terça-feira, 21 de agosto de 2012

Despir-se


Corcunda do peso das fábricas tantas
De botas, do siso, de cintos de risos
Ela adentra o cômodo em suas mantas
Empurra o carrinho cheio de juizos

No rosto os vincos da blasfêmia
cabelos emaranhados de infâmia
Calça sapatos que sangram os pés
bolhas da fricção da conveniencia

Caminha até um espelho adiante
e não se vê, se espanta, se rebela
rasga de si os botões censurantes
é tempo de lançar fora a mazela

O vestido roto, fétido de pragmática
rasgado em nesgas negras sensatas
Mãos trêmulas, os olhos estáticos
se lavam, lágrimas despem castas,

a máscara, as rugas, as linhas ásperas
o peito arfa e um alvo seio se mostra
outro segue, um umbigo em esfera
centro do círculo, do princípio desta

Ombros rejeitam o pêso dos desejos
mostram-se alvos, eretos, em meneio
costas que se alinham, ensejam
à medida que despe seus receios

O lábio agora esboça um ar de riso
a peça desliza, descobre o âmago
dos desejos puros sem modismos
o triângulo amparador, aconchego

As nádegas alvas, à mostra, sustentadas
por firmes colunas, suas fortes pernas
pilastras paralelas, de verdade alicerçadas
sobre os pés nus, em igualdade superna

Ela se reconhece assim no espelho
vislumbra em si o sábio centelho
Uma lufada lhe sopra esperança
desmancha as emaranhadas tranças

E ela caminha para a luz
Sem nada,
À luz da chama,
que lhe chama,
Sinceridade

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Fome


Buracos no espaço clamam por comida
doentes a morrer por vida
uns fome de cura
Vermes fome de ferida
Ardem os corpos, por fome
de comida
de lascívia
de guarida
Pratos vazios na mesa da vida
uma mãe que diz:
dorme filho, que passa
E a fome rói,
dói,
humilha
Turvam as capacidades cognitivas
enquanto a multidão sai batendo panelas
gritando pelas ruas a ajuntar seus tesouros
Há muita pressa, pouco tempo resta
Comida! Fome de cédula.
E a ferrugem clama, veste-se das cores da flama
e se extingue em cinza
o mofo seca
a bactéria definha
As mulheres deixam suas casas, seus filhos
os peitos alimentam a máquina
Que se engorda de vento, e nunca se farta
As criancinhas choram de fome
de aprender como nasce o tomatinho
como cresce o coelhinho
que o papel bonito ilustra, cientificamente
geração de palavras
que não alimentam
pequenos oráculos de visão limitada
de conhecimento mil, sobre a profundidade
nada
Na vitrine o vestido fascina,
o carro brilha, intimida
o diamante cintila
o vendedor se retorce de fome
ante o olhar cobiçador do transeunte
As corporações ajuntam tesouros em cofres
Guardam com fome o elixir de sua vida
E a florzinha murcha lá fora,
sozinha,
com fome, sede
e a criança da escolinha,
com fome de mãe olha a pobrezinha
vê que tem fome,
e em desespero ajunta seus brinquedos de plástico
às raízes famintas da erva que definha

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Noiva II


A noiva acorda, pensa que voou,
Não vê o vestido em farrapos,
nem os arranhões, acorda promíscua
e se prepara para o encontro alheia
aos hematomas

Embriaga seu corpo na taça da luxúria
Vestida de negro, lábios vermelhos
pensamentos soltos, se concentra
na luz da chama do fogo que vem dos carvões
que aquece ainda mais o corpo cintilante
da seiva dos amores

Devassa
Agarrada pelo rabo-de-cavalo
tenta dominar enquanto é dominada
por seu vassalo

Dancam o dueto como num ballet
os corpos febris na noite de núpcias
dentes, mãos que fingem suaves,
marcas
Um palco de cetim vermelho brilha
aos olhos gulosos dos expectadores
que esperam ansiosos

Encontro,
Em um lapso, deixam de ser dois
metamorfoseados,
encontram a dualidade do ser

O mundo gira tão rápido
num universo suspenso no espaço
em frenesi buscam encontrar o toque
da ciência
Que ela toca primeiro e morde, cega
Ele vem em seguida, sorvendo a delícia
Sabem tudo no instante espasmódico
e a partir de então,
Grand finale: olhos abertos
fitam na platéia, bem e mal
enquanto os corpos ainda
estremessem da explosão

Se entreolham e mal podem conter
um riso de cumplicidade
Cegos, vislumbram o que pensam sabedoria
e o universo ceifa para sua ordem
Mais duas peças de seu grande enigma

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Decifrador de sonhos


Procura-se um decifrador de sonhos
que possa escandir metáforas
e transformar em perspectivas
as imagens de um caleidoscópio

Um decifrador que saiba olhar
com olhos que não são seus
mas que veja o além símbolo
a aparente ingenuidade do ícone

São requisitos:
Aptidões como saber colher rimas
ler as partituras das estrelas
ter visão que alcance o que há
Além da superfície refletora do oceano

É preciso ser graduado na matemática dos espelhos
Entender a complexidade do olho
da imagem
do que é
e em que transcende
a divergência das essências

Os interessados deverão enviar seu próprio sonho
grafados em folhas ao vento
a serem julgados
pelo mensageiro tempo

O candidato selecionado
há de ser contactado
via poema oficial
a ser publicado a posteriori neste edital
A contratação dar-se-á imediata e epifânicamente

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Noiva


A noiva se deita num leito de águas claras
unguentos, perfumes e especiarias
vapores turvam o brilho dos abajures
e intensificam o prisma dos cristais finos
pontiagudos,
A noiva cerra seus olhos e sonha acordada
uma perna nua banhada de espuma
os seios tenros semi-imersos
Vislumbra com ansiedade o vestido
branco, longo, as pedrarias
que cintilam, corpo que antecipa delicias
A noiva se lava devagar,
besuntando de esperança
a esponja da sua mocidade
desliza a mãozinha delicada
desde a ponta das unhas,
sobe o braço esguio e lava a nuca,
os ombros, uma cascata de espuma
descendo de seu colo,
Covinhas a mostra,
Estrelas nos olhos
A noiva perfuma a água de sua essência
deixa nela seus últimos ardores de moça
a água se move em círculos, descreve
arabescos quando ela se levanta etérea
desenhando na superfície imagens enigmáticas
ao som da torneira reluzente que
vagarozamente pinga
A toalha felpuda, branca, lhe afaga
os quadris macios
Enxuga as lágrimas da água que chora
a perda de sua virgem
bruxuleante a chama da meia luz
reluz nas concavidades,
desenhando o corpo esguio
de sombras que lhe afagam as curvas suaves
Ela se fita no espelho, vê a noiva
como se visse outrem
aplica perfume nas pontinhas das orelhas,
no pulso,
prende as madeixas com fino pente,
donde pequeno diamante quebra
em cores a luz serena
aplica um blush rosado e brilho
cintilante aos lábios encarnados
desliza a meia fina, vagarosa
destramente subindo a pousar
a fina renda branca ao dourado
das suas coxas
Veste uma calcinha branca de renda
que tímida mal lhe cobre
os poucos fios castanhos
Os seios pousam em redes de rendas
enrijecidos ao toque da fina fazenda
maream seus olhos ao vislumbrar-se agora
trazendo nos braços o vestido alvo
inclina-se como em reverencia
com a pontinha dos pés entrando
na composição de organzas,
rendas, cristais e pérolas
O ziper desliza, enquanto lhe envolve
o vestido delineando-lhe sílfide
ata os laços, amarra suas fitas
enfeita a orelha e o colo
com pérolas de água fresca
não pode conter uma lágrima quando
sorrindo ergue seus braços
e se coroa com a grinalda
o véu lhe afagando
arrepiando ao toque os ombros nus
Está pronta!
Com pulso firme empurra certa
a porta e despenca no abismo
Certa de que voa

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Menino Anton

Nasceu! 04/08/12 as 8:27 com 1.955g.

Aguardas meses a fio
ouvindo o pulsar da tua mãe
no universo escuro do útero macio
imerso da água da vida
flutuas,
esperas,
Quando já não podes mais te rebela
e decide que o tempo é tempo
e que hoje será seu tempo
hás de vislumbrar a estrela guia
que te trará de lá
Uma estrela que te trará luz
que há de descobrir o véu
que escondeu os mistérios
que ouvias já abafados pelo
som do coração da tua mãe.
Um menino,
um menino que fará mãe
a que te espera, ansiosamente
um menino travesso
De que cor são seus olhos?
Qual o formato dos teus pés?
Que estradas hás de pisar?
O menino escreve sua história
e não conta nadinha
aos curiosos pelo teu amanhã
adicionas enigma certo
ao incrível livro da vida
Bem vindo Anton Sebastian!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Mundo oceânico da banheira do bebê



   


 Era uma vez um Jacaré cujo nome era Quelé, era um jacaré roxo, cheio de dentes afiados assustadores mas carinha de lelé. Era um jacaré muito educado, que só mordia depois de questionar sua presa:
      - Poderia por gentileza comer a vossa senhoria?

     Coitadinho, tão magrinho, cansou tanto de perguntar que se tornou vegetariano. O melhor amigo do senhor Jacaré Quelé era um Caramujo marujo cujo nome era Carujo. Experimentado no mar, vivera aventuras mil no fundo do oceano Banheirânico. Sempre que se via o roxo Jacaré Quelé lá vinha de longe a sombra laranja claro do Caramujo Carujo se arrastando atras do amigo, uma dupla dinâmica vejam só. Quando Carujo se cansava subia nas costas do amigo e em troca lhe cobria de grudenta gosma, que Quelé apreciava muitíssimo, pois tinha a pele seca.
     Reclamavam muito de um Siri estabanado, que andava de lado, de família portunídea, chamado Quiriquiqui. Recebera tal nome pois além de novidadeiro sua cor vermelha lembrava a cor da crista de um galo. Quiriquiqui vivaldino vivia ensaiando andar para frente, mas virava de lado para ir para frente e do outro para ir para trás de modo que se irritava muito das piadas que lhe faziam,o rapaz. Toda vez que passava, alguém com sua garra beliscava. Sua vítima favorita era o rabinho da Tartaruga Beluga. Se desculpava sarcástico que seu rabinho parecera com um delicioso aspargo. Tartaruga Beluga choramingava dengosa, levando meia hora para soltar um aaaaaiii, e ficava verdinha de raiva ao contar a seu pai, o Golfinho Marinho, azul clarinho, tão fofinho que singrava o mar branco da banheira do bebê a procura dos patos que à deriva cantavam um quá quá sem fim.
     A mãe de Beluga, a Baleia da Leia era internacionalmente conhecida, cantava ópera no Auditório de Corais. Era muito elegante, em suas linhas azuis, vestida de espuma encantava nos arpejos ao que seu esposo o Golfinho Marinho suspirava orgulhoso. Tartaruga Beluga era muito sensível, enxugava disfarçada uma lágrima sonhadora ao assistir as evoluções do Ballet comandado pelo senhor Polvo Dolvo, encantador em seu verde clarinho, acompanhando com finesa de movimentos a voz maviosa da mãe de Beluga, enquanto as anêmomas iluminavam em tons pastéis a beleza da noite.
     Ao final de cada espetáculo, a Baleia da Leia recebia de presente, uma pérola rósea que sua estimada amiga a Concha Caroncha carinhosamente calcificava durante meses a fio, pérolas tão finas que causavam exclamações da mais profunda admiração aos que avistavam de longe a baleia azul com seu cordão de pérolas. Concha Caroncha sorria feliz da areia, era uma concha muito calma, muito contida, que estimava sonhar um dia ter nadadeiras.
      - Vamos bebê, o banho acabou.
     E o bebê chora, sem consolo ter que deixar as aventuras dos amiguinhos no fundo da banheira.
     - Meu amor, amanhã a gente continua a estória.
     E o bebê silencia, pois sabe que a cada banho, nova aventura se enuncia.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A menininha do jardim


A menininha veste um vestido vermelho
calça sapatinhos de cetim, sujos de lama
alheia a menina deslumbra-se no espelho
que a poça d’agua refletindo lhe emana

Uma menininha que ri gargalhadas agudas
pequenos gritinhos misturados ao burburinho
das abelhas, listradas, graciosas, parrudas
admira séria os poás das asas da joaninha

A Joaninha voa, a menina grita em êxtase
e corre a ver a nova flor rubra da papoula
cujas gotas de orvalho choram de ênfase
ao assistir a alegria da menininha que pula

A manhã se faz mais azul, mais turquesa
Raio de sol, banha de rosa as bochechas,
pálpebras e os cílios negros da princesa
que enfeita de rosas suas lindas madeixas

A menininha se assusta com o sapo verde
Ri dos olhinhos estufados do louva-deus
pulando na ponta dos pés na grama inerte
galga o instante, florindo os olhos seus

Desabrocham no jardim, tulipas, azaléas
Samambaias de metro despencam, rendas,
Antúrios, hibiscos, uvas verdes, foliáceas,
e a menininha de vermelho, que desvenda

Um canteiro inteiro de flores diversas,
abertas, e de repente ela grita surpresa:
- Mãe as flores estão voando!
E um bando de borboletas se dispersa

quarta-feira, 20 de junho de 2012

ilha


Uma ilhazinha de areia fina

Sob um céu de purpurina

Um único coqueiro sem cocos

Um caranguejo canhoto



A ilha paira sobre o vasto mar

Uma equilibrista entre água e ar

Sem cais, sem porto,conforto

A ilha tem seu caminho torto



Cavada do oceano roto, bruto

A ilha em seu estreito alicerce

Carrega ainda a sombra inerte

Da planta, continente interrupto



Da fonte apenas uma gota pinga

Em uma pedra côncava lapidada,

Um fio de água que a areia singra

Donde verde lodo brota do nada



Ilha só, não visitada, ondas que rugem

Violentas, ao comando das tormentas

Que atingem a ilha, línguas que pungem.

E a palmeira, como bandeira apascenta

Transcorrido grandiosos alardes

O mar se faz sereno feito cetim

E sob o céu de veludo das tardes

Vislumbra-se áspera areia marfim


As aves avistando-a do céu abaixo

Veem um ponto sobre o espaço

Ponto não medido por compasso

Que cadencia qual um contrabaixo


Se ponto de começo, ou se ponto de fim

Não se sabe, nesta ilha apenas se passa.

Uma força a esquadrinhou ao mar assim

Um ponto no espaço a nortear a barcaça


Que passa.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Tapete vermelho


Feito de lama, vermelha, cacos de vidro, seixos

Erosões abrem as ruas sem pavimento

Cães ocasionais escondidos embaixo de bancos rachados

Muros de tijolos, sem terminar, cimento escorrido

Mamoneiras molhadas,

Enchorrada

Casas caiadas de branco, ora em cores indefinidas

Encardidas de barro

Telhas no terreiro

Tijolos a esmo

Flores secas na rama seca

Cercas de arame farpado

Cheias de pelo de gatos escaldados

Com rabugem, de orelhas peladas

O vizinho xinga feio

A vizinha reclama do barulho

Lixo empilhado nos fundos e nas frentes dos quintais

Fétido.

Colchões queimados na esquina,

Espuma de geladeira,

Um bebê sempre chora, sem consolo

Uma mãe berra

Sapato furado

Latas de leite queimadas, amassadas

A chuva lava

Escorre, mistura

Engordam as larvas

A lama encharca o pé magro invadindo

O único tênis branco de vermelho, sujo

O pé fica gelado, gosmento

Atolado

Um atoleiro que gela doído os ossos magrelos

Abraçada aos cadernos pesados ela se equilibra

Segurando a sombrinha

Emprestada

Pontas rasgadas

Imagina que hoje é noite de estréia

Que a sombrinha é de renda,

Que pisa nas pétalas

Segurando a bolsinha fina

Cintila em seus olhos o diamante imaginário

Enquanto o salto fininho fica preso por um instante

Na maciês do tapete vermelho

Da janela uma mãe espia

Enquanto borda paetês no collant da filha bailarina

A circular está atrasada

Espirra barro quando passa

A escola

Chega encharcada

Disfarçada

Fita em transe o professor

Que a leva distante da roda de barro

Embaixo da carteira

Impaciência:

Impasse

Da ciência

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Tango


A boca vermelha voluptuosamente morde a rosa
(...)
Fascina,
(...)
A mão firme desce a espinha e puxa,
(...)
Brusca!
(...)
A perna longa os pés em ponta escapam da fina estampa da saia.
Bamboleiam os quadriz manipulados em movimentos ondulantes
concomitantes
excitantes.
(…)
Os dentes alvos cravam o tale tenro, rostos se colam por um instate
enquanto ele infante rouba a rosa e afasta o rosto num só movimento
(…)
Ora lento,
violento
(…)
Rodopiam o corpo e a imagem projetada
no salão sobre o chão de vidro fino
o peito arfa sob a fazenda, um fio de suor brota das têmporas
sob o cabelo negro
(…)
Contrastando a suavidade do lento
o salto bate no vidro do momento
(…)
Trinca!
(…)
O risco no chão sob um abismo feito de escuridão
Alheios os amantes dançam hipnotizados pelo som
Cintilando os brocados refletem a glória dos candelabros
(…)
Olhos que não se fitam, bocas que não se tocam
Almas que se entrelaçam ao calor do tango
Mariposas atraídas à luz brilhante
(…)
diamantes,
(…)
Envoltas no abraço rodopiam as sensações
ansiando o momento em que a flor exploda
de botão em pétalas rubras
(…)
Talisca que se abre
Ao pulso do sangue



quarta-feira, 30 de maio de 2012

Pluma


Um ploc inaudível arranca a pluma do anjo
uma pluma branca que cai, pirlipimplim
vem descendo das esferas planetárias
Rodopiando placidamente contra o céu cobalto

A pluma do anjo se veste de bailarina
descreve arabescos, pliès, enquanto plana
pairando sobre o ar e partindo como aeroplano
Uma pluma plasmática sobre um céu de gelatina

As nuvens se abrem plenamente
e a pluma desce suavemente
ora repente, simples, ora complexamente

Acima das nuvens plissadas
a fitar a pluma que acopla sobre a mão
um raio de sol sublime me faz piscar os olhos
Plim
E o anjo pisca para mim

quarta-feira, 23 de maio de 2012

P E D A Ç O S


Espaços               entre o inteiro
              divisão                       da             totalidade
Visão                explodida    do         todo

                                 Fragmentos
Cacos

             Partes
                            que não voltam,
de um corpo,                                     dos que nunca foram

              Desconexões
                                         sem
                                                        encaixes

                          Partes moldadas pela vida
em um formato                                             que não se encaixa mais no todo
Peças
         essas
encaixes,     desencaixes

Retalhos feitos das gotas de orvalho

Anexos
              alguns       nexos
                                            outros        desconexos
Globo partido
                    de China,            de América
União Soviética...
                             Linhas imaginárias Muralhas
Lágrimas
            dos olhos             de um corpo                  das dores
Palavras ao vento         alinhavando       sentido
e o tempo tecendo               a colcha
unindo fazendas, cores, estampas
ao todo que espera o calor da manta

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Conto para pato dormir



Esta é a estória da pata Patachoca
Que sentada em vinte ovos
Feliz chocava uma patota
De patinhos amarelos novos

Mal despontava o dia a Patachoca
Esticava as pernas cansadas
Afofava as plumas com bicotas
E cantava com voz esganiçada: 
- Quock, queck, quick, quack, quol, qua, qui quock
Desafinava sempre na oitava a pobre Patachoca

Todos os dias era a mesma ladainha
A Patachoca quackejando sonhadora
Sentada sobre os ovos qual uma rainha
E os vinte ovos em silencio sob a canora

Uma manhã estando ela em sua formosura
Admirando o céu azul recém nascido
Cantava esganiçada seu arpejo matinal
Quando um creck esquisito ressoou pelo quintal
Imagine, pensou, que coisa esquisita
Um barulho de quebradura quebrando
- Ai que medo será que é a raposa do madrigal?
- Ai me acuda dona Galinha que pato não vai a hospital
Arfava já a Patachoca quase chorando…

Dona Galinha que ciscava alegremente
Só levantou uma sobrancelha e sorriu amarelamente
Pois conhecia de longe o drama da pata faceira
Que sempre alvoroçava a qualquer bobalheira
Creck

Patachoca chocada chaqualhou a cauda
Espichou-se, espiou de um lado a outro
Sacudindo as asas indagativa…
Quack?
Quack! – respondeu abaixo de si
Era o patinho que enfiara o biquinho
Na casca de seu ovinho
Creck
Lá veio uma asinha, toda já emplumadinha
Um pezinho desajeitado e um patinho
com metade da casca do ovo como fraldas
Atordoado admirava as belas pluma alvas
Da mamãe Patachoca que limpava as lágrimas
Com tanta emoção que fez até dona Galinha
Se comover em admiração!
Có! Coisa linda Có! Comadre! Cocobéco… chuif
Quack, creck, quack creck
Mais quatro biquinhos, oito pezinhos e asinhas se
Juntaram ao primeiro patotinha
Os cinco patinhos patetas tropegando ainda nos passos
A Patachoca orgulhosa esticava o papo
E chamou ao primeiro Patock
A segunda uma patinha fofa Peteka
E sem seguida Pitika, Potók, Patakleia
Quackejando sem nexo ainda os patinhos
Todos sobressaltados ouviram
Creck creck creck
E mais três irmãozinhos vieram:
Pacato, Potico e Poti
Esta última uma pata de olhos de mel
Já nasceram num patati patatá sem fim
Quack? Assustada a pata admirava

Que lá vinham mais rebentos à ninhada
Quá! Quá! Quá!Quá!
Caquá, Cequé, Quaquinho e depois veio
Qüéqüé um pato gaginho

O cavalo que de longe assistia
Saiu dando coices pelo ar
- Viiiiiixe Mariiiia vou avisá o dono da famia
Saiu em disparada só poeira após seu galopar
Cada creck que quebrava
Era um viva que vibrava
A fazenda toda esperava
Cada pato que chegava
Creck veio um patinho valentão
Que se chamou Gastão
Logo após si
Veio a patinha Quaqueli

Patachoca já chorara tanto
Que as lágrimas secavam
Ja sorria em meio ao pranto
E com carinho os beijava
Patock já fugira do ninho
Enfiando o pezinho no lago
Patachoca ralhava baixinho
E o trazia de volta com afago
Já nasciam Quick, Quem, quomo
Quando Sr. Patocho chegou
De peito inchado de orgulho
Foi olhando e desmaiou
Dona Porca que entendia de unguento
Foi logo chamando o solícito Jumento
Para trazer uns sais
Para os novos pais


Creck, quack creck
Vieram os três caculinhas
Um que se chamou Quaria
Outro Quevin
E a última Quatarina


Já era tarde rosa
Quando enfileirados sairam
A familia mais famosa
Patachoca toda garbosa
Os patinhos lhe seguiam
Sr. Patocho seguia atrás
Da fila longa de qua quás


Até hoje se visitas
A fazenda da Patachoca
Já traz logo uma marmita
Porque não sobrou minhoca
Mas já venham avisados
E em quaquejamento versados
Pois não há turma mais animada
Que tantos patos em uma ninhada!



À minha Lilly, que ama patinhos...

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Oroboro oroborO


The Sphinx by Auguste Rodin
National Art Gallery Washington DC

Às mães que ficaram...


A imagem da tua mãe
Uma esfinge com garras, cabelos longos
uma esfinge amarela
de olhar enigmático
Esfinge pragmática
quase inundada das areias do tempo
rodeada de pirâmides austeras espetando o céu
apontando às estrelas escritas em luz
na escuridão do espaço
Peso na memória a imagem de vento
em nitidez apenas as cores desbotadas
Uma esfinge que fita do passado
fria,
Uma mãezinha querida,
imagem do embalo que tu criaste
do calor da cobertinha que te enrolou
dos peitos que te alimentaram
das entranhas aconchegantes que te
transportaram de lá
Âncora suspendida precocemente
que te deixou a deriva neste mar sem fundo,
barco delicado
feito da casca do ovo ainda
Mãezinha,
Ausência tão presente
que não emana luz mas que brilha tão forte ainda
no teu céu em imagens oníricas
compondo dos cacos o mosaico da tua vida
Mãe, que com a leveza do espírito crava no chão
com peso de pedras, mensagens hieroglifadas
ilegíveis porém tão claras
Mãe que levaram para longe de ti
naquele esquife feio
na poeira da estrada de chão
num caminhão de rodas negras, cruéis
que plantaram num chão gelado
tão longe que não pudeste chorar junto
ao casco do que tinha sido ela
nos dias do teu choro
E te fizeram rir
muito,
histericamente,
Um riso vazio sem os acordes do dela
As areias do tempo esfarelam a imagem
Enquanto aos poucos descobres e lanças
às águas tua própria âncora
mãe de si e de outrem
Teu barco já não deriva, pois tu és capitão:
Mãe!



À minha amiga Beth, e aos meus primos Simone, Silmara e Anderson

terça-feira, 8 de maio de 2012

Trilhos



A maria fumaça passa, esfumaça

Chispas, faíscas nas triscas

O atrito da roda no ferro

O elo que segura o vagão…

Som!

A margem emoldura a paisagem

Que corre, que move na tarde

que morre correndo da janela

Aqui, acolá, além, lá vai o trem…

Fom!

Linhas paralelas de ferro polido

das rodas de ferro da locomotiva

traças as retas como pautas vazias

o trem  escrevendo e apagando

Bom! Bombom!

Doces as róseas imagens da tarde

Cheiro de óleo, de chuva e chispas

Riscas a tarde com retas concretas

Cicatriz do tempo, chegada, partida

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Retrahere





Um momento

Nuances e traços explicitam a diferença

O branco saltando do preto

O preto sombreando o branco

Recortes sem margens de um rio

Um rio caudaloso

Um chapéu preto

Uma pena branca

A boca, uma boca encarnada em preto

De um preto que evoca ao carmim

O maiô preto ajustado no corpo esguio,

a toalha branca forrando a cadeira

a menininha segura um pato branco

calça um sapato preto

tem cabelos pretos, mas a tiara é branca

e a avó soprando uma luz branca de uma vela já apagada.

Uma avó de cabelos brancos, de vestido preto

De sorriso tao franco

Um homem de bigodes e terno pretos

O lencinho branco saltando do bolso,

A maleta preta. Para onde vai?

Os papéis brancos estão ocultos

Neles a grafia preta diz com tintas palavras negras

o aro dos óculos do avô, pretos

os dentes tão brancos contando as alegrias

o louro preto no ombro, sobre a camisa branca

a arara preta sobre o muro branco

um céu branco

um avião preto

A noiva em branco alvíssimo

O noivo garboso em preto

O bebê envolto em mantas brancas

A viúva em preto, guarda-chuva preto

No tabuleiro de xadrez branco e preto

Dançam as figuras da caixa de retratos velhos

Em enigma, a espera do cheque-mate

Enquanto o movimento de outras eras

Mistura essas tintas e insinua sombras,

Cinzas

sábado, 5 de maio de 2012

Velhas pólicas


Eram apostólicas
Melancólicas
sofriam cólicas tais que
temiam cistólicas
Se colocavam bucólicas
nas noites eólicas
quando perdiam a parabólica
e se punham a pensar hiperbólicas
Simbólicas
a fazerem caretas tão estrambólicas
que pareciam visões alcoólicas
as pobres Hipólita e Mólly K.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

OVO


OVO
o
ente
pequenino dorme
em laços de afeto
dormente
docemente
envolto
absorto
nana nenê
mimi bebê

No berço da tua criação
Dormem os sonhos dos teus pais, da tua geração
Dorme criação de luz, acalentado pelo canto
das vozes todas que se calaram, das luzes
que não brilharam, tu tens a esperança
de que a nova criança que viaja
vem da terra não descoberta
dos mares não desbravados

Vem menino! Olha o apito do navio partindo
Escuta o pássaro que te espera para cantar
Os braços que te anseiam segurar para assim estarem seguros
Vem para o porto da tua vida, continuação de outras tantas
O futuro te espia, com saudades já deste que principia
Deste momento em que docemente balouças borbulhando
no paraíso das bolhas encantadas que nunca estouram
antes flutuam no ar de um sonho tão grande que partiu
da propulsão de um design inteligente, divino
grande demais para compreender, mas que tudo sabe
na inexplicação das águas que continuamente te alimentam
o colo da vida te espera, ávido, o leite da sabedoria já
inundam os peitos da natureza, a voz do vento já preparou
a canção para te ninar e a noite já prepara os seus temores
pra fazer de ti um homem de coragem, luz aos dissabores
Vem com a força das marés, das luas, dessa que é só sua!

domingo, 29 de abril de 2012

Bzzzz


Zonzas as abelhas zoavam

Em rasantes, zumbiam

Zum zum zum


Pousavam e zarpavam

Em danças zumbis

Zunindo-lhes as asas

Entre rosas cor de rosas

Flores azuis, lilases


Meninas, as abelhas

Voavam zelozas

Os zangões sisudos

Desenhavam realezas

Tão claras as luzes


Européias, às azaleias

Ruidozas as vozes

Casadoiras faziam

Ai!

Ferrão infeliz, bem no meu nariz!