisa funcionar.
Nossa preguiça nos fez criar uma bolha asséptica, assentamos no escritório limpinho, sem insetos, janelas fechadas porque ai de nós se respirarmos sem filtros de ar... Para mínimas atividades há máquinas que fazem o trabalho duro ou sujo para nós, e então percebemos que ficar sentado faz mal, lá vamos criar máquinas para subir, para esticar, para desenvolver nossos belos músculos artificiais.
Um medinho do que vai ser, o monstro que dormia embaixo da cama agora toma proporções amenas, como saber? Como saber o que está sendo programado na cabecinha linda daquela criaturinha de felicidade? Mary Shelly foi uma visionária, em sua metáfora futurista já explicava: o que deu vida ao monstro de Frankenstein foi essa tal de eletricidade. #Somostodosfrankenstein...
- Filha como é que pode uma criança ser tão inteligente?
- Porque vou à escola mamãe.
“Mãe da Olivia?...”
 Dá uma dorzinha bem fininha, aguda, contínua do medo de ver certas impressões digitais na mente propensa à bondade.
Lamento informar... Ficamos frouxos, tudo isto é medo de não ter as coisas todas que os comerciais nos provam que não podemos viver sem. Precisamos nos matar de trabalhar, abandonar os filhos para serem educados pelo governo, para que pensem como o mercado exige, afinal não podemos viver sem seguro-saúde, os médicos estudaram muito, viraram estrelas.
Estamos lendo livros para nanar, ela apalpa o rostinho pensativa, fecha os olhinhos e indaga:
- Mamãe sou feita de plástico?
Só consigo lhe esboçar um sorriso, digo-lhe que não, que é de matéria, de células, de vida. Mas como explicar a ela que não somos feitos de plástico se nem eu sei mais?
Foi então que pensei no galinheiro e não me venha com essas idéias “empreendedoras”, não disse granja, vislumbro um galinheiro, palhas, galinhas gordas soltas a procurar onde é melhor botar seus ovos...
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