quinta-feira, 14 de junho de 2012

Tapete vermelho


Feito de lama, vermelha, cacos de vidro, seixos

Erosões abrem as ruas sem pavimento

Cães ocasionais escondidos embaixo de bancos rachados

Muros de tijolos, sem terminar, cimento escorrido

Mamoneiras molhadas,

Enchorrada

Casas caiadas de branco, ora em cores indefinidas

Encardidas de barro

Telhas no terreiro

Tijolos a esmo

Flores secas na rama seca

Cercas de arame farpado

Cheias de pelo de gatos escaldados

Com rabugem, de orelhas peladas

O vizinho xinga feio

A vizinha reclama do barulho

Lixo empilhado nos fundos e nas frentes dos quintais

Fétido.

Colchões queimados na esquina,

Espuma de geladeira,

Um bebê sempre chora, sem consolo

Uma mãe berra

Sapato furado

Latas de leite queimadas, amassadas

A chuva lava

Escorre, mistura

Engordam as larvas

A lama encharca o pé magro invadindo

O único tênis branco de vermelho, sujo

O pé fica gelado, gosmento

Atolado

Um atoleiro que gela doído os ossos magrelos

Abraçada aos cadernos pesados ela se equilibra

Segurando a sombrinha

Emprestada

Pontas rasgadas

Imagina que hoje é noite de estréia

Que a sombrinha é de renda,

Que pisa nas pétalas

Segurando a bolsinha fina

Cintila em seus olhos o diamante imaginário

Enquanto o salto fininho fica preso por um instante

Na maciês do tapete vermelho

Da janela uma mãe espia

Enquanto borda paetês no collant da filha bailarina

A circular está atrasada

Espirra barro quando passa

A escola

Chega encharcada

Disfarçada

Fita em transe o professor

Que a leva distante da roda de barro

Embaixo da carteira

Impaciência:

Impasse

Da ciência
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