quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Mãos Atadas

Stanislav Szukalski - Struggle


Ah dedos longilíneos
dedos cruéis, mãos ossudas
Mãos maquiavélicas
atadas ao pescoço
sufocando o canto
suprimindo ares
exprimindo pranto...

Sob o tato frio
o cranio lateja
e desenrolando constante
o tapete vermelho pulsa,
se apressa!

Ah dedos cegos
vendando às iris
o universo infinito,
cerrando as janelas
e maniqueísticamente
vendendo triunfos
em fogos de artifício

Mão
entre teus vãos dedos
quanto tempo cabe
antes que tudo se acabe
mão finita, contável
hesitante

Garra cruel
como pássaro fascínora
encara, assassina
esmaga a presa impotente
que hipnotizada sob teu olhar
padece
e expira,
uma última transcendência

Fabiana Avila

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Irmãzinha

“Vem com a tata, vem!”
Sem hesitar ela vem, serelepe,
sainha amarela de bolsos grandes
cabelos compridos, soltos, sem pentear
Seguro firme a mãozinha da irmãzinha querida,
olho dos dois lados
sentindo o pêso da responsabilidade
atravessamos a rua Rio Negro
de terra, lama e valas profundas
O pasto verdinho convida a correr,
amparamos o arame farpado
eu para ela, ela de dentro, para mim
Adentramos ao espaço aberto
o mundo se torna bicolor, azul e verde
corremos, pulamos
beijamos as bebezinhas gêmeas
uma minha, outra dela
Ao longe no pasto, à direita,
uma mangueira
frondoza, generosa de mangas,
futuramente cercada e escola Juraci
à esquerda distante ainda, um muro longo,
branquinho, latidos de cães…
ferramos os dentes nas goiabinhas
verdes ainda, corações ainda sem sementes,
marrentas, pés raquíticos à beira do barranco
“Tumba, la tumba, la tumba, la gue..”
às doze badaladas esqueletos emergem das tumbas
um a um, ossinhos ágeis, frágeis dançando ao vento
máscara feita de dedos ossudos
a irmãzinha não consegue,
“tata, faz para mim!”
poeira e riso no sol poente
“Vou-me embora prá bem longe
Esta é a triste verdade,
talvez sozinha eu encontre, a paz e a felicidade”
- canto alto, sempre melancólica
Ela interrompe, alegre:
“Quando eu era neném...”
à tarde febril votuporanguense
daquele ontem tão pueril
cantamos o ciclo esperado
às mulheres de então
Minha irmãzinha, minha responsabilidade,
depois de escorregarmos incontavelmente
o barranco vermelho
da D. Zulmira,
voltamos para a casa
descalças, rubras de barro
sôfregas de felicidade
A irmãzinha perdeu sua boneca,
ela é pequenininha, dou-lhe a minha
ela cessa o pranto
mas ranheta, não quer tomar banho.
Mais tarde sob a manta (calor ou não)
Ela aponta o dedinho
para o quadro da moranguinho,
quer que eu conte a estória do sapinho
sobre a vitória-régia outra vez
Dormimos ainda ontem!
Acordamos tanto tempo depois
Ainda sinto a mãozinha quente
“Tata tô com medo, acende a luz”
acendo pronto e seguro ela pertinho
para não ter medo,
mas ela não sabia que eu também tinha medo
e que ela me dava uma baita coragem
Vim embora para bem longe, já não estou sozinha,
às vezes temos paz, foram tantas felicidades
Trouxe comigo essas memórias preciosas
bem guardadas no baú da saudade
e hoje que ela completa anos,
mando estas duas pedrinhas brilhantes
lapidada dos sonhos que sonhamos juntas
para brilhar lá longe, dentro dos olhinhos dela

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Anima Mea



Ala-te
Inala
aspira-te alma

Enleva
leva-te
mesmo se distante

Consta no instante
conta
como infante

Atos: balança
alcança
os longilíneos dedos da justiça,
firma a aliança

Asperge
borrifa teu próximo
de gotículas de bondade
Espalhe felicidade

Empluma,
aconchega
sob as tuas asas
os friorentos
os cansados
os lazarentos

Ala-te alma
podes ir além
emerge desta água
banhada de bem

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Felícia


Acabei de vê-la
passou por aqui

Vivaldina, saltitante
pousou em meu ombro
farfalhou-me nas faces
dançou sob a luz estéril
do escritório frio

Azul, infinita, colorida de rio
alçou suas asas diáfanas
insistentes asas fosforescentes,
intrínsecas de saudades

Como um sonho que se sonha
de olhos abertos
transpostos além do bege
da parede, do círculo das horas

Penetrando a probóscida
no doce mel da flor do instante
provocando batidas dançantes
neste coração que ama amar demais

Enches de lampejos de dia
de sabores de luz de estrelas ainda por vir...
Escamas caem destes olhos cegos

Ela brinca ainda
seus pezinhos magricelas
provocando risos, cócegas na alma

Estilhaçada a realidade grita
o retorno ao inerte instante,
porém aos pulos o pulso vibra
ante as irresistíveis visitas
da borboleta inspiração

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Auto procurada



Procuro-me
desesperadamente
Desapareci lentamente
caco a caco
despedaçadamente

Estava a trilhar
apressada, atrasada,
a beira do abismo da falha
Perfeccionissimamente
passo a passo
cada pedra no caminho
um novo caco
esculachos
a cada descompasso

Ah barqueiro cruel
afanas pedaços do que fui
destilando em óbolo
as favas do meu mel

Do que sou, ainda em mim
restou aqui este coração
desfibrilado
acelerado
despetalado das róseas esperanças
pouco a pouco
Mais ainda tão cheio
do sangue da poesia

Se me vires por ai
nem que seja um mínimo estilhaço
lance um pão
sobre o oceano das minhas lágrimas

Por qualquer informação
que culmine no reencontro
recompensa-se generosamente
com uma pequena epifania

quinta-feira, 17 de março de 2016

Vero amor: de primavera





Ave terra, amada terra
Amor que desabrochou em primavera
Criaturas pipilantes, ecos distantes
Roncos de apressados aviões
O céu azul, mesmo céu
Opalescendo em suas estações quadráticas
Estabelecendo portos
À grande viagem, enigmática
A grama se cobre em miosótis
Pequeninas dádivas azuis
Engordam as mamangavas
Destilando em mel as doçuras anis
Ah se o amor voltasse assim
A transbordar no peito
A fecundar a mente de tantas gentes
Se apenas pudéssemos cumprir o caminho
Como o fazem os passarinhos
Ah primavera querida
Fecunda flor chamada amor
Nascendo em nuances, fragrâncias e cores
Ah se apenas a glória desta primavera
Enlevasse a alma, levasse guerras
Voltariamos a lavar no rio
A beber da fonte
Quem sabe então o que diria
O crepúsculo prometido
ao distante horizonte

quinta-feira, 10 de março de 2016

Ária às araras azuis





Ora, direis, araras?
Araras azuis não coram
Decoram o céu,
Azuis,
Choram cântaros
Araras cantando em coro
caminhos às amoras
ora, ora, araras
amores
amoras
Onde moras?
Em que cores resplendoras
Desabrocham tuas áureas auroras?
Onde agora?
Ara!...
Choram as araras
Ante secas cachoeiras de outrora
Florestas desfloradas
Céu descorado
O que eras arara?
Que encantos afora?
És desta era outras horas
Cara arara
Adora a flora
Que te adorna ainda
A arbórea que devora
E que te ampara
Arara no céu cobalto paira
Faixa mais azul
Arauto que ora:
árias em flauta
mensagens sem pauta
eras ébrias
Sombras efêmeras
Mármores de geléia
Inscritos de marengas memórias
Metáforas de glórias
Se ora ou outrora
Sempre me palpita,
Sara
Flor azul em secas varas
Voam senhoras...
Às namoradoras araras
juro eterno amor
Seus bicos em côro respondem: amora