sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Está decidido: vou criar galinhas


E dá-lhe padecer em um paraiso… Outro dia dentre o vuco-vuco diário, dispus de um tempo e fui finalmente buscar minha filha de 4 aninhos na escola pública aqui nos Estados Unidos. A professora substituta pergunta se sou a tia da menina. Disparate, meu coração caiu no dedão do pé, respiro fundo digo que não, sou mãe dela e a energúmena acresce:
- Mãe da Oliva? Nunca vi mãe de Olivia nesta escola...
Lá corro eu cheia de vergonha, gaguejando feito criança pega em meio a traquinagens, explicar-me (afinal é preciso explicar-se, mãe ocupada não existe, exite pai, coitado que estressa, esbraveja, dá chilique e vai dormir mais cedo porque está muito cansado). 
Abaixo essa geração mãe de ferro afe, pressão pode até gerar diamantes, mas o que tem de carvão sendo esmagado neste mundo não está escrito. Cansei de querer ser diamante, pense, carvão pode um dia pegar fogo e aquecer muitos corações frios, cozer uma sopa de esperança (olha que o mundo está de cama precisando de umas sopinhas dessas de encher a barriga de borboletas).
Me faz lembrar um dos lemas do Arcadismo: fugere urben...
Saímos do campo, ocupamos lugar “de homem” no mercado, lotamos as faculdades cheias de saudade daquele tempinho que podíamos trepar em árvores, brincar de fantasia, éramos tudo com tão pouco e tudo tão simples. Ai vem a tal da puberdade e estupra nossa inocência, mata nossos ideais infantis, vamos lá, seja responsável, estude, trancafie-se, ensimesmamo-nos. Deixamos de ver o outro, pois é preciso ser objetivo: aquela não vai dar em nada. Casou nova, filhos que horror vai com certeza para a fila do bolsa-família.
E o tempo passa, casamos por amor ainda, mas olha que as coisas estão mudando é preciso ser seletivo, vai querer “esta vida” para você?
Nossa misericórdia ficou lá atrás pendurada nos galhos da árvore que arrancaram para cimentar o quintal; eca terra, que nojo, minhocas, lagartas, frutas podres e folhas ao chão. O pasto virou bairro, as vacas churrascos de há muito. Ah mas não nos esqueçamos, há que se deixar de comer animais, que crueldade, desumano, humanização de animal é coisa séria. E sua filha quer saber, ela quer saber tudinho, tim tim por tim tim.
Eu lembro dos frangos agonizantes no sítio, os porcos gritando, lembro dos peixes pouco a pouco adquirindo olhos vítreos. Passada a dor as mesas estavam plenas, agradecíamos o pão, inconscientes de que as mesas esvaziariam-se drasticamente, a ceia já não teria mais doze. Hoje nós agonizamos juntos, mas nunca tão separados, antropofagicamente consumidos pela culpa, é preciso culpar-se por tudo. 
Inevitavelmente, você se depara com o abismo abaixo de você, e era um coisa quando você se equilibrava, agora sua filhinha inocente, coloca a sapatilha na corda bamba e olha confiante para você, com olhinhos cheios de estrelas, ela sabe que mamãe “sabe de tudo”, que vai lhe mostrar o melhor caminho, que não a vai deixar cair, e você descobre que nunca esteve tão incerta em sua vida inteirinha.
Os orquestradores deste plano de desenvolvimento estão de boca escancaradas de felizes: não sabemos mais plantar, não olhamos para os astros, apenas por aparelhos precisos. A terra continua pedindo clemência, a abóboreira do fundo do quintal lastra-se e diz que tudo vai ficar bem, olhe, estou aqui, eu produzo teu sustento. Mas nossa mente já está muito configurada, o mercado tem tudo embaladinho assepticamente, cada gole de suco produz um lixo permanente a ser potencialmente lançado ao chão que adoece.
Então me vêm os grandes apregoadores da pró-natureza, estacionam seus veículos emissores de toxinas, vestem sintético para salvar os animais, e o benzeno que derreteu o plástico sai envenenando as fontes, o solo, nossa capacidade de ver. Instalam secadores para as mãos, imagine cortar árvores para fazer papel é um horror. E lá se vão a cortar florestas do coração do mundo, nossa Amazônia, reposicionar índios ancestrais e mudar o curso do rio para construir hidrelétricas... O secador precisa funcionar.
Nossa preguiça nos fez criar uma bolha asséptica, assentamos no escritório limpinho, sem insetos, janelas fechadas porque ai de nós se respirarmos sem filtros de ar... Para mínimas atividades há máquinas que fazem o trabalho duro ou sujo para nós, e então percebemos que ficar sentado faz mal, lá vamos criar máquinas para subir, para esticar, para desenvolver nossos belos músculos artificiais.
Um medinho do que vai ser, o monstro que dormia embaixo da cama agora toma proporções amenas, como saber? Como saber o que está sendo programado na cabecinha linda daquela criaturinha de felicidade? Mary Shelly foi uma visionária, em sua metáfora futurista já explicava: o que deu vida ao monstro de Frankenstein foi essa tal de eletricidade. #Somostodosfrankenstein...
- Filha como é que pode uma criança ser tão inteligente?
- Porque vou à escola mamãe.
“Mãe da Olivia?...”
 Dá uma dorzinha bem fininha, aguda, contínua do medo de ver certas impressões digitais na mente propensa à bondade.
Lamento informar... Ficamos frouxos, tudo isto é medo de não ter as coisas todas que os comerciais nos provam que não podemos viver sem. Precisamos nos matar de trabalhar, abandonar os filhos para serem educados pelo governo, para que pensem como o mercado exige, afinal não podemos viver sem seguro-saúde, os médicos estudaram muito, viraram estrelas.
Estamos lendo livros para nanar, ela apalpa o rostinho pensativa, fecha os olhinhos e indaga:
- Mamãe sou feita de plástico?
Só consigo lhe esboçar um sorriso, digo-lhe que não, que é de matéria, de células, de vida. Mas como explicar a ela que não somos feitos de plástico se nem eu sei mais?
Foi então que pensei no galinheiro e não me venha com essas idéias “empreendedoras”, não disse granja, vislumbro um galinheiro, palhas, galinhas gordas soltas a procurar onde é melhor botar seus ovos...

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A canção de Pépinot







Voa aviãozinho de papel


Propulsiona-te do fundo deste lago
Rompe a tensão superficial
Das águas escuras

Fulgura,
Vê de cima
Além da cegueira estática
catedrática
Desta física bruta, constante
Ação, reação?
...
Voa no céu azul
E volta para mim
Desvia-te que há mar
E teu destino é voar

Hoje é sábado
Pépinot espera junto aos ferrolhos
Do portão acorrentado de siso

Traga tua música,
Manipula com dedos d’alma
As cordas que movem
A pequena marionete

E quando o metrônomo
Dois a dois
Constituir teu inteiro
Desata os nós

Teu origami
Quer traçar sozinho
A canção predestinada
A ser escrita nas asas do vento





quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Sabiá verde


Pintura de Wagner de Oliveira
O Filó que vontade mulé
é vontade de que tu qué?
Ai que saudade do pé...
Oxi oia o pé ai, tem inté chulé
As foia Filó, as foia fazia cafuné
Foia di que Zezé?
Quando nois panhava verdinho do pé
enche a boca d'água Filó
Tu ta é lelé
To não Filó
é que nem o canto lá do Dias
noi vei pa essa terra
de bacon, hamburguer and coke
o dó...
Dó de que mulé
di num tê jiló
ai que saudade de jiló...

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A menina que plantou uma floresta


Era uma vez um planeta árido, cujas areias quentes reluziam a verde luz de seu triste sol. Um planeta fadado. Era uma vez uma navezinha feita de pós constelares, movida a energia cósmica.
E uma voz grande que falava do universo para o universo, ordenando aos viajantes do espaço sideral que abrissem as sete cabines meteóricas, rompendo o lacre a vácuo, donde encontraram oculto sob as arestas iridescentes de um arco-iris, as finas portas de cristal, e dentro da pequena cela baldinhos de vime plenos de sementes.
E disse-lhes a grande voz:
- Ide, plantai e colhei.
E cada peculiar passageiro recebeu igualmente o mesmo balde, as mesmas quantidades de cada semente. E lacrimejavam felizes. Iam preparar um lugar.
Ainda em descendência, alguns se entristeceram pois o sol era verde; ao pisar ao chão arenoso, esmoreceram-se outros, cansados deitaram sob a fenda das penhas, no oculto das ladeiras:
- Faz calor, enfadados estamos, esperemos a chuva.
Mas a menina, única criança, enterrou sob sua primeira pegada a semente em formato de lágrima, uma macieira.
- Morrerá certamente, desperdiças tuas sementes.
E a menina encontrou a trilha onde um solitário animal passava todos os dias a caminho da montanha branca para uivar às três luas: amarela, vermelha e azul.
- Me parece que tuas noites são mais coloridas – disse ela.
O animal peludo rompeu o uivo. Os olhos ainda vidrados em hipnótica dança à cada lua. As orelhas longas súbito aprumaram-se.
- Não interrompas, comovo-as para que chorem. Vê? - apontou à distancia, ao fundo do vale que mal se discernia na penumbra, o reflexo multicolor das três luas sobre o lago quase seco do deserto, e irrompeu em ruidoso canto não lhe falando mais.
Os peregrinos que a seguiam arrazoavam entre si das estranhezas, da incoerência da criatura a cantar às luas.
A menina entretanto, encantada com tal visão, enxeu o peito de entusiasmo e serelepe plantou três sementes: uma rosa, um girassol e lilases. Cada qual em direção de seu respectivo reflexo em cor.
Ja era tarde. Adormeceu assim. A cabecinha cacheada repousando sobre uma pedra. Cobriu-se da areia morninha e sonhou que as estrelas lhe escreviam mistérios.
E o frio caiu sobre o planeta.
Alguns retornaram ao conforto condicionado da navezinha lançando suas sementes às pedras.
- Vão é o trabalho – lamentavam – este chão é estéril. Perdes teu tempo ó menina, gastas em vão tuas energias e tuas sementes. És tão pouco prática: imagine, plantar flores, não se pode comê-las.
A menina meio cabisbaixa tentou cantarolar uma canção muito antiga. Lembrou-se das espigas, e ao pé do vale enterrou seus grãos de milho na areia.
Um ronco alto do animalzinho a alertou, encontrou uma caverna morna, de entrada espinhosa. O animalzinho muito precavido não desconsiderava haver um dia predadores. Os peregrinantes riram-se muito dele, e ele, alheio, continuava sereno a roncar. Dois dos integrantes se enfiaram gruta adentro, “a espera de outra terra”, cansados da noite mal dormida.
E a menina percorreu o caminho, dia após dia, entre espinhos secos, áridas terras, sob o verde soturno sol, e foi a metade de um ano, a viver de comer as bolotas da nave.
O animal prosseguia uivando, a pequena semeando, e de contínuo vozes ralhando que o balde da menina esvaziava.
- Há que ter cuidado, saber quando usar tuas sementes. Não desperdice teu único recurso.
E aconteceu que uma noite, absorta a enterrar umas amendoas, a menina deu-se conta da ausência do uivo do animal ao longe. Observou pegadas frescas e prontamente as seguiu. Encontrou o animalzinho em curiosa posição: pom pom à mostra, ouvia ao solo atentamente.
- Olá!...
- Shhh...
Curiosa que era deitou sua orelhinha ao chão e ficou também à escuta durante tanto tempo que adormeceu ao relento.
Acordou quando quase de manhã ouvia um rabiscar de espinhos sobre pedra plana. O animalzinho calculava, rolava os olhinhos para cima, mordiscava o caule do espinho.
- Que ouvias? - indagou.
- Estou aprendendo a ouvir – disse ele – é preciso aprender a voz das águas.
E a menina atingiu a outra extremidade do planeta, enterrou as últimas três sementes e encontrou um cantinho donde um ovinho pendia.
- Que pena. – suspirou seu último acompanhante – Vês? A lagarta certamente morrerá, borboleta imprudente deixar assim seu ovinho à mercê.
Dito isto, vertendo copioso pranto olhou para trás e juntou-se a todos decididos que era tempo de retornar.
A menina cansada das idas e vindas orbitacionais decidiu que ficava. Deixaram-lhe as bolotas reminiscentes que durariam um tempo e outro pouco de tempo até que necessitasse mais. Ficaria a cuidar do animalzinho.
A navezinha partiu. E com ela veio a noite. Uma dessas noites lúgubres, frias, completamente nublada. E a menina sentiu medo. Pensou nas coisas todas que lhe diziam. Questionou-se. A menina chorou. No escuro distante o canto do animalzinho entristecia às luas.
Amanheceu ainda mais verde. Cansada da longa jornada a menina voltou a dormir profundamente.
Os astros viajavam incessantes no espaço e junto a eles a navezinha vagava, navegantes às janelas. E um dia o astrolábio apontou à estrela que anunciava: findavam as bolotas da menina.
Retornaram pronto.
Estranhamente, apesar da precisão do instrumento não encontraram o planeta. Havia desaparecido da face do universo.
Porém surpresos notaram um sol amarelo, um planeta azulzinho e uma densa floresta.. Decidiram visitar, encontraram uma mulher estonteantemente cascavelando entre eiras, circundada de borboletas, pássaros coloridos e animais filheiros.
- Eu disse que voltavam! Aqui... - esticou o bracinho delicado e colheu uma maçã – Comam, é doce.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Vozes


Polêmicas policênicas
Ruídos concêntricos
Brados
Uivos
Ais

Mimese da arte
A vida navega
Em infinita travessia
A um Hades
Sinistro
Sinestésico
Sintético
Fétido

Psiquè
Onde está teu algodão?
Caronte sorri
Um sorriso guloso
De quem não se importa
Se tens ou não o óbolo

Psiquè tapa os ouvidos
Mas não pode mais
Tapar aos outros
Que teimam gritar
Dentro de si

Cerra teus olhos, querida
A vida,
Ali,
A flor
Um carneirinho
Na folhinha da sala da vó
O vento gentil nas esguias folhas
Da mangueira frondosa
Amarelas mangas marengas
Maduras
Vacas serenas

Tapa teu nariz
Cheira a cera Paquetina
O vermelhão frio sente sob teus pés

Resgata tua Psiquè
Das vozes alheias
Liberta-te da teia
Ama,
Escuta aquela pequena voz
Tua chama de paz
Calada pelos berros
Cerrada em cadeias
Dialéticas
Dietéticas
Cibernéticas
Frenéticas
Éticas Éticas Éticas…

Dorme Psiquè
Deixa Zéfiro trazer
areias
Eros
Volúpias
Silêncio:
Olimpo


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Parte




O fado à mesa, rendilhadas toalhinhas de crochet engomadas, amarelados ideiais do uso de outras épocas. As mãosinhas das meninas martas fiam serelepes os arabescos das agulhas. O pingo de sangue nos alvos fios não lhes inspiram um nome. Um pingo de sangue no branco é.

As meninas martas por vezes têm mães, irmãos, outras nem ósculo, carecem de pão. Agarram os parcos fios de possibilidade: aprender. Elas têm sede. E a aula do dia será aprender a fazer flores de plástico. As meninas martas mergulham as garrafas secas na mistura de tintas, pintam com cerdas também de plástico. Se esmeram, capricham, vão além do picotar insidioso da tesoura. Dentro delas ferve a criatividade, potencialidades. O arame afiado enrosca a pétala, o crepon enverdeja. A flor tem um quê de bela, mas não cheira, os pássaros não piam, as abelhas não polinizam.

As sementes foram guardadas em grandes cofres. É preciso fazer silêncio, mergulhar no mesmo livro. Aprender as mesmas coisas. Martear é duro ofício.

As meninas marias se enchem de sabedoria e mais tarde se assentam à mesa plenas. Enquanto isso, as meninas martas adormecem sonhando que um dia poderão vir a ser marias.

O despontar do dia acorda a todas, o relógio às martas, os pássaros às marias.

As meninas escolhem todos os dias a mesma sina: as marias acontecem, as martas fazem acontecer às marias.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Canção para ninar Dulce


Dulce dorme
o doce suave sono
o justo
depois das noites insones
Dulce dorme
já não chora,
hoje choramos por ela.

Dulce adormecida
entre as flores todas
que plantou no jardim da vida
Já não ouve o barulho
da histeria deste mundo

Dorme Dulce
que o tempo certo chegou
de descansares do caminho longo
de relembrares o som
dos felizes risos de infância

Dulce menina

O teu jardim é secreto
só quem encontrar a chave
é que vai desfrutar
o suave cheiro
das tuas flores

E muitos já a têm,
escorrem dos olhos
as novas seivas
que hão de continuar
o jardim que tu começou

Dulce mulher
Dulce mãe
Dulce filha
Dulce irmã...
Doce em todas faces

Dorme Dulce
em paz, no amor
na serenidade
de quem ao fim
encontrou a luz
do amor que plantou

Em homenagem à querida Dulce Batista de Assis, que dormiu hoje.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Fiat Lux

Painting by Mercedez Farina

Há um movimento no ar
Renoir

Ninfetas refletem em cliché
Monet

Relógios derretidos ao porvir
Dali

Corações abertos, feridas
Frida

Abaporu o aborígene de argila
Tarsila

Escorre das eras a mesma
cor, resplendor de dores
de amores
epifanias multicolores

Cromos e Cronos
Despertar
Sonos

Emaranhados na teia
idéias e sonhos
escorrem das veias
Ampulhetas vazias
Castelos de areia

Dualmente
A esfinge alva fita
Decifra
O pensador negro definido
Pondera eterno a divagação vã
Rodin

Nos tubos filheiros
Descansam ainda as tintas
os cinzéis, as rimas
E súbito
da pedra bruta
O grito

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O enterro da Eremita




Uma primeira lágrima tímida iluminava os olhos da pequena Olivia, o queixo trêmulo, as mãozinhas apostas como que em oração instintiva.
- Morreu? Caranguejos não morrem mamãe.
- Morrem sim filha, é a ordem natural das coisas.
- Pára de dizer que ele está morto, animais não morrem, ela está dormindo.
- De certa forma querida, é como se dormisse mas de um sono que não há de acordar para esta vida jamais. A vida é assim mesmo.
- Gatos não morrem – diz ela concomitantemente fitando Gaston O. Gato, que por sua vez repousa indiferente no ninho de papéis que ele mesmo ajuntou sobre a saída da calefação. Gaston abre ligeiramente um olho, como que interrompido pelo olhar dela, depois escancara a boca bocejando imenso.
- Todos seres vivos morrem. - digo.
Ela rompe em soluços, gritando alto que quer morrer também, que não é justo, que não quer mais ser minha amiga – ela sempre rompe relações quando está frustrada e não sabe exatamente o que quer dizer.
Surpresa com a reação dramática continuo meus afazeres, afinal já programada: a vida continua.
Os gritos não param, ela levanta os bracinhos e teatralmente se lança ao piso com as faces avermelhadas completamente banhadas das lágrimas sentidas.
- Amor, não chore, o Hermie está tão feliz, ele foi para o céu, encontrou a mamãe dele, o papai, alguns dos irmãozinhos. Ele já não sente frio, sede, ou fome, e pode flutuar nas alturas, junto a nuvens de algodão. Ele já contou para todo mundo lá sobre você, que você cuidava dele, que foi o eremita mais amado neste mundo. Ele está radiante pela sorte de ter sido escolhido por você.
Ela corre para o viveirinho, apanha o “filhinho” que está vivo e o nina na concha da mão chorando que agora o bebê não tem mais uma mamãe. O eremita espia com seus olhos rombóides de dentro da concha, tentando desvencilhar-se encolhendo as pinças e balouçando curioso as antenas. Ela recolhe a recém desenhada figura da “família” que havia colado no viveiro como presente aos crustáceos.
- Docinho, vamos fazer um funeral para ele, vamos colocar seu desenho porque o Hermie quer mostrar para todo mundo lá no céu.
Compomos a última morada do decápode em uma caixinha de acrílico transparente, perfeita para a ocasião solene, o leito é feito de rosas secas colhidas do jardim durante a primavera passada, cuidadosamente deitamos o eremita em sua concha-mortalha, sua última tanatocrese. Repousa sobre uma toalha de papel branca, no sofá, enquanto a pequenina chora copiosamente aninhada em meus braços. “Parece o caixão da Branca de Neve” - digo tentando desviar-lhe o pensamento.
O frio é impiedoso lá fora – vai ser impossível cavar-lhe uma cova – penso fitando da grande vidraça a neve ultra macia devido ao frio causticante.
Ela pede para segurar o defunto, alisa-lhe o exoesqueleto carinhosamente. Quer beijar o bixinho. Digo-lhe que não, que o corpo pode ter bactérias, germes, estafilococos. Sugiro que sopre beijinhos. Ela interrompe o choro e curiosa principia a lhe puxar o corpo. O pléon não oferece resistência alguma e estupefatas adimiramos a fragilidade da pequena cauda que o mantinha confinado. Depois de solto da concha o animal se desintegra, gradativamente, as perninhas caindo no papel branco com que por si. A primeira autópsia se conclui.
- Mamãe vamos cozê-lo?
Minha vontade é cair em gargalhadas. Sou obrigada a desviar o rosto e a abraço forte.
- Não filhinha, não podemos comer seu animalzinho.
O enterro é breve, ela mesmo cava a neve macia com as mãos, faz uma cova de gelo. O Hermie repousa no jardim aguardando a primavera, até que o solo volte a sua maciez para a cova permanente.
Dentro de mim ainda ecoa a pergunta da pequena “vamos cozê-lo?”. Era um propósito. Minha pequena procurava um propósito para a estúpida partida.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Fractus



Alva a neve
voa
veste iluminando
as valas os vãos os vazios
fracções congeladas
não Euclidianas desta geometria
minúscula
complexa em sua simplicidade
triangular gélida
infinita
frágeis cristais límpidos
multicolores
na alvura deste ar congelado
em movimento

A nuvem baixa
descende em faixa
refletem céu e terra
a bruxuleante luz branca
refractada, crepuscular

imagens caleidoscópicas
pontiagudas ante o eixo
triangular da mensagem
matemática
enigmática
pragmática...
sob a lâmina do instante
jaz a objetiva ocular
mesmerizada
buscando decifrar
o breve instantâneo
grafado desde o universo






quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vou-me embora



- Moço, uma passagem por favor.
Para onde? Para onde vou?
Ele não me ouve, o telefone toca.
Alô? Sim o 395 chegou, não, não senhora, já chegou.
O chão rescende a mijo curtido, sortido, encrustado nas frestas sextavadas do pavimento rachado. Um cheiro misturado ao pinho do desinfetante amarelo.
Olhos de ressaca espiam taciturnos das janelas na penumbra.
Não, não olhos de Capitu, de ressaca mesmo, olheiras fundas, faces babadas.
Malas prontas. Vazias. Pés descalços. Cabelos cortados.
- Uma passagem por favor.
A mãe chora inconsolável à porta do 416. A filha acena de dentro com a mão do bebê sonolento, sobe as escadas de costas, o motorista suspira condescendentemente.
Penso na carta. Perfumada com um ramo de alfazema imaginário, dobrada minuciosa e geometricamente em ousado origami. Uma vida para dizer com palavras tudo o que estava aqui, engasgado.
O motor arranca fedendo a diesel. A mãe se arrasta ao destino certo como se trouxesse o ônibus às costas.
- Vai pra onde senhora?
E agora? O pensamento irrompe como que em eco.
Não quero ir para onde todos estão indo com essas caras de querer ficar.  A lista indiferente apontando destinos concretos, definidos,  espetados como que eternos no mesmo lugar.
Já é tarde, ainda bem, o vendedor indiferente continua com os olhos grudados em algo debaixo do guichê. Este já chegou – penso.
Pra onde?
Coloco a carteira no balcão engordurado. A mala vazia faz tremer os ligamentos nos ombros exaustos.
- Onde senhora?
- Vou-me embora – sorrio, um novo lampejo acende no olhar. Deito a mala no chão. A identidade, no balcão. O vendedor continua insidiosamente gritando “a carteira dona”. A voz vai sumindo, e com ela a estação, as roupas, as mágoas. Só a antecipação impulsiona as moléculas: para frente, para frente, infinito adentro mergulho.
Na escrivaninha escura do quarto, a folha vazia em forma de passarinho súbito voa, janela afora.




terça-feira, 29 de julho de 2014

Arte pela Arte




Se não se lançasse

ao desenlace

ao descabelar-se

a despelar-se

Mártir

algoz e vítima

da; e pela arte

Parte da pena

que te depena

ora dá pena

outrora empluma

te ala

acasala,

embala

teus soluços

aos solavancos

transformando teu pranto

em canto

teu nada em tanto

em tudo

em arca

e tua lança

em fumaça

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O Vestido

Preso à hora do encanto
o vestido ata
justo à cintura
silhueta sílfide
escultural
contra a luz
na porta da ocasião

Enclausuradas entre ilhoses
as palavras proferidas
a concretização
do juramento

Pontos cosidos
manualmente,
meticulosos
precisos
cingidos pedaços
de sonhos
de suspiros
de sinas

Aspirações
da artesã
intensionalidades
bordadas com fios de seda
flores de brocados
gotas de pérolas
cândidas
cobrindo a luxúria
da incontrolável paixão
nos moldes firmes
das barbatanas do corpete

Encantam-se
vestido e ela
como asas diáfanas
translúcidos os véus brancos
esvoaçantes acenam ao vento
arrastando no tempo
a pequena cauda
que farfalha no azulejo

Uma mão lhe toca primeiro
tornando carne a imagem
o momento airoso
depois braços
outras fazendas
risos, lágrimas
e uma pequena estrada

A sofreguidão rasga
delicadas organzas
arranca pérolas
amarrota fios

O vestido arrancado assiste
sobre a cadeira estofada
o descortinar
de sua última noite livre

Quando a aurora rompe vermelha
a manhã,
é dobrado as pressas
recebendo os últimos afagos
papéis de seda
uma caixa lhe cerra aos olhos
um solavanco lhe empurra
embaixo da cama

Raramente visitado
a fazenda amarelece
desfalecem-se as fibras
salientam-se as quinas
enrijece a fazenda fina

Ela o visita tempestivamente
percorre os dedos saudosa
ora molha com lágrimas tristes
ou lhe joga de volta ao escuro,
em ira

Já não o veste mais
desde que o visitou
apresentando-lhe pequena mãozinha
olhinhos encantados
ao ver-lhe os arabescos

O vestido não serve mais
está sujo, mofado
amassado
fora de moda
porém guardado
atado ao legado
à glória de um passado

Borda-lhe o tempo
fios de possibilidades
e o bolor em prolepse
aveluda a concretude branca