quarta-feira, 30 de maio de 2012

Pluma


Um ploc inaudível arranca a pluma do anjo
uma pluma branca que cai, pirlipimplim
vem descendo das esferas planetárias
Rodopiando placidamente contra o céu cobalto

A pluma do anjo se veste de bailarina
descreve arabescos, pliès, enquanto plana
pairando sobre o ar e partindo como aeroplano
Uma pluma plasmática sobre um céu de gelatina

As nuvens se abrem plenamente
e a pluma desce suavemente
ora repente, simples, ora complexamente

Acima das nuvens plissadas
a fitar a pluma que acopla sobre a mão
um raio de sol sublime me faz piscar os olhos
Plim
E o anjo pisca para mim

quarta-feira, 23 de maio de 2012

P E D A Ç O S


Espaços               entre o inteiro
              divisão                       da             totalidade
Visão                explodida    do         todo

                                 Fragmentos
Cacos

             Partes
                            que não voltam,
de um corpo,                                     dos que nunca foram

              Desconexões
                                         sem
                                                        encaixes

                          Partes moldadas pela vida
em um formato                                             que não se encaixa mais no todo
Peças
         essas
encaixes,     desencaixes

Retalhos feitos das gotas de orvalho

Anexos
              alguns       nexos
                                            outros        desconexos
Globo partido
                    de China,            de América
União Soviética...
                             Linhas imaginárias Muralhas
Lágrimas
            dos olhos             de um corpo                  das dores
Palavras ao vento         alinhavando       sentido
e o tempo tecendo               a colcha
unindo fazendas, cores, estampas
ao todo que espera o calor da manta

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Conto para pato dormir



Esta é a estória da pata Patachoca
Que sentada em vinte ovos
Feliz chocava uma patota
De patinhos amarelos novos

Mal despontava o dia a Patachoca
Esticava as pernas cansadas
Afofava as plumas com bicotas
E cantava com voz esganiçada: 
- Quock, queck, quick, quack, quol, qua, qui quock
Desafinava sempre na oitava a pobre Patachoca

Todos os dias era a mesma ladainha
A Patachoca quackejando sonhadora
Sentada sobre os ovos qual uma rainha
E os vinte ovos em silencio sob a canora

Uma manhã estando ela em sua formosura
Admirando o céu azul recém nascido
Cantava esganiçada seu arpejo matinal
Quando um creck esquisito ressoou pelo quintal
Imagine, pensou, que coisa esquisita
Um barulho de quebradura quebrando
- Ai que medo será que é a raposa do madrigal?
- Ai me acuda dona Galinha que pato não vai a hospital
Arfava já a Patachoca quase chorando…

Dona Galinha que ciscava alegremente
Só levantou uma sobrancelha e sorriu amarelamente
Pois conhecia de longe o drama da pata faceira
Que sempre alvoroçava a qualquer bobalheira
Creck

Patachoca chocada chaqualhou a cauda
Espichou-se, espiou de um lado a outro
Sacudindo as asas indagativa…
Quack?
Quack! – respondeu abaixo de si
Era o patinho que enfiara o biquinho
Na casca de seu ovinho
Creck
Lá veio uma asinha, toda já emplumadinha
Um pezinho desajeitado e um patinho
com metade da casca do ovo como fraldas
Atordoado admirava as belas pluma alvas
Da mamãe Patachoca que limpava as lágrimas
Com tanta emoção que fez até dona Galinha
Se comover em admiração!
Có! Coisa linda Có! Comadre! Cocobéco… chuif
Quack, creck, quack creck
Mais quatro biquinhos, oito pezinhos e asinhas se
Juntaram ao primeiro patotinha
Os cinco patinhos patetas tropegando ainda nos passos
A Patachoca orgulhosa esticava o papo
E chamou ao primeiro Patock
A segunda uma patinha fofa Peteka
E sem seguida Pitika, Potók, Patakleia
Quackejando sem nexo ainda os patinhos
Todos sobressaltados ouviram
Creck creck creck
E mais três irmãozinhos vieram:
Pacato, Potico e Poti
Esta última uma pata de olhos de mel
Já nasceram num patati patatá sem fim
Quack? Assustada a pata admirava

Que lá vinham mais rebentos à ninhada
Quá! Quá! Quá!Quá!
Caquá, Cequé, Quaquinho e depois veio
Qüéqüé um pato gaginho

O cavalo que de longe assistia
Saiu dando coices pelo ar
- Viiiiiixe Mariiiia vou avisá o dono da famia
Saiu em disparada só poeira após seu galopar
Cada creck que quebrava
Era um viva que vibrava
A fazenda toda esperava
Cada pato que chegava
Creck veio um patinho valentão
Que se chamou Gastão
Logo após si
Veio a patinha Quaqueli

Patachoca já chorara tanto
Que as lágrimas secavam
Ja sorria em meio ao pranto
E com carinho os beijava
Patock já fugira do ninho
Enfiando o pezinho no lago
Patachoca ralhava baixinho
E o trazia de volta com afago
Já nasciam Quick, Quem, quomo
Quando Sr. Patocho chegou
De peito inchado de orgulho
Foi olhando e desmaiou
Dona Porca que entendia de unguento
Foi logo chamando o solícito Jumento
Para trazer uns sais
Para os novos pais


Creck, quack creck
Vieram os três caculinhas
Um que se chamou Quaria
Outro Quevin
E a última Quatarina


Já era tarde rosa
Quando enfileirados sairam
A familia mais famosa
Patachoca toda garbosa
Os patinhos lhe seguiam
Sr. Patocho seguia atrás
Da fila longa de qua quás


Até hoje se visitas
A fazenda da Patachoca
Já traz logo uma marmita
Porque não sobrou minhoca
Mas já venham avisados
E em quaquejamento versados
Pois não há turma mais animada
Que tantos patos em uma ninhada!



À minha Lilly, que ama patinhos...

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Oroboro oroborO


The Sphinx by Auguste Rodin
National Art Gallery Washington DC

Às mães que ficaram...


A imagem da tua mãe
Uma esfinge com garras, cabelos longos
uma esfinge amarela
de olhar enigmático
Esfinge pragmática
quase inundada das areias do tempo
rodeada de pirâmides austeras espetando o céu
apontando às estrelas escritas em luz
na escuridão do espaço
Peso na memória a imagem de vento
em nitidez apenas as cores desbotadas
Uma esfinge que fita do passado
fria,
Uma mãezinha querida,
imagem do embalo que tu criaste
do calor da cobertinha que te enrolou
dos peitos que te alimentaram
das entranhas aconchegantes que te
transportaram de lá
Âncora suspendida precocemente
que te deixou a deriva neste mar sem fundo,
barco delicado
feito da casca do ovo ainda
Mãezinha,
Ausência tão presente
que não emana luz mas que brilha tão forte ainda
no teu céu em imagens oníricas
compondo dos cacos o mosaico da tua vida
Mãe, que com a leveza do espírito crava no chão
com peso de pedras, mensagens hieroglifadas
ilegíveis porém tão claras
Mãe que levaram para longe de ti
naquele esquife feio
na poeira da estrada de chão
num caminhão de rodas negras, cruéis
que plantaram num chão gelado
tão longe que não pudeste chorar junto
ao casco do que tinha sido ela
nos dias do teu choro
E te fizeram rir
muito,
histericamente,
Um riso vazio sem os acordes do dela
As areias do tempo esfarelam a imagem
Enquanto aos poucos descobres e lanças
às águas tua própria âncora
mãe de si e de outrem
Teu barco já não deriva, pois tu és capitão:
Mãe!



À minha amiga Beth, e aos meus primos Simone, Silmara e Anderson

terça-feira, 8 de maio de 2012

Trilhos



A maria fumaça passa, esfumaça

Chispas, faíscas nas triscas

O atrito da roda no ferro

O elo que segura o vagão…

Som!

A margem emoldura a paisagem

Que corre, que move na tarde

que morre correndo da janela

Aqui, acolá, além, lá vai o trem…

Fom!

Linhas paralelas de ferro polido

das rodas de ferro da locomotiva

traças as retas como pautas vazias

o trem  escrevendo e apagando

Bom! Bombom!

Doces as róseas imagens da tarde

Cheiro de óleo, de chuva e chispas

Riscas a tarde com retas concretas

Cicatriz do tempo, chegada, partida

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Retrahere





Um momento

Nuances e traços explicitam a diferença

O branco saltando do preto

O preto sombreando o branco

Recortes sem margens de um rio

Um rio caudaloso

Um chapéu preto

Uma pena branca

A boca, uma boca encarnada em preto

De um preto que evoca ao carmim

O maiô preto ajustado no corpo esguio,

a toalha branca forrando a cadeira

a menininha segura um pato branco

calça um sapato preto

tem cabelos pretos, mas a tiara é branca

e a avó soprando uma luz branca de uma vela já apagada.

Uma avó de cabelos brancos, de vestido preto

De sorriso tao franco

Um homem de bigodes e terno pretos

O lencinho branco saltando do bolso,

A maleta preta. Para onde vai?

Os papéis brancos estão ocultos

Neles a grafia preta diz com tintas palavras negras

o aro dos óculos do avô, pretos

os dentes tão brancos contando as alegrias

o louro preto no ombro, sobre a camisa branca

a arara preta sobre o muro branco

um céu branco

um avião preto

A noiva em branco alvíssimo

O noivo garboso em preto

O bebê envolto em mantas brancas

A viúva em preto, guarda-chuva preto

No tabuleiro de xadrez branco e preto

Dançam as figuras da caixa de retratos velhos

Em enigma, a espera do cheque-mate

Enquanto o movimento de outras eras

Mistura essas tintas e insinua sombras,

Cinzas

sábado, 5 de maio de 2012

Velhas pólicas


Eram apostólicas
Melancólicas
sofriam cólicas tais que
temiam cistólicas
Se colocavam bucólicas
nas noites eólicas
quando perdiam a parabólica
e se punham a pensar hiperbólicas
Simbólicas
a fazerem caretas tão estrambólicas
que pareciam visões alcoólicas
as pobres Hipólita e Mólly K.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

OVO


OVO
o
ente
pequenino dorme
em laços de afeto
dormente
docemente
envolto
absorto
nana nenê
mimi bebê

No berço da tua criação
Dormem os sonhos dos teus pais, da tua geração
Dorme criação de luz, acalentado pelo canto
das vozes todas que se calaram, das luzes
que não brilharam, tu tens a esperança
de que a nova criança que viaja
vem da terra não descoberta
dos mares não desbravados

Vem menino! Olha o apito do navio partindo
Escuta o pássaro que te espera para cantar
Os braços que te anseiam segurar para assim estarem seguros
Vem para o porto da tua vida, continuação de outras tantas
O futuro te espia, com saudades já deste que principia
Deste momento em que docemente balouças borbulhando
no paraíso das bolhas encantadas que nunca estouram
antes flutuam no ar de um sonho tão grande que partiu
da propulsão de um design inteligente, divino
grande demais para compreender, mas que tudo sabe
na inexplicação das águas que continuamente te alimentam
o colo da vida te espera, ávido, o leite da sabedoria já
inundam os peitos da natureza, a voz do vento já preparou
a canção para te ninar e a noite já prepara os seus temores
pra fazer de ti um homem de coragem, luz aos dissabores
Vem com a força das marés, das luas, dessa que é só sua!

domingo, 29 de abril de 2012

Bzzzz


Zonzas as abelhas zoavam

Em rasantes, zumbiam

Zum zum zum


Pousavam e zarpavam

Em danças zumbis

Zunindo-lhes as asas

Entre rosas cor de rosas

Flores azuis, lilases


Meninas, as abelhas

Voavam zelozas

Os zangões sisudos

Desenhavam realezas

Tão claras as luzes


Européias, às azaleias

Ruidozas as vozes

Casadoiras faziam

Ai!

Ferrão infeliz, bem no meu nariz!

terça-feira, 24 de abril de 2012

Pulso


De um ponto a outro a diferença de um pulso.
A energia propulsora do segundo seguinte
Pinte...

um momento
Requinte

um prolongamento
Seguinte

um alongamento
Vinte

um acento
Irrite

um lamento
Grite

um alimento
Frite

um contentamento
Fite

um estranhamento
Rabisque
Chapisque
Pisque
Wisky

Silencio
Parado, calado, atordoado, alado

Comente
diz-que-me-diz
que disque
cisque

um doente
Cistite

um crente
Cristo

um ente
Visto

um casamento
Isto

um acasalamento
Risco

um engravidamento
Bebê, eu amo você

Fique
Ataque

Ligue
Desate

Ate
seus pontos...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Espera



Esculturalmente a mulher espera,
entre nesgas, vincos, réstias de si
A mulher espera, estatuesticamente
Badalam as areias do tempo tac tic

Entre dias de sol, tempestades, uivos
A mulher espera, uma espera sem fim
Nuances, tenores, ardores... sai dias
Despetalam-se suas cores: faz cinzas

Noites inteiras, sibilam nos doces fios
de seus cabelos entre o vento faceiro
Novas cores renascem do talo filheiro

Carrega da seiva do tempo, renovo
Introduzindo ao jardim da vida
A nova vida a esperar a hora do ovo

terça-feira, 10 de abril de 2012

Horas Mortas



            Repicam os sinos na torre da matriz. A brisa taciturna esfria o concreto que emerge do solo estéril.

            Julho é um mês frio, as insidiosas lufadas gélidas mentem o sol que prometera aquecer o frio intenso.

            São seis horas da tarde, apressados se locomovem os transeuntes. Brotam da portas semicerradas que os mantiveram em movimento frenético durante as horas do dia que se despede para sempre, porque o hoje sempre morre e o amanhã é incerto.

            Agitadas correm as secretárias em seus impecáveis uniformes cotidianos, vestem a sorte do emprego e não permitem que nenhuma réstia de ousada brisa se lhes descubram. Até mesmo Zéfiro perde seus poderes ante a garra que demonstram ao correr em desespero para o ônibus das seis e quinze, segurando a barra teimosa das saias.

            O ponto de ônibus é um encontro rotineiro de desconhecidos que partem para o vazio de suas vidas.

            A tarde sopra nos fios um uivo triste, os pássaros se recolhem e até mesmo os periquitos inquietos silenciam a algazarra.

            Algumas pessoas correm para as filas, outras se sentam sob a sibipuruna banhando-se das minúsculas folhas insistentes que caem teimosamente. Outras se sentam nas gradezinhas que protegem as raízes das árvores, pouco a pouco os carros vão ralentando.

            A penumbra gradativamente cobre as formas coloridas. Um velho acende um fósforo e o aproxima dos lábios dos quais pende um cigarro. Eis um lapso em que toda a paisagem muda; um rosto vincado iluminado pelo fogo emerge da escuridão, por um instante ao entreabrir os lábios o homem é visto por dentro, o vermelho do sangue salta da pele transparente à luz da pequena chama.

            Então ela surge, os cabelos oxigenados emoldurados por um lenço esvoaçante e colorido, empalidecem ainda mais sua figura esguia e pequenina. Ela traz os pés descalços como se a terra fosse sagrada. Hoje ela é Esmeralda, veste-se de cigana e nós Quasímodos nos deparamos boquiabertos a espera de que a qualquer momento ela rodopie ao som dos tamborins.

            Ela passa impassível, a cigana da praça não pede as mãos de ninguém, antes estende as suas a espera de uma moeda para o pão de hoje.

A cigana da praça não prevê o futuro de outrem pois ela é sábia, guarda consigo o segredo de que ela é o futuro.

Lentamente semicerrando suas pálpebras iluminadas por um holofote ocasional da iluminação da matriz, para então abri-las novamente focalizando um outro ponto onde fica seu lar: os duros bancos do jardim.

            Mas ela sorri, é a Bela do jardim, princesa de si mesma segue mancando para o destino que a sorte lhe trouxe.

            O ônibus chega, o embarque é rápido e a partida breve, contudo, antes da partida, ouve-se o som de tapas vigorosos e gritos frágeis por socorro.

            Vagarosamente o ônibus arranca. De trás da árvore a cigana chora arfando o peito franzino com todas as forças que ainda lhe restam, parece um pássaro ferido; espalhadas a sua volta jazem os fragmentos de sua vida, farrapos coloridos que já foram de outrem. Ao lado dela um hercúleo garoto lhe brada uma coisa qualquer, gesticulando agressivamente. Estendendo as mãos ela tenta freneticamente recolher seus pedaços.

            Impassíveis os rostos alienados do ônibus observam a cena se desfocando, lentamente desaparecendo. O ônibus vira a próxima esquina. Tão rapidamente muda a paisagem, os passageiros já viajam em outros pensamentos. Interiormente dizem a si mesmos que cada um segue o seu destino.

Exótica


Lânguidas, róseas, etéreas
pétalas
húmidas, cálidas
sem falsa modéstia
se abrem as partes,
em beleza, sensualidade,
leveza,
Que brutalidade pensar
na tua fragilidade
desflora-te ao simples toque
de um beija-flor
auto fecundada
do beijo faminto
gritas ao infinito
estendendo suas pétalas
te mostrando assim tão toda
nua
Insinuando as delícias,
as doces nuances
te pintas
em romance
ao sol que te beija,
amante orquídea

segunda-feira, 9 de abril de 2012

SUA

 A fada da floresta dormia. Sonhava um sonho muito redondo, azul.
No sonho da fada da floresta, do azul emergiam linhas retas, paralelamente horizontais, do alto de seu sonho admirava-se a nitidez da organização.
Caiu a noite, a escuridão não era plena pois cinquenta e uma estrelas cintilavam no azul profundo.
O sonho principiou em pesadelo.
Os canteiros das rosas vermelhas que se entrevia quando claridade total faziam-se monstros violentos, alimentadas do sangue inocente derramado desabrochavam em pétalas tenras.
O azul se fazia taça transbordando das lágrimas do mundo todo. A fada principiou a chorar sem saber a razão, imediatamente das suas lágrimas brotavam umas florzinhas azuis pequeninas, que apressadas em crescer rompiam do solo num parto doloroso.
Então a fada avistou cravos, lindos, tão brancos que lançavam um pouco de luz à obscuridade. Pasma com tamanha beleza conseguia vislumbrar-lhes a pacífica inscrição implícita.
Novamente o inesperado. Suas asinhas se tornaram douradas, perdendo a leveza ao peso da nova cor. Lançada pelo ar mergulhou na cama de cravos macios.
Que fado a uma fada! Transformada em ouro fora cair nos leito dos cravos ourívaros. Seus últimos instantes lentamente transcorrendo, sentiu as raizes que se erguiam do solo como tentáculos enquanto era absorvida pelo solo arenoso.
Foi então que a menina em um sobressalto acordou de vez. Estivera sonhando acordada fitando a bandeira.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Café

Entre o burburinho dos clientes, entre o ruído das máquinas moedoras paira um aroma de café. É o café de uma livraria enorme chamada Barnes & Nobles. Estou sozinha, uma au pair nos Estados Unidos. A cidade é Bethesda, suburbio de Washington DC. Parece o paraíso das revistinhas das testemunhas de Jeová. Tudo organizado, bonitinho, casas amplas, boas escolas e flores nas janelas.
Não fosse o aroma insidioso do café que me entra pelas narinas. O café aqui é servido em copos grandes, demorei a acostumar com o sabor. Dizem lá ser o melhor do mundo, mas não creio que já tenham provado o café da minha mãe; ou aquele que meu pai me fazia após a aula na faculdade.
Café e saudade se misturam quando experimento a bebida forte, levemente adocicada. Lembro dos paralelepípedos bicolores da minha Votuporanga, do café na Hammer: café com amigos. Até o cafezinho da garrafa escorrida do chinesinho, que saudade. Hum, o café caipira que minha avó torra, o da livraria universitária nos intervalos. Café com livros. Noites em claro.
Nostalgicamente vejo meu passado refletido no café fumegante. Lembro-me do cafezal do meu avô Fidelcino. Das viagens de trem para Bálsamo com minha avó Alzira, como era lindo ver os cafezais correndo pelas janelas do trem.
Café lá em casa é tema para discussão séria: "o Flor da mata?" Deus me livre - "parece milho torrado" ou "o Ribeirão sim já foi um grande café, mas ultimamente..." E assim iam, longos colóquios ao redor de uma mesa pequena, rodeada de muitas cadeiras sempre lotadas e entre xícaras da fumegante moca.
Café aqui é bom. Compro um copo "big" e sento solitária a ler, olhar a vidraça ou então tomo no carro enquanto dirijo. Café com solidão.
Mas quando sento a mesa com um café, Votuporanga se torna o recanto mais florido das minhas memórias. O combustível perfeito para eu sentir vontade de escrever. Café com pena.
"Vamos brincar de pique?" Ecoam os resquícios da minha infância "a Maélly é café-com-leite!" Até nossas brincadeiras eram ao sabor do café.
E ainda a piadinha boba do Gesiel: "qual é a diferença entre o homem e o bule? É que o homem tem fé e o bule é para por café! Ah ah ah!" - ria sozinho, a gente rindo mais dele que da piada.
Café de bule, coado no coador de pano da vó Zira, da vó Téia, das tias todas... cada casa, cada momento um sabor de lembrança.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Contra a vidraça

É como se borbulhando o instante das sensações me preenchessem de uma certeza que desconheço mas sei.
De repente o vazio ambiente é preenchido por uma substância penetrante, ondulosa, pressurizando pele, cabelos e os olhos tornando-se translúcidos. Vê-se as coisas que são como são, mas que no instante simplesmente deixam de ser.
Acordes, vozes distantes, cheiro de café fresco preenchendo tudo. O movimento desliza como grãos de areia na ampulheta do instante.
Contaminada da doença de escrever deito os meus profundos devaneios em papéis quaisquer. Não, não são palavras importantes, não há necessidade de que as mesmas sejam lidas. Escrever é falar comigo mesmo e me sentir só em minha companhia.
Lembra a estorinha do peixinho que o homem pescou e criava como um cachorrinho, carregando-o pelos elevadores e cafés?
É a mesma coisa. Não posso mais ser devolvida ao lago, desaprendi a nadar. Vivi enclausurada em meu casulo fétido, escuro e feio. Agora borboleta anseio ar fresco e bato minhas asas contra o vidro do aquário bonito.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Condição

A mesa é redonda
Projetada para dois
Eu estou sentada
E você? Aonde foi?

Tenho saudades de ti
Das noites de amor
Mas nunca te conheci
De onde este ardor?

Estou sentada sobre glória do mundo
Com tanta saudade que nem sei de quem
Se fecho meus olhos num segundo
Atravesso os mares sem fundo para o além

E no além tem minha gente
E minha gente fala português
Mas minha gente é crente
Que o paraíso é falar inglês

terça-feira, 20 de março de 2012

Matéria Bruta

Qual água moldando as rochas
Quero deitar no papel as minhas palavras
a deslizar suave, sensualmente
Qual som de borbulhas que estouram
molhando a fresca relva

Não quero medir sentimentos
Nem escandir a confusão
Quero antes versos de outono
Folhas lançadas ao vento

Quero escrever versos de chuva,
frescos, restauradores
versos que desabrochem a primavera adormecida
e que me caibam como luva

Porque palavras são palavras,
e há dias em que se deve cosê-las, bordá-las,
mas hoje não, estas foram tiradas da confusão,
não devem estar organizadas
nem obedecerem nada
só dizerem...

E dizendo vão contar
Macio e baixinho
qual uma grávida ao violão
gerando música e nascendo em sensação

Não quero lavrar rimas
Quero que as palavras permaneçam como intemperies
E que o vento, o sol, a chuva e a terra
sejam os escultores desta obra
bruta, tosca, mouca

segunda-feira, 19 de março de 2012

Vácuo


Caiu um raio na manhã ensolarada 
partindo em milhões de fragmentos 
as sensações de realidade que supunha sol e firmamento. 
Trevas banharam num repente tornando azuis as incolores veias. 
Da brisa veio o vento arrancando as pétalas que eu tinha para deitar sobre estas folhas,
 uivos, em lugar do mavioso canto do pássaro, ora enclausurado dentro do ovo. 
Vai vento doloroso
 grita sobre os montes feitos pedras,
 e pedras são pessoas e caminhando entre pedras faz-te só.
Há um grito dentro de mim, 
um grito de horror que ensurdece, 
há lágrimas jorrando dos meus olhos secos, 
há um rio de sal aos pés dos montes calados
um rio que umedece a fúria da rosa em cores, 
sangrando rochas feridas no espinho cruel.
 Silenciosas as rochas rolam,
 se esmagam, se chocam, se quebram. 
Quando ainda havia sol, havia no horizonte um talvez, 
embalado em sensações alantes, 
já aspirando o primeiro centímetro longe deste chão
 golpeou-me abruptamente o raio que partiu do céu.

Aprende-se a saber o escuro, 
e o raio fêz-se em teias, 
e as teias se desprendiam das rochas e me envolviam, envolviam. 
Pesadelo.
 Se meus olhos estão fechados, só abrí-los então? 
O que há com meus olhos? 
Não eram apenas sensações? 
Não! Eu sinto a teimosia da teia que me ata, 
sinto o cheiro das minhas penas arrancadas,
 lançadas à fúria do vento
com uma delas eu luto contra a teia, o vento. 
Luto impelida a esta força que quer saltar para além de mim, 
onde está a minha vida.
O escuro faz-se um palco brilhante, 
colorido, cheio de vozes, de expressões e um quase de sensações. 
Cai o pano, apagam-se as luzes, silenciam-se as vozes. 
Lá está ele! 
Oculto e distendido sobre as armações da vida: o nada.
A luz se acende em neon. 
Próximo ato: 
A mudança.

Vaso

Que flores?
Rosas ou Lilases?
Se flores são Rosas
Se cores são lilases.