terça-feira, 8 de março de 2016

Em ser destemida… - Feliz Dia Internacional da Mulher






Domingo de manhã
Acordei apressada
Vesti meu vestido Avon
“Estômago para dentro,
Ombros para trás
Vesti meia arrastão fumê
E um delicado par de saltos púrpura
Vesti a criança para a igreja
Arranjei nossos cabelos
Assei pão de queijo
Fiz ontem, até tarde,
Depois de haver filtrado
O vinho que estou destilando
Será preciso mais trinta dias de fermentação
As batatas borbulhavam
Ao mesmo tempo em que eu ensinava a pequena
A ter cuidado na cozinha
O jantar foi nhoque de batatas
Comida gourmet que não podemos nos dar ao luxo
De comer no restaurante
Estando a economia tão ruim
Não consegui disfarçar as olheiras
Preciso terminar os convites de aniversário da filha
Nem que seja de madrugada
Mas voltemos ao descender dos degraus
E lá vinham pela rua duas adolescentes muito destemidas
Clichês básicos:
Piercings
Tattoos
Crânios obscuros
Cabelos espetados com cara de sujos
Jeans rasgados
Sapatos nojentos
Muito originais!
Gargalhavam descontroladamente
Enquanto passavam
Meu bom dia:
- Tire esta meia arrastão ecaaa
HAHAHAHAHAHA
Três passos abaixo
Me dou conta que era comigo
Chego no carro
Coloco a criança na cadeirinha
Calma e ainda incrédula
Me assento
Desejei ter habilidades telepáticas
Para adentrar aquelas mentes tolas
Apenas para dizer-lhes
Sobre ser destemida
Destemida foi ser adolescente
Sem roupas adequadas
Nem mesmo para uma entrevista de emprego
Destemida for receber aquele não
“porque seu estilo não combina com minha loja”
Pois as roupas que trajava eram da minha mãe
Pés ensanguentados
De sapatos pequenos demais
Para caber meus sonhos
Destemida foi não ter dinheiro para o almoço
Quando se tem apenas dezoito
Destemida é teimar em entrar na faculdade
Contra todas as vontades
A noite, após o trabalho
Sem banho ou comida
E ter sempre alguem
Com um maravilhoso senso de humor
Gargalhando
Do cheiro da tangerina ainda verde que levara do quintal do avô
Do círculo de lama embaixo da carteira carregada pelos sapatos
Suas tatoos nunca hão de se comparar
Ao que a natureza ainda há de desenhar em ti
Você está pronta?
Na esquina da vida
Cabelos bracos surgirão
Rugas no teu rosto
Você pode ser magra demais
Gorda demais
Pobre demais
Ou muito burra para conseguir o emprego que gostaria de ter
Que pena não poder lhe dizer neste segundo
Quando você está quase na esquina
E ainda assim olha para trás
Esperando que eu reaja
Destemida querida é saber
Que não posso lhe consertar
Apenas você poderia fazê-lo
E oro que o faça
Espero que quando a natureza
Esculpir teu corpo
Você possa olhar seu rosto enrugado
E se encarar orgulhosa
Da mulher sábia que se tornou
Não estou fazendo apologia
Contra teu estilo
Suas tatoos, piercings
Ou quaisquer parafernália “destemida”
Tudo bem querer ser legal
Apenas não misture as coisas
E faça de si uma idiota
Vá para casa
Abrace teus livros
Seus melhores amigos, lhe asseguro
Que destemida heim?
Deixar os amigos em um dia lindo
Para ficar presa com um livro
Aprender algo, se for capaz
Sua juventude mente
Que você tem todo o tempo do mundo
E isto há de acabar com um tremendo choque
Quando o espelho te olhar de volta
E te dizer
Chegou a hora
Quando você tiver olheiras
Vasinhos
Dores
E mais assustador que o crânio em sua camiseta
É sentir que há um dentro de tua cabeça
A imagem não parece mais tão destemida
Não é mesmo?
Gostaria que pudesse salvar esta tua destemidez
Para usar em força
Quando deixar teu bebê com estranhos
E perder aquele trem
Destemida é voltar ao trabalho
E encontrar teus colegas invejosos
Do absurdo de tempo que você gastou
Em licença maternidade
Destemida é amamentar seu filho
Até um ano de idade
Tirar leite no banheiro
Enquanto come
Com pessoas contando seu tempo à porta
E te dando bronca Indagando
“qual é o seu comprometimento com a instituição?”
Destemida é ouvir papo de homem
Sobre vaginas largas após a mulher ter filho
Destemida é começar a ficar paranoica
De que a estupidez que falam possa ser verdade
Você passou pelo processo de divinização
Carregou em si uma alma
E a maioria dos homens se preocupa
Com o tamanho do buraco
E que vão perder o colinho, coitadinhos
Sei o que você deve estar desejando
Que eu não termine isto
“não acredito que ela tocou nesse assunto”
Desculpe dizer,
Mas isto é o ser destemida
Que tento lhe definir
Você precisa ser forte
Por obséquio, ouça o que digo
Você pensa que ser destemida é usar drogas?
Destemida é dizer não
E ser a quadrada burra
Com quem ninguém quer falar oi
Destemida é manter sua calcinha
Quando seu corpo também está em flamas
Quando seu desejo grita sim
E sua mente diz: insana
Não se misture
Você é pura
Alguém que poderia fazer coisas grandiosas nesta vida
Não se misture com alguém
Cujo intento é incerto
Seja sábia
Homens são grandes amantes, garanhões
Mulher, você sabe...
Se concentre na grande figura
Não se distraia com minhas meias arrastão
Sou tão frágil
Quanto tua sabedoria alcançar
Meus saltos querida
Parte da armadura
Há uma guerra lá fora
Que você tenha em sua mochila
Pelo menos um batom
Com uma mensagem vermelha
Não para seus lábios
Uma mensagem destemida
Como a substância das tuas veias
Você é destemida?




quinta-feira, 3 de março de 2016

Outro bicho


Ontem um homem fez uma má escolha
Ontem, enquanto eu trabalhava
alguém decidiu que era bandido
um perdido

Minha alma dói,
golpes de desumanidade
ferem como dois gumes

Ontem, com meus pés cansados
adentrei os portões do meu porto...
não mais seguro

Minha alma foi saqueada
Quebraram tudo
Derrubaram minhas muralhas
deitaram cacos de vidro
no aconchego do meu leito

A porta não fecha mais
A minha face chove
Dentro de mim gritos:
Por justiça
Por socorro
e tudo o que eu queria
era chegar em casa
ao por do sol
Por que?

A terra gira, testemunha dos meus passos
dos meus cansaços
Minha casa era retrato desses rastros
O relógio parou
Em minha casa, o tempo não passa mais

Ao cume da torre
gritam curicacas
Impotentes testemunhas
das tristes almas energúmenas
invadindo
destruindo devassas

Pobres almas ocas
cegas
moucas
desgraçadamente loucas

Ontem um homem decidiu ser mau
e foi
quebrou o que não podia levar
destruiu vasos que trouxe da jornada
rasgou papéis
levou anéis
despejou sua selvageria
sua brutalidade vã
sua insignificância
sobre o piso da casa que construí

Pobre homem que desconhece o amor
pobre ser defecado
pobre de ti alma esfacelada
sobre quem os olhos do universo
marcaram um ponto
este nosso infeliz encontro

Se tivesse mais esperança
gostaria de sonhar
que ainda és criança
e que a mãe vida
pudesse ainda te doutrinar
te ensinar, mas não...

Oh homem miserável
hoje você saqueou tua própria imagem
hoje você vai se olhar no espelho
e saber o que é
e saber que não é bom
Hoje você gritou ao mundo
tua péssima escolha:
- Vim ao mundo para ser vagabundo

Hoje eu vou acordar
Em minha volta
apenas cacos...
Mas eu vou levantar
e quando eu vir meu reflexo
no pedaço de espelho que sobrou
eu vou saber quem sou
E o que é bom
E que há muito ainda por vir

Meus olhos estão inchados
mas são lágrimas
de um coração puro, de alma lavada
lágrimas que recusam o teu escuro

O tempo parou em meu relógio
A porta não fecha mais
Prolepse?

Meus pés calçam caminhos por vir
sobre minha cabeça o capacete da esperança
e encouraçada de justiça
me desperto
e vou a luta

O cutelo da tua maldade
é obsoleto
ante o que desconheces:
Integridade

E quando o sol brilhar
réstias sublimes
hão de fazer cintilar os cacos no chão
e vou lembrar que meu alicerce
foi cuidadosamente erguido na rocha
Esses cacos serão mosaico
de uma nova obra prima

A noite de desfez em orvalho
Mas a manhã é uma flor que desabrocha
E minha força de vontade
afiada esgrima

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A chave para o Jardim Secreto


Há um encanto
de recanto
Mira cá tu,
Um pedacinho de encosta
uma terra quase remota
Terra de Maria
Terra de palmeiras,
sabiás, serras,
viçosas laranjeiras
Dentre seixos pálidos
dente de onça
bananas amarelas
ora marrentas
se maduras marengas,
tenros brotos de mostarda
verdes tons de farda
É uma terra encantada
incrustada na estrada
que leva ao longe mar
Marcham as formigas
felizes, livres
donas das próprias trilhas
pais, mães, filhas,
todas tão irmãs
paridas da barriga
do coração
de um mesmo intento
sonho de união
Os cacauzeiros
sonham a fruta em flor
bêbadas abelhas
grafam em dança
mensagens de esperança:
Sigam-me, há nectar irmãs!
Promessas de chocolate
Mira a noite de lua cheia
Cálida, pálida ao som das
Tubas dos sapos-boi
Crespas as jacas
mentem a languidez
das polpudas sementes
dormentes sob
as redes de fibras brancas
Nuances
Uma trilha sinuosa
íngreme insinua,
desafia: suba
e a descida embala
a lembrança das perninhas
magrelinhas de criança
Serelepes
Quando a noite cai assim
nos doces sons de silêncio,
a bruxuleante luz dos pirilampos
convidam meditar
ao som estridente dos grilos
e antes que se de conta,
Um raio de sol ilumina
o cantinho da aranha
já sugando sua mosquinha
vespertina
O ar fresco
invade os pulmões
revigora o coração,
e na alma
explode a chama
de vida contida
em canto de liberdade
Bom dia! - diz a vida
Os galos elegantes
galantes anunciam
o novo dia,
As galinhas paqueradoras
enterram as finas unhas
no húmus da fertilidade
cacarejando gostoso
a surpresa das minhocas gordas
Algumas já cismam cedo
e escolhem livres
cada ninho
O gatinho mia no telhado
e começa a cantoria
da felicidade de cada ovo
dádiva das galinhas…
Omelete com folhas de mostarda
não tarda
delícias de sabores
amores que não cabem
transbordam os sonhos
dissipam-se resquíscios de dissabores
O vizinho
o último dos caçadores
vem de longe com um presente
uma dádiva da palma:
palmito
Fresquinho
água na boca
refoga, alimenta
afoga em delícias
Quando o paladar já não suporta
um beija-flor furtacor
enfia o bico delgado
no brinco-de-princesa
doce visão de mel
asas transparentes
O céu cobalto
núvens desenhando
cumulonimbus
imitando formas
de coelhinho, elefante
passarinhos nos ninhos
núvens grávidas
de lágrimas celestes
O sol arde na pele
como um beijo sôfrego
envolventes lufadas
tardes mornas
Os pés flutuam no cascalho
como polichinelos às asas do vento
em direção inconsciente
à nascente
Jorra da fenda
água
cristalina, fresca
escorrendo em pequenas gramas,
bromélias,
minúsculas flores
Passada a sede
o caminho persiste
descortinando visões
Montanhas ao longe
sensações, gramas fartas de alpiste
As crianças assoviam
competindo com passarinhos
ressaltadas com o calango
ligeirinho
temerosas das cobras melancólicas
encobertas nas moitas
afoitas em pequenos sobressaltos
A descida convida a correr
e gritar enquanto o faz
qualquer coisa
Um grito,
até em tempos de guerra,
grito de paz.
A ponte de tábuas esconde
com auxílo das taiobas,
taboas,
bananeiras balouçando
sussurando ao vento:
- Bem vindos emboabas
A abóbada azul
abre uma brecha no algodão
e os raios brilhantes
emprestam cores ardentes
flamejantes folhas,
fosforescentes flores
Irrompe a tarde,
o som da água mole
em pedras duras,
vislumbra-se às margens
lilases aguapés
parecem prolepse:
água aos pés
Correm mães, tias
pais, filhos
gritam em coro:
“corre cotia na casa da tia...”
pés imersos em frescor
saias apanhadas
crepitam risos
reverberam sob a ponte
altas gargalhadas
Pequenos depósitos de argila
Põem-se alguns
a compor formas como Tarsila
mães curandeiras
inalam àss margens as raras
clorofilas
folhas, filos, se é mal: sara
A água é rasa
alcança os joelhos
Assentam-se os homens
Assueros
em seus tronos de areia molhada
A criançada em algazarra
espantam as garças esparsas
riem do sapo,
riem do caramujo
riem do lambari
apanham guarús na concha das mãos
e engolem um para aprender a nadar
Um estrondo ensurdecedor rasga o céu
- Olha a chuva!
Encharcados levantam-se
do corrégo utópico
preciosos seixos
aos bolsos
souvenirs
- Corre, vai molhar! Ah ah ah …
A tarde se cobre de sombria cinza
em silhueta uma pequena corrida
corta a subida íngreme:
- Quem chegar por último é mulher do sapo!
A chuva não tarda,
pingos grossos, doloridos
a corrida é ocasionalmente interrompida
para tomar fôlego
do sôfrego riso
A casinha é minúscula
uma mãe corre para o fogão
outra lava em grupo
crianças friorentas
com água quente do balde
cheirando a lenha
Já saem do banho dormentes
mamazinho quentinho,
cobertor, barulho de chuva
na Eternit
Uma sempre fica febril
gotinhas
nem sempre um sistema imunológico
permanece imune
a tantas sinestesias…
Café fresco, biscoito de polvilho
roupas secas,
pele cheirando a rio
sabonete glicerinado
cabelos penteados
A tarde convida ao sonho
Acalentados pelo escurinho
da tempestade de verão
o sonho é uníssono
O jardim é secreto,
e dorme
porque entardeceu
mas a memória
tem uma entrada secreta



Para minha família querida, minha mãe querida que aniversaria hoje, minha tia Maria que nos adormecia tanto, para que nunca despertemos do sonho que sonhamos juntos...
















sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Facebabel


Facebabel

No nome do livro
No livro da face
faces
na face de um livro
livres faces
Ápice de humanidade

Congregam-se no Templo titã
de Hipérion e Teia
filheiros

Castelo de fibra ótica
utopicalidade binária
do pensamento anti-filo:
monolinguismo tecnológico

Uma boca única
gritando onipresente
o caos da onisciência
pináculo da soberbia humana

No perfil de Pandora
Imagens sorridentes,
doutorado,
fotos nas águas azuis do Caribe
um filho sendo gerado
um carro novo
- Que mansão!
Felicidades ópticas,
desgraças célebres
Motim

Ftono clica curtir,
é o que Teia vê,
mas compartilha a Kronos
intensionando lançar-lhe os filhos
às profundezas de Gaia

Da caixa escancarada de Pandora
advém todos os males do mundo…
Mas o pior deles
vem do próprio pensamento
de querer enfiar a todos
na mesma caixinha minúscula

Compartilha, curte
Ignora…
Ah a dor dos ignorados...

Face a face clama:
Babel, babel, babel

Lança tua tribo aos confins
Espalha-te
Nosce Te Ipsum
Confunda-te com os que te entendam

Filhinhos…
que vossa face
não esfacele a de outrem
não sucite a ira de Kronos
Recuse a falar a mesma língua

Liberdade de expressão
é expressar,
não violentar o pensamento alheio
Que ganância considerar,
que falamos ou que falaremos
um dia a mesma lingua…

A mãe traída sonha
que Réia há de parir
o afável Interface
que tocará cliques


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Adeus às borboletas


Dalilas pipilantes
Sansões descabelados
Pupilas estupefatas

Sanções esfaceladas
Entre papilas palpitantes

Será comédia?
Divina?
(...)

Mas não o Dante dantes

Braços abraçados às pilastras
De templos há tempo desfarelados

Cálido Sansão enfraquecido
Não mais da ausência dos cabelos
A cabeça: escabelo de Nero

Acendam pirilampos
Às janelas, nos campos

Propulsiona deste módulo
Examina o nódulo
E na lâmina basal,
fina treliça de macromoléculas
inocula o epitélio
e ocupa o receptor das lamininas

Ah lamentáveis borboletas obsoletas
Esculpidas em lápis-lazúli
Paralelos de lei
Anéis de reis

Azuis,
As libélulas pululantes
Paliativas
Navegam ao vento

Em hálitos de alento

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Está decidido: vou criar galinhas


E dá-lhe padecer em um paraiso… Outro dia dentre o vuco-vuco diário, dispus de um tempo e fui finalmente buscar minha filha de 4 aninhos na escola pública aqui nos Estados Unidos. A professora substituta pergunta se sou a tia da menina. Disparate, meu coração caiu no dedão do pé, respiro fundo digo que não, sou mãe dela e a energúmena acresce:
- Mãe da Oliva? Nunca vi mãe de Olivia nesta escola...
Lá corro eu cheia de vergonha, gaguejando feito criança pega em meio a traquinagens, explicar-me (afinal é preciso explicar-se, mãe ocupada não existe, exite pai, coitado que estressa, esbraveja, dá chilique e vai dormir mais cedo porque está muito cansado). 
Abaixo essa geração mãe de ferro afe, pressão pode até gerar diamantes, mas o que tem de carvão sendo esmagado neste mundo não está escrito. Cansei de querer ser diamante, pense, carvão pode um dia pegar fogo e aquecer muitos corações frios, cozer uma sopa de esperança (olha que o mundo está de cama precisando de umas sopinhas dessas de encher a barriga de borboletas).
Me faz lembrar um dos lemas do Arcadismo: fugere urben...
Saímos do campo, ocupamos lugar “de homem” no mercado, lotamos as faculdades cheias de saudade daquele tempinho que podíamos trepar em árvores, brincar de fantasia, éramos tudo com tão pouco e tudo tão simples. Ai vem a tal da puberdade e estupra nossa inocência, mata nossos ideais infantis, vamos lá, seja responsável, estude, trancafie-se, ensimesmamo-nos. Deixamos de ver o outro, pois é preciso ser objetivo: aquela não vai dar em nada. Casou nova, filhos que horror vai com certeza para a fila do bolsa-família.
E o tempo passa, casamos por amor ainda, mas olha que as coisas estão mudando é preciso ser seletivo, vai querer “esta vida” para você?
Nossa misericórdia ficou lá atrás pendurada nos galhos da árvore que arrancaram para cimentar o quintal; eca terra, que nojo, minhocas, lagartas, frutas podres e folhas ao chão. O pasto virou bairro, as vacas churrascos de há muito. Ah mas não nos esqueçamos, há que se deixar de comer animais, que crueldade, desumano, humanização de animal é coisa séria. E sua filha quer saber, ela quer saber tudinho, tim tim por tim tim.
Eu lembro dos frangos agonizantes no sítio, os porcos gritando, lembro dos peixes pouco a pouco adquirindo olhos vítreos. Passada a dor as mesas estavam plenas, agradecíamos o pão, inconscientes de que as mesas esvaziariam-se drasticamente, a ceia já não teria mais doze. Hoje nós agonizamos juntos, mas nunca tão separados, antropofagicamente consumidos pela culpa, é preciso culpar-se por tudo. 
Inevitavelmente, você se depara com o abismo abaixo de você, e era um coisa quando você se equilibrava, agora sua filhinha inocente, coloca a sapatilha na corda bamba e olha confiante para você, com olhinhos cheios de estrelas, ela sabe que mamãe “sabe de tudo”, que vai lhe mostrar o melhor caminho, que não a vai deixar cair, e você descobre que nunca esteve tão incerta em sua vida inteirinha.
Os orquestradores deste plano de desenvolvimento estão de boca escancaradas de felizes: não sabemos mais plantar, não olhamos para os astros, apenas por aparelhos precisos. A terra continua pedindo clemência, a abóboreira do fundo do quintal lastra-se e diz que tudo vai ficar bem, olhe, estou aqui, eu produzo teu sustento. Mas nossa mente já está muito configurada, o mercado tem tudo embaladinho assepticamente, cada gole de suco produz um lixo permanente a ser potencialmente lançado ao chão que adoece.
Então me vêm os grandes apregoadores da pró-natureza, estacionam seus veículos emissores de toxinas, vestem sintético para salvar os animais, e o benzeno que derreteu o plástico sai envenenando as fontes, o solo, nossa capacidade de ver. Instalam secadores para as mãos, imagine cortar árvores para fazer papel é um horror. E lá se vão a cortar florestas do coração do mundo, nossa Amazônia, reposicionar índios ancestrais e mudar o curso do rio para construir hidrelétricas... O secador precisa funcionar.
Nossa preguiça nos fez criar uma bolha asséptica, assentamos no escritório limpinho, sem insetos, janelas fechadas porque ai de nós se respirarmos sem filtros de ar... Para mínimas atividades há máquinas que fazem o trabalho duro ou sujo para nós, e então percebemos que ficar sentado faz mal, lá vamos criar máquinas para subir, para esticar, para desenvolver nossos belos músculos artificiais.
Um medinho do que vai ser, o monstro que dormia embaixo da cama agora toma proporções amenas, como saber? Como saber o que está sendo programado na cabecinha linda daquela criaturinha de felicidade? Mary Shelly foi uma visionária, em sua metáfora futurista já explicava: o que deu vida ao monstro de Frankenstein foi essa tal de eletricidade. #Somostodosfrankenstein...
- Filha como é que pode uma criança ser tão inteligente?
- Porque vou à escola mamãe.
“Mãe da Olivia?...”
 Dá uma dorzinha bem fininha, aguda, contínua do medo de ver certas impressões digitais na mente propensa à bondade.
Lamento informar... Ficamos frouxos, tudo isto é medo de não ter as coisas todas que os comerciais nos provam que não podemos viver sem. Precisamos nos matar de trabalhar, abandonar os filhos para serem educados pelo governo, para que pensem como o mercado exige, afinal não podemos viver sem seguro-saúde, os médicos estudaram muito, viraram estrelas.
Estamos lendo livros para nanar, ela apalpa o rostinho pensativa, fecha os olhinhos e indaga:
- Mamãe sou feita de plástico?
Só consigo lhe esboçar um sorriso, digo-lhe que não, que é de matéria, de células, de vida. Mas como explicar a ela que não somos feitos de plástico se nem eu sei mais?
Foi então que pensei no galinheiro e não me venha com essas idéias “empreendedoras”, não disse granja, vislumbro um galinheiro, palhas, galinhas gordas soltas a procurar onde é melhor botar seus ovos...