segunda-feira, 3 de junho de 2013

Penas


Passos descompassados
rastros
O mesmo caminho já gasto
esculpindo
memórias em alabastro

Solo magnético
pêso
garras cibernéticas
frenéticas
Cadeias dialéticas
confinam um cético

Pés pisam o pó
de antepassados
além do véu transpassados
 já desataram o nó
Desintegrados
integram-se ao chão

Pés que saltam
em pequenos voos
vinhos
substancias
pequenas transcendencias
aos herdeiros da decadencia

Duras penas
Peso de vento
te aprisionam do firmamento
penas arrancadas
de asas quebradas
pela geração
pés no chão

A abóbada mestra
convexa
se abre límpida
no arco pleno
tão simples
ora complexa
aduelas nítidas
feitas de sereno

Espera que o peso
deixe teus ombros
que saltes desta tua matéria
que te misture ao vento
e que tuas penas sejam apenas
das asas do teu pensamento


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Marina partida





Algas emaranhadas aos cabelos
Dançando qual tentáculos
Coroando a face pálida
A boca encarnada cerrada
As bolhas extintas
Olhos vitreos fitam além
Do vai vem sereno
Dos peixinhos coloridos

Um pé descalço
O outro ostenta o sapato
Bordado de vidrilhos
Cintilantes

A fazenda farfalhante brilha
Ondulando qual flâmula
De um conquistador

O pé alvo, descalço
Balouça no plasma
Resvala na anêmona
Furtacor
Como que em troça

O vestido está preso
À cadeira entalhada
Enterrada na areia
Perpendicularmente
Pés de garras de águia
Seguram um globo

Anima Mea

Livre
Voam braços
As pulseiras cintilam
As pérolas do colar arrebentado
Ornamentam a areia
Circundando o pé calçado
De volta ao berço

O fundo do mar está em festa

A sua destra reluzem objetos
Destroços
Ondulam tecidos
Ariscos mariscos

Enquanto os novos súditos
reverentemente
circundam em ciranda
à nova rainha
Marina





sexta-feira, 5 de abril de 2013

soneto da expiação




em posição fetal
meu anjo chora
deriva no agora
que fito mortal

chora o imortal
lágrima aflora
do anjo que ora
não é celestial

anjo nu, asas alvas
alva tez, insensatez
chora anjo às almas

cegas, nuas, feridas
cujas lágrimas lavam
as chances perdidas

quinta-feira, 21 de março de 2013

Carretel

Imagem: Velha Fiando por Ronaldo de Campos Fernandes

Saudade,
velha sorumbática
corcunda
enrugada
a fiar na velha roca
Dedos ossudos ainda destros
porém lentos
carcomidos do tempo
da janela na alta torre fita o relógio
em constante oscilação
e sobressalta-se a cada blem

O coração já não acompanha o relógio
vai a seu próprio passo
em descompasso
A roca, o relógio, suas memórias
giram com a terra num universo
centrífugo

Quem fita da luz não a vê
está misturada na soturna escuridão
nos tons terra amarelecidos
na penumbra da cor de ontem

O véu da catarata não oculta-lhe a luz
Ela vê da janela as cores dos dias extintos

Saudade,
desde o ventre saudade do antes,
um constante fitar do ontem
memórias marcadas no batímetro
de um tempo permanente

A velha vislumbra lembranças,
onde o tempo é sempre presente
fita de dentro da escuridão
um ontem há muito ausente
A mãe ralha porque ralou o joelho
A fita vermelha
O gatinho Félix enterrado no quintal
Ruboriza-lhe a lembrança do beijo
Extasia ainda a imagem de amor

A linha foge de sua mão
emaranhando o fio às possibilidades
do que poderia ter sido
aquele fio de meada

A velha puxa os nacos de algodão
girando a velha roca
a roda roda para frente
continuamente
tece um carretel
para a fazenda do vestidinho da menina
uma menina que ainda gira no ventre
dormente

O ranger insidioso da roca
acompanha o buraco negro
de dentro de seu peito
engolindo para a escuridão permanente
o brilho nebular
das saudades de uma estrela anã








segunda-feira, 11 de março de 2013

Transcendência



Fotografia por Dayane Elisa

      Momentos

      Marejam os olhos
      Desatam os nós
      Tremulam lábios côncavos,
      Convexos

      Farfalham cílios
      Qual espirotrombas
      Besuntadas
      No mel do divino





Momento
Em que infla-se o peito
De todo ar que se pode inflar
Relaxam-se os ombros

Réstias de luz
Lampejos de sabedoria

Ah epifanias,
Extasiados olhos
explodindo em maresias
escorrem pela areia
De uma face serena

Contempla
Da janela além da fazenda
As sinestesias
Da vida que dança
Nas cores perfumadas
De uma tarde doce
Atravessando a renda de tua venda

sexta-feira, 8 de março de 2013

A alquimista




 
Ah mulher!
Por que mordeste?
Te deixaste enganar em seu próprio conto
ludibriada pela fálica serpente

Mulher,
tu te condenaste a sorver em teus rubros lábios
o veneno que destilas em mel,
e alimenta o ventre protuberante

As tuas mamas jazem plenas de promessas

Tu és invólucro
Casca
Retículo endoplasmático
Raiz da árvore esplendorosa
que se estende majestosamente apontando ao infinito
enquanto te enterra ao solo sombrio
rumo ao cerne flamejante da terra

Mulher, que olha para o teu castigo
naquele berço de criação
com a graça dos afetos que te rompem
em chuvas de sal

Tu salgas a terra
das loucuras da insipiencia

As tuas emoções
tão flores
poemas da divindade
refletem nas pérolas dos teus dentes

Mulher que morde novamente
a fruta suculenta sob o olhar encantado da serpente
para que possas viver outra vez o enlaçe da meiose

segunda-feira, 4 de março de 2013

Cambuquira


Acabou o gás, um fogão improvisado no fundo do quintal cozinha o feijão carioquinha. A vizinha espia do muro de placas ralado, cheio de barro vermelho e sai rindo alto. O tijolo vermelho estala sob a panela de pressão untada de sabão por fora para proteger a panela de encarvoar-se permanentemente.
A mamona estala despejando sementes sobre a roupa de molho no sabão de soda dentro do tanque. A outra boca cheia de água colhida da chuva.
- O fia cata uma abobrinha lá no pasto.
Uma aboboreira nasceu a esmo a espera do sacrifício de seu fruto.
- O mãe acho que robaro, num tem nenhumazinha.
A mãe engole o nó da garganta. Deixa a bacia rachada de pregadores no canto do tanque, um vento brincalhão derruba tudo. O sol escalda.
- Fia cata os brotim, vamos ter cambuquira.
A mãe chacoalha a camiseta de uniforme, precisa estar seca em uma hora, ela torce e chacoalha repetitivamente. O cheiro de feijão tostado rescende, a mãe corre socorrer pendurando a camiseta no varal de arame farpado.
A tábua de carne já espera com meia cebola, dois dentes de alho, a mãe refoga no óleo de soja e joga o feijão borbulhante dentro. A vizinha linguaruda grita que o cheiro “tá de matar”.
A mãe pede para lavar os brotinhos e colocar na tijelinha com um cadinho de vinagre ralhando para economizar, uma colher basta!
O banho é de canequinha, a água aquecida no fogão improvisado do quintal.
Ela refoga o arroz quirera e a cambuquira ao mesmo tempo. A vizinha chega comentando que acha que de hoje não passa, há de chover. Que a vizinha da esquina “aquela sirigaita” ta saindo com o vizinho da frente, que “a fia ta bem ali para não deixar ela mentir sozinha”.
O pai chega de bicicleta Monarch verde, a verduca, chega roxo do sol. Tem cimento até nos cílios, reclama do atraso no almoço e xinga a luz cortada. A mãe corre no quintal e estica o uniforme para melhorar a aparencia.
A vizinha achega-se à mesa, “o vizinha mas eu vou ter que experimentar um cadim, o trem cheiroso”! - diz, aconchegando os dois filhos com cara de gulosos. A mãe diz que ela é muito bem vinda, corre no fundo do quintal, colhe um mamão verde que rala em segundos, refogando e já servindo aquela mesa de delícias. As crianças da vizinha gulosamente se refestelam e ela envergonhada reclama que não comem nada em casa, que deixam tudo no prato.
A comida da mãe satisfaz os desesperos, as chacotas, nos enche os estômagos e os olhos de esperança. A mãe está em perfeita sintonia com a terra. Saímos para a escola, o pai para o trabalho cheios do conforto de hoje. Que saudade da cambuquira da mãe.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Procura-se uma menina

Quem me encontra
uma menina
com sorriso de boninas
Uma menina faceira
tagarela
cuja vida é uma brincadeira
Estou a procura dela
não sei para onde foi
Está além de minha janela
que saudade que dói
em pensar na menina
que adora enfiar o nariz em coisas:
em livros, conversas, até no pratinho da tartaruga
- Desce do pé de acerola Jhenifer!
a mãe ralha lá dentro
mas ela já está em outro intento
- que será que eu invento? - pensa.
Puxa o museu de artes debaixo da cama
expõe suas obras na parede,
no colchão
no ventilador
até a tartaruga sai levando
uma arte fina em seu casco
Mas ela já decide que é ginasta
e sai fazendo malabarismos tais
que faz um nó nas pernas e derruba os cristais
- Ê menina levada, já levas uma palmada!
a mãe esquece que ela é gênio,
e só vê a bagunça na casa, coitada
Incompreendida...
Deprimida decide que é poeta
Senta-se à mesa imaginária
feita de caixa de sapatos
E escreve uma obra prima
à prima que mora na China
Que prima?
Eita menina!



Feliz Aniversário a minha querida sobrinha Jhenifer! Te amo linda... Tantas saudades.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ecrã

Seres mentecáptos
energúmenos
insanos
sois
Avaros
insensatos
frios amantes de si

Glória feita de fumaça
é a tua carapaça
teus caminhos
trapaças
raça
que passa
que pisa arrastas
sonhos que amassas
tu e teus cruéis comparsas

Peças da máquina maldade
tua cidade apavora
chora e implora
impiedade
iniquidade
evapora agora
Sábios esperam a hora
da sensatez iluminar tua idade

uma peça
 tua chave
Ao longe antepassados
aguardam o teu sacrifício
têm sede
 de sangue
esvaindo
em morte
e gulosos assistem a espera
de que tu voltes, para morrer
outra vez, outra vez, outra vez


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Seda



Qual flâmula
Farfalha a seda macia
Desliza contra a pele,
Arrepia

O corpo nu sob a seda
escarlata
Orna Leda,
Em lânguida borboleta

Sedosa tez
Seduzida pela maciez da seda
A espera do cisne
Contorce em sede
Leda

Ah Leda, vestes o berço
Das mariposas bebês
Inebriada foste atraída
Às luzes de tantas cores
Derramadas no manto da tua pele nua

A caldeira ferve borbulhante
Inocentes as pupas dormentes
Desconhecem
O destino fervente

Leda envolta em seda
Desmente em tom demente
A cruel saga da trama dos fios

Leda se deleita
Enquanto Zéfiro furioso
Adentra da janela
Em lufadas gélidas
Lambendo-lhe
Alando-lhe
Ardendo

O seio sedoso
 enrijece sob a seda
enquanto ela pinta o lábio
Carmim

Leda suspira
Aos sussuros de Zéfiro
Espera que a hora se apresse
E que o afago da seda
Lhe adormeça
A sensibilidade de mariposa
Para que devassa
Enlace
A hora do cisne





quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Beiro Ebrio


Ah ha ha ha!
Hoje vou me embriagar,
Vou entortar o caneco
vou encher a cara
Hoje vou dizer chega:
às convenções impostas
às modestias
às máscaras
às vendas dos olhos
Hoje vou abrir a janela proibida
vou espiar a vida que há além
vou me derramar em choro
oh, yes!
Choro!
Que se danem seus ombros distantes
sua insensibilidade
sua estúpida aparente racionalidade
vou chorar desde o coelhinho morto
à última mágoa boba
sim, a entonação da voz diz muito
Hoje eu derramo minhas mazelas
meu grito abafado na garganta
vai soar na abóbada celestial
como trombetas apocalipticas
Hoje eu quero explodir deste círculo vicioso
uma explosão de mágoas
para que eu possa externar
que não sou feita de choro
que essas lágrimas só estão aqui
por sua culpa
pela sua ausência
Que eu entendo, mas que mesmo assim dói
e se sua mão me alcançar a tempo
gritemos e nos embriaguemos juntos
e vamos fazer chover as flores que escondemos
na cortina da convencionalidade
Razão, vá para o inferno hoje!
Eu quero tocar a minha própria alma
encolhida, carcomida, esquecida
e reaprender-lhe o encanto
Vamos beber do céu azul tão lindo lá fora,
embriaguemo-nos com o vôo dos pássaros
pasmemos estupefatos com o trilhar da formiguinha incrível
escandalizemo-nos com a sabedoria das abelhas
vamos inspirar do que ensinam as estrelas
Não, não visitemos o planetário!
Vamos subir nas montanhas dos nossos sonhos
e estudar o mapa do universo por si
Vamos chorar de emoção com as estrelas cadentes
Vamos inventar um mito novo:
dar três pulinhos, amarremos uma fitinha no braço,
o que seja necessário para que este sonho dure
nem que seja o instante desta poesia.
Então trôpegos,
seguremos as mãos das crianças abandonadas
famintas,
das mães pobres desprezadas,
e rindo sem parar lhes demos a esperança
de que o mundo está lindo ainda,
e que as borboletas hão de apontar
o caminho para nossa metamorfose.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Mistere



Estava escuro
Uma noite negra cujo manto
Se estendia na abóbada do infinito

Um escuro sem forma
Suspendido
Soturno

Uma estrela
súbito postulou
uma existencia

Um marco
O início e o fim

Foco

Nubentes escuro e estrela
se misturaram no doce mel
do contraste branco e preto
e o segredo procriou em luz
multiplicando os pontos no céu

Formas geométricas
espelhos paralelos na amplitude
girando o caleidoscópio
maniqueisticamente

A luz negando o escuro
O escuro fugindo da luz
tão distante e tão juntos
existindo um em função do outro

No sonho estrelas mil
adornam um céu convexo
e explodem como fogos de artificio
lançando-se verticalmente
ao abismo

O céu se nubla, apenas algumas restam
O ente suspenso no mistério pondera
Por que cairam as estrelas?

domingo, 27 de janeiro de 2013

Pranto de Santa Maria



 Santa Maria chora.
Oh lágrimas dolorosas
E agora?
O mundo ao avistar a Santa
Também veste a negra manta
Os morros calados ao longe
Abraçam-na em espanto
Ante o emudecer dos lábios o canto

Santa Maria chora sem consolo
A nuvem ácida que murchou-lhe as flores
o calor febril que teceu-lhe em dores

Santa Maria chora os filhos,
Chora os pais, chora as moças
Os quartos vazios
A lacuna
Soluçam em coro as tantas mães Marias

Um estileto negro jaz no chão chamuscado
testemunha da pressa da Cinderela às avessas
Picaretas, machados, romperam a parede
aos que tentavam aplacar das chamas a sede
Um buraco, em desespero rasgado, atravessa
Para o lado dos que já se tornaram alados

Santa Maria chora
Os filhos alegres agora heróis
a triste memória dos que ficam
(Soluça)

Santa Maria ontem se alegrava
com os que se alegram
Hoje, Santa Maria chora
com os que choram

Santa Maria chora
(...)