segunda-feira, 11 de março de 2013

Transcendência



Fotografia por Dayane Elisa

      Momentos

      Marejam os olhos
      Desatam os nós
      Tremulam lábios côncavos,
      Convexos

      Farfalham cílios
      Qual espirotrombas
      Besuntadas
      No mel do divino





Momento
Em que infla-se o peito
De todo ar que se pode inflar
Relaxam-se os ombros

Réstias de luz
Lampejos de sabedoria

Ah epifanias,
Extasiados olhos
explodindo em maresias
escorrem pela areia
De uma face serena

Contempla
Da janela além da fazenda
As sinestesias
Da vida que dança
Nas cores perfumadas
De uma tarde doce
Atravessando a renda de tua venda

sexta-feira, 8 de março de 2013

A alquimista




 
Ah mulher!
Por que mordeste?
Te deixaste enganar em seu próprio conto
ludibriada pela fálica serpente

Mulher,
tu te condenaste a sorver em teus rubros lábios
o veneno que destilas em mel,
e alimenta o ventre protuberante

As tuas mamas jazem plenas de promessas

Tu és invólucro
Casca
Retículo endoplasmático
Raiz da árvore esplendorosa
que se estende majestosamente apontando ao infinito
enquanto te enterra ao solo sombrio
rumo ao cerne flamejante da terra

Mulher, que olha para o teu castigo
naquele berço de criação
com a graça dos afetos que te rompem
em chuvas de sal

Tu salgas a terra
das loucuras da insipiencia

As tuas emoções
tão flores
poemas da divindade
refletem nas pérolas dos teus dentes

Mulher que morde novamente
a fruta suculenta sob o olhar encantado da serpente
para que possas viver outra vez o enlaçe da meiose

segunda-feira, 4 de março de 2013

Cambuquira


Acabou o gás, um fogão improvisado no fundo do quintal cozinha o feijão carioquinha. A vizinha espia do muro de placas ralado, cheio de barro vermelho e sai rindo alto. O tijolo vermelho estala sob a panela de pressão untada de sabão por fora para proteger a panela de encarvoar-se permanentemente.
A mamona estala despejando sementes sobre a roupa de molho no sabão de soda dentro do tanque. A outra boca cheia de água colhida da chuva.
- O fia cata uma abobrinha lá no pasto.
Uma aboboreira nasceu a esmo a espera do sacrifício de seu fruto.
- O mãe acho que robaro, num tem nenhumazinha.
A mãe engole o nó da garganta. Deixa a bacia rachada de pregadores no canto do tanque, um vento brincalhão derruba tudo. O sol escalda.
- Fia cata os brotim, vamos ter cambuquira.
A mãe chacoalha a camiseta de uniforme, precisa estar seca em uma hora, ela torce e chacoalha repetitivamente. O cheiro de feijão tostado rescende, a mãe corre socorrer pendurando a camiseta no varal de arame farpado.
A tábua de carne já espera com meia cebola, dois dentes de alho, a mãe refoga no óleo de soja e joga o feijão borbulhante dentro. A vizinha linguaruda grita que o cheiro “tá de matar”.
A mãe pede para lavar os brotinhos e colocar na tijelinha com um cadinho de vinagre ralhando para economizar, uma colher basta!
O banho é de canequinha, a água aquecida no fogão improvisado do quintal.
Ela refoga o arroz quirera e a cambuquira ao mesmo tempo. A vizinha chega comentando que acha que de hoje não passa, há de chover. Que a vizinha da esquina “aquela sirigaita” ta saindo com o vizinho da frente, que “a fia ta bem ali para não deixar ela mentir sozinha”.
O pai chega de bicicleta Monarch verde, a verduca, chega roxo do sol. Tem cimento até nos cílios, reclama do atraso no almoço e xinga a luz cortada. A mãe corre no quintal e estica o uniforme para melhorar a aparencia.
A vizinha achega-se à mesa, “o vizinha mas eu vou ter que experimentar um cadim, o trem cheiroso”! - diz, aconchegando os dois filhos com cara de gulosos. A mãe diz que ela é muito bem vinda, corre no fundo do quintal, colhe um mamão verde que rala em segundos, refogando e já servindo aquela mesa de delícias. As crianças da vizinha gulosamente se refestelam e ela envergonhada reclama que não comem nada em casa, que deixam tudo no prato.
A comida da mãe satisfaz os desesperos, as chacotas, nos enche os estômagos e os olhos de esperança. A mãe está em perfeita sintonia com a terra. Saímos para a escola, o pai para o trabalho cheios do conforto de hoje. Que saudade da cambuquira da mãe.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Procura-se uma menina

Quem me encontra
uma menina
com sorriso de boninas
Uma menina faceira
tagarela
cuja vida é uma brincadeira
Estou a procura dela
não sei para onde foi
Está além de minha janela
que saudade que dói
em pensar na menina
que adora enfiar o nariz em coisas:
em livros, conversas, até no pratinho da tartaruga
- Desce do pé de acerola Jhenifer!
a mãe ralha lá dentro
mas ela já está em outro intento
- que será que eu invento? - pensa.
Puxa o museu de artes debaixo da cama
expõe suas obras na parede,
no colchão
no ventilador
até a tartaruga sai levando
uma arte fina em seu casco
Mas ela já decide que é ginasta
e sai fazendo malabarismos tais
que faz um nó nas pernas e derruba os cristais
- Ê menina levada, já levas uma palmada!
a mãe esquece que ela é gênio,
e só vê a bagunça na casa, coitada
Incompreendida...
Deprimida decide que é poeta
Senta-se à mesa imaginária
feita de caixa de sapatos
E escreve uma obra prima
à prima que mora na China
Que prima?
Eita menina!



Feliz Aniversário a minha querida sobrinha Jhenifer! Te amo linda... Tantas saudades.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ecrã

Seres mentecáptos
energúmenos
insanos
sois
Avaros
insensatos
frios amantes de si

Glória feita de fumaça
é a tua carapaça
teus caminhos
trapaças
raça
que passa
que pisa arrastas
sonhos que amassas
tu e teus cruéis comparsas

Peças da máquina maldade
tua cidade apavora
chora e implora
impiedade
iniquidade
evapora agora
Sábios esperam a hora
da sensatez iluminar tua idade

uma peça
 tua chave
Ao longe antepassados
aguardam o teu sacrifício
têm sede
 de sangue
esvaindo
em morte
e gulosos assistem a espera
de que tu voltes, para morrer
outra vez, outra vez, outra vez


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Seda



Qual flâmula
Farfalha a seda macia
Desliza contra a pele,
Arrepia

O corpo nu sob a seda
escarlata
Orna Leda,
Em lânguida borboleta

Sedosa tez
Seduzida pela maciez da seda
A espera do cisne
Contorce em sede
Leda

Ah Leda, vestes o berço
Das mariposas bebês
Inebriada foste atraída
Às luzes de tantas cores
Derramadas no manto da tua pele nua

A caldeira ferve borbulhante
Inocentes as pupas dormentes
Desconhecem
O destino fervente

Leda envolta em seda
Desmente em tom demente
A cruel saga da trama dos fios

Leda se deleita
Enquanto Zéfiro furioso
Adentra da janela
Em lufadas gélidas
Lambendo-lhe
Alando-lhe
Ardendo

O seio sedoso
 enrijece sob a seda
enquanto ela pinta o lábio
Carmim

Leda suspira
Aos sussuros de Zéfiro
Espera que a hora se apresse
E que o afago da seda
Lhe adormeça
A sensibilidade de mariposa
Para que devassa
Enlace
A hora do cisne





quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Beiro Ebrio


Ah ha ha ha!
Hoje vou me embriagar,
Vou entortar o caneco
vou encher a cara
Hoje vou dizer chega:
às convenções impostas
às modestias
às máscaras
às vendas dos olhos
Hoje vou abrir a janela proibida
vou espiar a vida que há além
vou me derramar em choro
oh, yes!
Choro!
Que se danem seus ombros distantes
sua insensibilidade
sua estúpida aparente racionalidade
vou chorar desde o coelhinho morto
à última mágoa boba
sim, a entonação da voz diz muito
Hoje eu derramo minhas mazelas
meu grito abafado na garganta
vai soar na abóbada celestial
como trombetas apocalipticas
Hoje eu quero explodir deste círculo vicioso
uma explosão de mágoas
para que eu possa externar
que não sou feita de choro
que essas lágrimas só estão aqui
por sua culpa
pela sua ausência
Que eu entendo, mas que mesmo assim dói
e se sua mão me alcançar a tempo
gritemos e nos embriaguemos juntos
e vamos fazer chover as flores que escondemos
na cortina da convencionalidade
Razão, vá para o inferno hoje!
Eu quero tocar a minha própria alma
encolhida, carcomida, esquecida
e reaprender-lhe o encanto
Vamos beber do céu azul tão lindo lá fora,
embriaguemo-nos com o vôo dos pássaros
pasmemos estupefatos com o trilhar da formiguinha incrível
escandalizemo-nos com a sabedoria das abelhas
vamos inspirar do que ensinam as estrelas
Não, não visitemos o planetário!
Vamos subir nas montanhas dos nossos sonhos
e estudar o mapa do universo por si
Vamos chorar de emoção com as estrelas cadentes
Vamos inventar um mito novo:
dar três pulinhos, amarremos uma fitinha no braço,
o que seja necessário para que este sonho dure
nem que seja o instante desta poesia.
Então trôpegos,
seguremos as mãos das crianças abandonadas
famintas,
das mães pobres desprezadas,
e rindo sem parar lhes demos a esperança
de que o mundo está lindo ainda,
e que as borboletas hão de apontar
o caminho para nossa metamorfose.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Mistere



Estava escuro
Uma noite negra cujo manto
Se estendia na abóbada do infinito

Um escuro sem forma
Suspendido
Soturno

Uma estrela
súbito postulou
uma existencia

Um marco
O início e o fim

Foco

Nubentes escuro e estrela
se misturaram no doce mel
do contraste branco e preto
e o segredo procriou em luz
multiplicando os pontos no céu

Formas geométricas
espelhos paralelos na amplitude
girando o caleidoscópio
maniqueisticamente

A luz negando o escuro
O escuro fugindo da luz
tão distante e tão juntos
existindo um em função do outro

No sonho estrelas mil
adornam um céu convexo
e explodem como fogos de artificio
lançando-se verticalmente
ao abismo

O céu se nubla, apenas algumas restam
O ente suspenso no mistério pondera
Por que cairam as estrelas?

domingo, 27 de janeiro de 2013

Pranto de Santa Maria



 Santa Maria chora.
Oh lágrimas dolorosas
E agora?
O mundo ao avistar a Santa
Também veste a negra manta
Os morros calados ao longe
Abraçam-na em espanto
Ante o emudecer dos lábios o canto

Santa Maria chora sem consolo
A nuvem ácida que murchou-lhe as flores
o calor febril que teceu-lhe em dores

Santa Maria chora os filhos,
Chora os pais, chora as moças
Os quartos vazios
A lacuna
Soluçam em coro as tantas mães Marias

Um estileto negro jaz no chão chamuscado
testemunha da pressa da Cinderela às avessas
Picaretas, machados, romperam a parede
aos que tentavam aplacar das chamas a sede
Um buraco, em desespero rasgado, atravessa
Para o lado dos que já se tornaram alados

Santa Maria chora
Os filhos alegres agora heróis
a triste memória dos que ficam
(Soluça)

Santa Maria ontem se alegrava
com os que se alegram
Hoje, Santa Maria chora
com os que choram

Santa Maria chora
(...)



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Água sagrada


Janeiro chora lá fora. Escorre das janelas embaçadas as gotas fartas da seiva de vida. Uma chuvinha cálida, sem trovões, uma noite silenciosa, sem preocupações pela manhã. Roncam veículos ocasionalmente, e o friozinho convida ao enlace das cobertas. 
Lembranças de uma janela de metal, de um metal barulhento que gritava de alegria ante os pingos da chuva. A janela da casa na Cohab. A irmãzinha deitando-se correndo, pois chuva lhe era sinônimo de soneca. A sopa da mãe cheirando gostoso, legumes fresquinhos ebuliam em infusão. Líamos o gibi gasto novamente. A irmã mais velha reclamando da luz. 
Era dia de abrir a mala antiga que ficava debaixo da cama. Nela a enciclopédia com todos seus mistérios, e a coleção de Língua Portuguesa do Jânio Quadros. Livros tão queridos, folheava saltando páginas aos excertos de poesias. Livros manchados de barro. Barro da enchente. 
A mãe trazia a sopa em tigelinhas, colheres avulsas. O fogão, geladeira e armário azuis da cozinha refletiam a lúgubre luz no telhado de telhas de cerâmica, sem forro. Observávamos as aranhas pernudas tecerem, as lagartixas se fartarem. 
 - Mãe, conta a estória da enchente!
E a mãe contava, da chuva, que era Réveillon, que esperava nosso irmãozinho que já se fora tão cedo, que a água atingira os umbrais da porta. A mãe contava detalhes, minúcias, da chuva que caía em São Paulo por dias a fio. Nunca minha mãe maldisse a chuva. Nos mostrava a alegria dos pássaros quando ela vem. Assistíamos da janela o descortinar-se da líquida transformação. O abacateiro no fundo do quintal balouçando suas folhas brilhantes e derrubando frutos de alegria. A mangueira encharcada, a lama escorrendo no quintal. A terra se fartando e dando graças ao milagre do céu. 
Mas me ensinaram que minha mãe não sabia de nada, que precisávamos nos encher como baldes das idéias prontas em livros tantos. Hoje quando ligo a televisão, e perco tempo precioso ao invés de estar observando a chuva, me revolto ao ouvir pessoas finas, do mais alto nível de educação dizerem que o estado lá fora é miserável porque a chuva cai. Gostaria que eles houvessem conhecido a sabedoria de minha mãe, nunca diriam tamanha blasfêmia.
A chuva continua caindo mansa lá fora, minha mãe tão longe. Obrigada mãe por me admoestar a inspirar dessa chuvinha que cai como presente de aniversário. Meu coração estará sempre pleno do morno calor das tuas sopas de amor, agora com licença que a casa ressonando me convida a visitar os sonhos. 



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

É tempo


Tempo de varrer a poeira
de retirar do armário o vestido suntuoso
Tempo de saltar sobre as cinzas do fogo apagado
Tempo de deitar fora as tristezas antigas que já não servem mais
É tempo
de se olhar em paz para a imagem do espelho
de não vislumbrar as rugas, os cabelos brancos
e sim a vida que este tempo representou
É tempo de contar as bençãos,
de arar os novos campos
de semear a boa semente
e esquecer que o inverno veio
ante a morna luz da manhã que acalenta os teus sonhos
É tempo de sonhar tão alto
que se vislumbrem apenas as nuvens lá de cima
que o teu sonho esteja guardado entre as macias auroras
sobre caminhos de algodão
É tempo de soltar a voz
em canto
de despir-se das mazelas, das concupisciencias
de andar tão leve que voando
É tempo de parar ante a beleza da florzinha da grama
de observar as formigas,
tempo de não contar estrelas,
todas parte de um mesmo céu
tão ao alcance das tuas mãos
É tempo de rir com a simplicidade das crianças
com a imaturidade de um coração que ama
tempo de cadenciar teus passos
ao compasso do piano
tempo de rodopiar em volupias de alegria
Tempo de abraçar tuas Marias
de deitar no colo da tua mãe
e sentir a proteção do teu pai
é tempo de lembrar das minas puras
esquecer das garrafas confinando vida
tempo de desprender o gênio
de agradecer aos sábios o silencio
tempo de renascer do pó
brotar das cinzas e florescer ao novo
agradecendo ao que te ensinou o que se finda

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Milagre de Natal





  É véspera de natal, a moradora dos bancos de concreto repousa sobre os ombros pruridos do duro concreto. Lágrimas secas, já derramou todas por si e pelo mundo. Ecos longínquos, brilhos enevoam-se enquanto braços abraçam distantes a fortuna de uma história.
   A mulher da praça estremece no desvario febril. Tem saudade da história interrompida há tanto tempo atrás, confunde se o que relembra são fábulas ou a si. A sua volta a concha acústica parece enfeitada. Latas brilhantes, pedaços coloridos de maça do amor, fitas, papéis ilustrados em cores vivas, recortes da felicidade testemunhada.
   A neve postiça meio arrancada balouça ao vento, dançam os copos de plástico coloridos negligenciados após o uso. "Eram tão brilhantes" - ela pensa entremeio um leve despertar.
   Quando cerram-se-lhe os olhos, vê desprender-se a neve que como confete branco cai sobre a cidade, voando na brisa suave. Abaixo de si já não sente o cimento, mas a suavidade macia da alva neve. Uma neve morna e envolvente lhe abraça por um instante, apenas para despertar novamente no minuto seguinte pelos risos de adolescentes a lhe fitar entre gargalhadas. Ela sorri apreciativa pela visita, feliz, soam-lhes os risos como espinhos crepitando no fogo.
   Uma a uma as lojas cerraram suas portas. Apagaram-se as luzes, extinguiram-se os passos, já não se ouve a voz do canto e eis que os sinos da matriz anunciam as doze badaladas.
   Com os olhos cerrados, vestida da alva neve ela flutua galgando dos doze degraus da escuridão, um a um. Alongam-se-lhe os cabelos, resplendecem-lhe as vestes e um sereno aroma de rosas lhe invade as narinas. Ela sente a face enrijecer, ruborizar. Já do terceiro degrau avista a estrela longínqua entoando vozes celestiais, aproximando-se desta que estende as mãos pela derradeira vez.
   A praça permanece escura. Alheia com seus plásticos todos ao milagre de natal. Foi preciso o escuro para que ela recebesse sua tão desejada estrela.
   Encontraram-na na manha seguinte. Coberta de misteriosa substancia alva, cintilante; esboçava um sorriso e os olhos vítreos brilhavam como que fitando a estrela da manha.



National Hospital, 25 de dezembro de 2012...
Saudades imensas.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Pedido de Natal



            As ruas da cidade estão feéricas, iluminadas e sorridentes. De férias, muitos vêem à cidade das brisas suaves em busca de movimento, cor e vida. É dezembro, e dezembro é o mês de se esperar por um ano melhor, é o mês em que o brilho nos olhos esperançosos das crianças contagiam a todos. Nos brinquedos embrulhados em papéis coloridos há a esperança, a promessa de que sorrir é certo, e que a felicidade de agora pode durar para sempre.
            Macia, desliza a neve postiça no palco da Concha Acústica, a névoa artificial colorida pelos holofotes reluzentes emoldura as vozes da cidade. É noite de dezembro, as estrelas longínquas estão além dos deuses, porque é Natal e as luzes dos intermináveis pisca-piscas iluminam o céu da cidade.
            Na arquibancada da Concha Acústica, bem próxima à calçada de paralelepípedos bicolores, longe da conglomeração humana dos transeuntes tardios, há uma mulher sozinha.
 A mulher é pequenina e fraca, tem os cabelos oxigenados e uma ampla faixa oculta-lhe um ferimento qualquer. Pode-se de longe vê-la estremecer, desolada, debruçada sobre os próprios joelhos ela olha para os pés descalços e não consegue conter um pedido ao Papai Noel.
 O pedido da mulher não é feito de palavras escritas, faladas ou pensadas, mas sua mensagem ecoa sobre os ouvidos, mais alto que o som dos poderosos falantes que amplificam as vozes dos que cantam. Encolhida ela não pode cantar, e o seu pedido estrondoso é uma lágrima silenciosa que cai.
Se não houvesse tantas luzes na cidade, haveria estrelas para ela, pois todas as que estão visíveis são compradas, vê-se, contudo que ela não pode comprar uma estrela.
O pedido da mulher da praça é só uma estrela natalina. Será que ela vai ter Natal?