domingo, 11 de novembro de 2012

O segredo do Anel



Sete anos.
Uma vida inteira em fragmentos pelo universo afora. Enigmas escritos em estrelas que versam em música, as metáforas não pronunciáveis em palavras. A música de um choro, o gemido da criança expelida entre lágrimas de amor.
Tudo faz sentido, ela segura o anel e suspira, enfim, a verdade.
As cores dançam nas ruas, nas vitrines, as árvores dizem tanto no balouçar de suas folhas, e quando o outono lhes despem nas frias noites, dizem tristes histórias uivando ao vento com seus galhinhos esturricados o sentido da primavera, pelo contraste da intensidade de um inverno. Todas as coisas dizem seus mistérios.
Tanta dor.
A pedra cintila azul. Topázio azul, um azul de profundidade infinita, de lágrimas, de tristezas passadas e por vir. Uma coisa. O anel é apenas uma coisa, o veículo da mensagem que veio desse entender de hoje, dessa sensação de adivinhar o que há por vir estampados na dura permanência em forma de uma pedra. Pedra que já esteve enclausurada no subsolo, em repouso, em silencio profundo, parte da sustentação deste solo que sustém o peso das gerações que passam. Os grãos da tua poeira falam.
Um dia tesouro do garimpeiro, noutro do comerciante, na mão da graduanda feliz, da esposa, da mãe.
A pedra nasceu bruta, foi gerada pelo tempo, pelas condições propícias do solo, suja, foi manejada pelos homens mais rústicos de mãos calejadas. A pedra sofreu perdas imensas, partes de si amputadas para sempre para lhe darem o formato retangular. Enfrentou as lixas cruéis, o calor das fricções em polimento.
O designer um dia se assentou, de lupa na mão examinava-a entre a pinça pungente. O designer avaliou-a do ápice à base, esquadrinhou sua beleza e inspirou-se nos arabescos para acentuar-lhe a glória azul; decidiu que a pedra descansaria em uma liteira de ouro.
E foi assim, manhã de 31 de outubro de 2003, dia de halloween que ela passou pela vitrine da loja e entendeu que a pedra lhe dizia um enigma e embora não pudesse entender naquele dia, não pode resistir-lhe como que hipnotizada. Uma vez tocada, se tornou escrava do anel, embora não pudesse levá-lo pois nunca poderia comprar joia tão cara.
No ano seguinte ela partiu para bem longe, iria estudar por um ano. Era uma estação de milagres tantos. Conheceu o amor de sua vida, um amor barroco. Casou-se. Havia deixado aqueles três anos sonhados da faculdade para trás. Sofria. O que fizera? E agora? Nada faz sentido na confusão da mudança. Traçara caminhos na areia, e o vento do tempo os apagara.
Em 2007 retornou, não podia viver o transtorno de abandonar um sonho tão imenso que havia sido aquela faculdade. Deixou o esposo, o cão faleceu, o dono da loja pediu para o esposo entregar as chaves em 120 dias, depois de 16 anos no mesmo local. Caos. Lágrimas de saudade. Noites em claro mergulhada nos livros, sorvendo o café do pai. Viera dizer adeus. Andando nas ruas tão estranhas quanto familiares, avistou o anel de longe. Já nem lembrava dele. Ele ainda esperava por ela.
Decidiu que seria seu anel de formatura. Faltavam os símbolos, o ourives cravejou à direita uma flor-de-lis e à esquerda a coruja. Comprou a prestação, agora podia pagar as prestações. A pedra tinha um risco, razão porque permanecera esperando, uma marca sulcada na superfície. O ourives ofereceu desconto ou lapidar novamente. Optou por lapidar. A pedra guarda essas marcas dos últimos toques.
O anel fica em uma gaveta, na maior parte do tempo, sempre grita de lá quando a gaveta é aberta. A estória toda lhe passando por um instante pela mente. Oras ela sorri, outras chora. Uma pedra cor da água da saudade.
Dentre as peças tantas do quebra-cabeça enigmático, outro dia ensimesmando começou a ler coisas antigas. Relembrou aquele texto, o dia do halloween, os cheiros todos, os risos da amigas que não lhe sorriem mais. Ao final daquele relato, a data: madrugada de 01 de novembro de 2003.
Exatamente sete anos depois, às 2:57h puxara os bracinhos da filha que nascia para o mundo para si. Abraçara o prólogo de uma nova história. O anel tentara lhe dizer, ela sabia em sentimentos e só agora fora concedido o conhecimento daquele mistério. A pedra do anel, a pedra do mês da criança, a porta de um segredo ainda por vir.



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Halloween



            Manhã de outubro, o ar está fresco e o cheiro da chuva recende no quarto. Rompe um sol silenciosamente gritante que tornam mornas as brisas da recém-manhã.
            Antes que o relógio desperte, ela acorda com o gorjeio  dos pássaros e um feixe de luz teimoso que lhe brinca nos olhos tristes. O quarto está quente; por todos os lados vêem-se objetos que foram negligenciados pela correria frenética da semana que está se findando.
            Dizem que hoje é dia das bruxas – recorda-se ela pondo-se de pé de um só salto. A manhã amanhece querendo correr, o dia vai passar muito rápido. Todos os dias são assim: a natureza lá fora explode num espetáculo grandioso que ela não tem tempo para assistir.
            - Pai, acorde! Faz um cafezinho para mim?
            Ele é pedreiro, mas está desempregado há três anos, desde que ficou doente e perdeu o emprego, justamente quando ela conseguiu realizar um sonho gigantesco e quase impossível: entrou para a faculdade. 
            A casinha é muito pequena, quatro cômodos apenas e a mãe ainda dorme.
            Ela escova os dentes fitando-se no espelho manchado do banheiro fazendo caretas de bruxa, afinal hoje vai ser o primeiro dia em que ela vai a uma festa de Halloween.
            O cheiro do café exala pela casa toda, o café do pai é o melhor do mundo, principalmente quando ele o serve a ela numa xícara de louça.
            O pai reclama que o álcool vai acabar, nem vai dar para levá-la ao emprego. De repente o café se torna amargo demais.
            O carro é muito velho, tudo o que têm. A casa é emprestada e o carro uns amigos deram para os pais dela. Os pais têm um coração tão cheio de amor que não vêem as próprias condições e saem, religiosamente, a visitar enfermos, necessitados e a levar palavras de paz, de companheirismo e de amor.
            Têm muitos amigos, a casa humilde é sempre visitada e as pessoas gostam de estar com eles.
         Finalmente o carro pega, mas é preciso empurrá-lo, não está engatando a marcha-ré. Partem então, ela vai ansiosa na esperança de que as coisas sejam melhores na loja hoje, ama seu trabalho e tem vontade de melhorar sempre, de atender da melhor forma possível, de agradar para fazer prosperar o sonho do patrão dela. Sabe que muito depende dela, não mede esforços pois sabe que seu trabalho é seu espelho.
            Hora do almoço. Hoje, como usualmente acontece não vai dar para almoçar em casa. Come um salgado e sai para organizar os preparativos da festa de Halloween do curso de Letras.
            Compra um rato enorme de olhos vermelhos, magnífico, parece real. Vai usá-lo no painel da decoração. Compra uma aranha para usar no pescoço, vai se vestir de viúva-negra. Vão-se tecendo os minutos.
            Súbito, em uma vitrine brilhante avista um opalescente anel, o momento como que congelado paira por um instante de transcendencia pura, o anel lhe diz tantos enigmas em forma de brilho que não se contém: adentra a loja e demonstra seu deslumbramento.
            Solícita a vendedora abre a vitrine e lhe oferece a jóia para que experimente, finge não lhe ver as vestes simples, a impossibilidade de tal venda.
            O anel é de ouro, esculpido em arabescos delicados com um grande topázio azul, lapidado em forma de um quadrado que descansa sobre a elevação de uma base no formato de liteira.
            Com a respiração suspensa ela desliza o olhar sobre a jóia que cintila no seu dedo em epifania, tão real quanto o céu que dizem não ser azul mas que é, basta olha-lo.
            Devolve com pesar a jóia para a vendedora, e continua seu caminho para o dia das bruxas que a espera.
            Leva consigo um brilho mais intenso que o da jóia, refletido no olhar. Segue pensando que se pudesse comprar aquela jóia não teria os problemas todos que tem.
            Cai a noite, a chuva, e então as bruxas, as odaliscas, monstros de todos os tipos tomam as ruas da cidade. A festa é um sucesso, e ela ficou linda toda de negro com uma aranha a lhe subir pela garganta.
            Contagiada pela alegria dos monstros ela sorri e brinca, o brilho do anel não vai apagar a esperança de seu olhar. Sabe que a vida a está lapidando para que brilhe algum dia.




Continua amanhã... não percam  a parte II: O  segredo do anel 
3º Letras – UNIFEV
01 de novembro de 2003
2:50

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Revoar de folhas



Sagradas raizes prendem-se ao instante da semeadura
opulentas, as árvores contam as histórias dos serenos
das estiagens, das voltas de tantos corações
Guardam em si a memória dos passarinhos
Do repouso das borboletas
Do menino que viverá para sempre envolto às lembranças de uma infancia
A avó varre as folhas com a vassoura de piassava, uma vassoura feita de folhas mortas
folhas que um dia transcenderam a verde fotossíntese
das cores tantas de um arco-iris oculto em luz branca
Luz de um sol tão distante
As folhas da mandioqueira picadinhas em sopas para as bonecas de plástico
As das mamoneiras a crescerem desvairadas, nos barrancos, à esmo
folhas de coqueiros vestidas como cocar
Folhas aladas em sonhos infantis
Crepitam no fogo as chamuscadas, carbonizadas
folhas desprezadas esmaecendo-se em cinzas
folhas na mesa do jantar
sabores em folhas exóticas
Folhas tenras, ora secas, murchas...
Folhas envenenadas cobrindo o sexo ante o primeiro saber da ciência
O menino levanta-a contra a luz lá fora
Tenta ler o destino escrito em veias verdes
Bebe com elas água nas fontes dos esmos
enquanto um pajé espreme sumos curandouros em uma cuia cheia de esperança
Folhas que voam ao vento
Rodopiando bailarinas ao pulso do momento
descrevendo arabescos, linhas, hieróglifos
estalando silenciosas dos galhos da que choram-lhes a perda
Repousam folhas sobre o solo macio
Sepultadas, esperam a metamorfose alheia de um tempo
que lhes fará alimento, seiva à nova folha por vir

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Código



Helen Kellers da vida
tentando decifrar o código
de dentro do ovo
lá fora uma multidão que não enxerga
que não fala
que não ouve os pios vãos
uma vóz que grita do deserto
não me faço entender?
Ou ignoras o que digo?
Ouça!
Se me ignoras me aniquilas
e já não existo
não me tranque no armário escuro,
sim, imploro
o veículo para nos vermos
está em suas mãos
é o que já dizia uma mãe
é preciso ser gentil, ouvir
o que é feito da gentileza?
Ouça!
não pise com pés sujos
o terreno sagrado das idéias alheias
Helen Keller ainda no escuro
espera a senha para ser

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Epifania em Azul Tiffany



O céu por vezes parece um terreiro varrido,
azul tiffany
epífane
nuvens brancas leves soltas
algodão doce dissolvendo no azul
da boca do céu
Como um véu
cobrindo o mistério turquesa
de branca incerteza
Firmamento de vento
que encerra dos olhos
um infinito oculto em luz e ar

Quando a aurora enegrece os outeiros longínquos
emudecendo dos pássaros os faceiros canticos
desfaz-se o azul celeste
pintando o céu em degradês de azuis royal, marinho
até que os cabelos da noite cubra de negro o oeste
A mágica quietude da ausência da luz clarinha
deixa entrever além da esfera, que é necessário
o escuro, para avistar a luz de outros mistérios

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Estilhaços


Um laço
gira o compasso
como um carrasco
devasso
O que faço?
Corto ou amasso?
Me arrasto
feito aço
fingindo ver pasto
nos algures deste paço
de boninas escasso
Passos
pedaços inefastos
bagaços
sulcos, rastos
Ouro gasto
me afasto
do teu abraço
Picasso

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A rendilheira

Mãos destras atam o pique ao rebolo
agilmente alimentando os bilros
com linhas de nuvens de algodão
A rendilheira espeta o pique
com agulhas de laranjeiras

Cuidadosa ata o primeiro nó
cantando, repetindo versos
que tratam do mesmo enigma
do código de nós

Esquece a barriga vazia,
a pobreza triste do pé no chão
canta a beleza azul de seu rebolo
e desenha com com o branco
a figura de sonhos feita de algodão

Subserviente obedece às ordens das agulhas
retirando-as cada uma a seu tempo,
libertando o rebolo da ponta punjente

A rendilheira distraída
ignora a face sulcada de linhas de ontem
ou as próprias mãos calejadas,
absorta em transformar a linha contínua
na história que conta em renda

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Acorda Borboleta


A borboleta acorda vagarosamente de seu longo sono, confinada no escuro casulo. Tenta mover-se com seu cérebro de lagarta, não sabe ainda que as amarras que a atam são suas recentes asas que como camisa de força lhe confinam dentro da seda. A borboleta se rebela, se estica, rompendo gradativamente o berço de sua transformação. Emerge da crisálida molhada, com as asas murchas, as anteninhas tortas. Fita confusa, ainda acostumando-se à luz os pezinhos que antes eram apenas curtos cotos, agora longas pernas como de gazelas. Boceja faceira esticando a probóscida comprida e se assusta com o novo dispositivo; em deleite sente o cheiro que vem do néctar. Precisou comer muita folha verde, amarga, para sentir o cheiro deste mel. A borboleta transcendeu a fotossíntese, partindo as cores ocultas da luz no arco-íris das escamas de suas asas. Treme-las, sacude-lhes os tubos que se enchem de fluido vital, estica as rugas e se abre esplendorosa. A borboleta nunca saberá a glória de sua beleza, mas ao primeiro impulso aprende as delícias de voar. Deslumbra-se com as flores, sorve-lhes o doce mel, alheia que possa ser tão fascinante como tais. Borboletas não se olham no espelho.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Gorjeio


O pássaro teimoso canta da gaiola feia
Asas cortadas para não voar
Alpiste
grades ante o olhar,
as minhocas risonhas assistem do chão
gatos gulosos esperam a hora da ceia
e ele tem saudades de enlevar-se ao ar...

O pássaro cerra os olhinhos
canta o ninho,
a árvore, o voo
o ar, o horizonte
inflando o peito
transcende sua alma de passarinho

O pedreiro para,
a diarista para
para o vento
Até o bebê cessa seu chôro
Ante a mãe que também para a ouvir o côro

A melodia viaja nas asas do ar
e por um instante até os desemplumados
voam com tais notas a soar

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Apuro


Uma noite agoureira
A lua espreitando das negras nuvens passageiras
A coruja pia um pio soturno
Lobos uivam além em resposta aos uivos dos fios
Rangem dobradiças enferrujadas
das tábuas de portas abandonadas, fechaduras quebradas
Covas abertas no chão guloso
gritos abafados
olhos maquiavélicos espiam do milharal em flor
cobras sibilam das sombras rasteiras
é preciso fazer muito silencio,
para não acordar as criaturas
Morcegos em rasantes passam rentes ao pescoço,
ávidos pelo tesouro draculano
Em agonia o ente se retorce
ante as forcas penduradas nos galhos
num sobressalto o pé quebra um graveto
estrondando com um créck na noite que subitamente silencia
O vento sopra a lamparina que se apaga
shhhhhh
da fria noite uma jorrada quente desce pernas abaixo
Lá ao longe espia o WC maldito com sua boca sarcástica aberta
“Ah ha ha ha ha!
Mais um”, parece dizer.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Metamorfose Reversa



Uma borboletinha vivaldina
passou pela janela de Alina

Asinha pintadinha amarela
pequenos círculos azuis

Pousou na flor rasteira, abrindo,
fechando as asas, esticou a língua
e devorou o nectar das flores cálidas

Uma a uma as beijava, pulando para o ar
e pousando em outra pétala de mel

Alina puxou a cortina de voal
abriu o vidro e pulou para o quintal

Disse “olá borboletinha”, e suave
tocou na pontinha de sua asinha

A borboletinha riu de cócegas
e mostrou a língua para Alina,
“ah menina”- desde lagarta cócegas lhe fazia

A mãe espiou da janela de cima
“Que faz menina?”

Alheia Alina confabulava
seus sonhos de bailarina
à borboletinha amarela
de fina pálida purpurina
que pousara em seu dedinho

“Suba já Alina, o sol se põe além”
Alina não ouvia senão “ém”
Que soava como eco do sino de Belém

A primeira estrela despontava
a borboletinha com três piruetas
beijou-lhe boa noite e foi dormir
sob a seda de seu casulo

Sobre uma folha tenra
Alina viu ovinhos,  
lagartinhas a nascerem
devorando com pressa
a folha do próprio berço

“Viva! Novas borboletas”
Alina exclamou feliz…

Crepúsculo já se fazia
Alina voltou a sua janela
e saltou para dentro da casa

Uma casa casulo, foi jantar
e mais tarde enrolada em cobertas
dormia como uma lagarta
em metamorfose reversa






Para Alina, uma menina-borboleta

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Despir-se


Corcunda do peso das fábricas tantas
De botas, do siso, de cintos de risos
Ela adentra o cômodo em suas mantas
Empurra o carrinho cheio de juizos

No rosto os vincos da blasfêmia
cabelos emaranhados de infâmia
Calça sapatos que sangram os pés
bolhas da fricção da conveniencia

Caminha até um espelho adiante
e não se vê, se espanta, se rebela
rasga de si os botões censurantes
é tempo de lançar fora a mazela

O vestido roto, fétido de pragmática
rasgado em nesgas negras sensatas
Mãos trêmulas, os olhos estáticos
se lavam, lágrimas despem castas,

a máscara, as rugas, as linhas ásperas
o peito arfa e um alvo seio se mostra
outro segue, um umbigo em esfera
centro do círculo, do princípio desta

Ombros rejeitam o pêso dos desejos
mostram-se alvos, eretos, em meneio
costas que se alinham, ensejam
à medida que despe seus receios

O lábio agora esboça um ar de riso
a peça desliza, descobre o âmago
dos desejos puros sem modismos
o triângulo amparador, aconchego

As nádegas alvas, à mostra, sustentadas
por firmes colunas, suas fortes pernas
pilastras paralelas, de verdade alicerçadas
sobre os pés nus, em igualdade superna

Ela se reconhece assim no espelho
vislumbra em si o sábio centelho
Uma lufada lhe sopra esperança
desmancha as emaranhadas tranças

E ela caminha para a luz
Sem nada,
À luz da chama,
que lhe chama,
Sinceridade

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Fome


Buracos no espaço clamam por comida
doentes a morrer por vida
uns fome de cura
Vermes fome de ferida
Ardem os corpos, por fome
de comida
de lascívia
de guarida
Pratos vazios na mesa da vida
uma mãe que diz:
dorme filho, que passa
E a fome rói,
dói,
humilha
Turvam as capacidades cognitivas
enquanto a multidão sai batendo panelas
gritando pelas ruas a ajuntar seus tesouros
Há muita pressa, pouco tempo resta
Comida! Fome de cédula.
E a ferrugem clama, veste-se das cores da flama
e se extingue em cinza
o mofo seca
a bactéria definha
As mulheres deixam suas casas, seus filhos
os peitos alimentam a máquina
Que se engorda de vento, e nunca se farta
As criancinhas choram de fome
de aprender como nasce o tomatinho
como cresce o coelhinho
que o papel bonito ilustra, cientificamente
geração de palavras
que não alimentam
pequenos oráculos de visão limitada
de conhecimento mil, sobre a profundidade
nada
Na vitrine o vestido fascina,
o carro brilha, intimida
o diamante cintila
o vendedor se retorce de fome
ante o olhar cobiçador do transeunte
As corporações ajuntam tesouros em cofres
Guardam com fome o elixir de sua vida
E a florzinha murcha lá fora,
sozinha,
com fome, sede
e a criança da escolinha,
com fome de mãe olha a pobrezinha
vê que tem fome,
e em desespero ajunta seus brinquedos de plástico
às raízes famintas da erva que definha

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Noiva II


A noiva acorda, pensa que voou,
Não vê o vestido em farrapos,
nem os arranhões, acorda promíscua
e se prepara para o encontro alheia
aos hematomas

Embriaga seu corpo na taça da luxúria
Vestida de negro, lábios vermelhos
pensamentos soltos, se concentra
na luz da chama do fogo que vem dos carvões
que aquece ainda mais o corpo cintilante
da seiva dos amores

Devassa
Agarrada pelo rabo-de-cavalo
tenta dominar enquanto é dominada
por seu vassalo

Dancam o dueto como num ballet
os corpos febris na noite de núpcias
dentes, mãos que fingem suaves,
marcas
Um palco de cetim vermelho brilha
aos olhos gulosos dos expectadores
que esperam ansiosos

Encontro,
Em um lapso, deixam de ser dois
metamorfoseados,
encontram a dualidade do ser

O mundo gira tão rápido
num universo suspenso no espaço
em frenesi buscam encontrar o toque
da ciência
Que ela toca primeiro e morde, cega
Ele vem em seguida, sorvendo a delícia
Sabem tudo no instante espasmódico
e a partir de então,
Grand finale: olhos abertos
fitam na platéia, bem e mal
enquanto os corpos ainda
estremessem da explosão

Se entreolham e mal podem conter
um riso de cumplicidade
Cegos, vislumbram o que pensam sabedoria
e o universo ceifa para sua ordem
Mais duas peças de seu grande enigma

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Decifrador de sonhos


Procura-se um decifrador de sonhos
que possa escandir metáforas
e transformar em perspectivas
as imagens de um caleidoscópio

Um decifrador que saiba olhar
com olhos que não são seus
mas que veja o além símbolo
a aparente ingenuidade do ícone

São requisitos:
Aptidões como saber colher rimas
ler as partituras das estrelas
ter visão que alcance o que há
Além da superfície refletora do oceano

É preciso ser graduado na matemática dos espelhos
Entender a complexidade do olho
da imagem
do que é
e em que transcende
a divergência das essências

Os interessados deverão enviar seu próprio sonho
grafados em folhas ao vento
a serem julgados
pelo mensageiro tempo

O candidato selecionado
há de ser contactado
via poema oficial
a ser publicado a posteriori neste edital
A contratação dar-se-á imediata e epifânicamente

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Noiva


A noiva se deita num leito de águas claras
unguentos, perfumes e especiarias
vapores turvam o brilho dos abajures
e intensificam o prisma dos cristais finos
pontiagudos,
A noiva cerra seus olhos e sonha acordada
uma perna nua banhada de espuma
os seios tenros semi-imersos
Vislumbra com ansiedade o vestido
branco, longo, as pedrarias
que cintilam, corpo que antecipa delicias
A noiva se lava devagar,
besuntando de esperança
a esponja da sua mocidade
desliza a mãozinha delicada
desde a ponta das unhas,
sobe o braço esguio e lava a nuca,
os ombros, uma cascata de espuma
descendo de seu colo,
Covinhas a mostra,
Estrelas nos olhos
A noiva perfuma a água de sua essência
deixa nela seus últimos ardores de moça
a água se move em círculos, descreve
arabescos quando ela se levanta etérea
desenhando na superfície imagens enigmáticas
ao som da torneira reluzente que
vagarozamente pinga
A toalha felpuda, branca, lhe afaga
os quadris macios
Enxuga as lágrimas da água que chora
a perda de sua virgem
bruxuleante a chama da meia luz
reluz nas concavidades,
desenhando o corpo esguio
de sombras que lhe afagam as curvas suaves
Ela se fita no espelho, vê a noiva
como se visse outrem
aplica perfume nas pontinhas das orelhas,
no pulso,
prende as madeixas com fino pente,
donde pequeno diamante quebra
em cores a luz serena
aplica um blush rosado e brilho
cintilante aos lábios encarnados
desliza a meia fina, vagarosa
destramente subindo a pousar
a fina renda branca ao dourado
das suas coxas
Veste uma calcinha branca de renda
que tímida mal lhe cobre
os poucos fios castanhos
Os seios pousam em redes de rendas
enrijecidos ao toque da fina fazenda
maream seus olhos ao vislumbrar-se agora
trazendo nos braços o vestido alvo
inclina-se como em reverencia
com a pontinha dos pés entrando
na composição de organzas,
rendas, cristais e pérolas
O ziper desliza, enquanto lhe envolve
o vestido delineando-lhe sílfide
ata os laços, amarra suas fitas
enfeita a orelha e o colo
com pérolas de água fresca
não pode conter uma lágrima quando
sorrindo ergue seus braços
e se coroa com a grinalda
o véu lhe afagando
arrepiando ao toque os ombros nus
Está pronta!
Com pulso firme empurra certa
a porta e despenca no abismo
Certa de que voa

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Menino Anton

Nasceu! 04/08/12 as 8:27 com 1.955g.

Aguardas meses a fio
ouvindo o pulsar da tua mãe
no universo escuro do útero macio
imerso da água da vida
flutuas,
esperas,
Quando já não podes mais te rebela
e decide que o tempo é tempo
e que hoje será seu tempo
hás de vislumbrar a estrela guia
que te trará de lá
Uma estrela que te trará luz
que há de descobrir o véu
que escondeu os mistérios
que ouvias já abafados pelo
som do coração da tua mãe.
Um menino,
um menino que fará mãe
a que te espera, ansiosamente
um menino travesso
De que cor são seus olhos?
Qual o formato dos teus pés?
Que estradas hás de pisar?
O menino escreve sua história
e não conta nadinha
aos curiosos pelo teu amanhã
adicionas enigma certo
ao incrível livro da vida
Bem vindo Anton Sebastian!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Mundo oceânico da banheira do bebê



   


 Era uma vez um Jacaré cujo nome era Quelé, era um jacaré roxo, cheio de dentes afiados assustadores mas carinha de lelé. Era um jacaré muito educado, que só mordia depois de questionar sua presa:
      - Poderia por gentileza comer a vossa senhoria?

     Coitadinho, tão magrinho, cansou tanto de perguntar que se tornou vegetariano. O melhor amigo do senhor Jacaré Quelé era um Caramujo marujo cujo nome era Carujo. Experimentado no mar, vivera aventuras mil no fundo do oceano Banheirânico. Sempre que se via o roxo Jacaré Quelé lá vinha de longe a sombra laranja claro do Caramujo Carujo se arrastando atras do amigo, uma dupla dinâmica vejam só. Quando Carujo se cansava subia nas costas do amigo e em troca lhe cobria de grudenta gosma, que Quelé apreciava muitíssimo, pois tinha a pele seca.
     Reclamavam muito de um Siri estabanado, que andava de lado, de família portunídea, chamado Quiriquiqui. Recebera tal nome pois além de novidadeiro sua cor vermelha lembrava a cor da crista de um galo. Quiriquiqui vivaldino vivia ensaiando andar para frente, mas virava de lado para ir para frente e do outro para ir para trás de modo que se irritava muito das piadas que lhe faziam,o rapaz. Toda vez que passava, alguém com sua garra beliscava. Sua vítima favorita era o rabinho da Tartaruga Beluga. Se desculpava sarcástico que seu rabinho parecera com um delicioso aspargo. Tartaruga Beluga choramingava dengosa, levando meia hora para soltar um aaaaaiii, e ficava verdinha de raiva ao contar a seu pai, o Golfinho Marinho, azul clarinho, tão fofinho que singrava o mar branco da banheira do bebê a procura dos patos que à deriva cantavam um quá quá sem fim.
     A mãe de Beluga, a Baleia da Leia era internacionalmente conhecida, cantava ópera no Auditório de Corais. Era muito elegante, em suas linhas azuis, vestida de espuma encantava nos arpejos ao que seu esposo o Golfinho Marinho suspirava orgulhoso. Tartaruga Beluga era muito sensível, enxugava disfarçada uma lágrima sonhadora ao assistir as evoluções do Ballet comandado pelo senhor Polvo Dolvo, encantador em seu verde clarinho, acompanhando com finesa de movimentos a voz maviosa da mãe de Beluga, enquanto as anêmomas iluminavam em tons pastéis a beleza da noite.
     Ao final de cada espetáculo, a Baleia da Leia recebia de presente, uma pérola rósea que sua estimada amiga a Concha Caroncha carinhosamente calcificava durante meses a fio, pérolas tão finas que causavam exclamações da mais profunda admiração aos que avistavam de longe a baleia azul com seu cordão de pérolas. Concha Caroncha sorria feliz da areia, era uma concha muito calma, muito contida, que estimava sonhar um dia ter nadadeiras.
      - Vamos bebê, o banho acabou.
     E o bebê chora, sem consolo ter que deixar as aventuras dos amiguinhos no fundo da banheira.
     - Meu amor, amanhã a gente continua a estória.
     E o bebê silencia, pois sabe que a cada banho, nova aventura se enuncia.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A menininha do jardim


A menininha veste um vestido vermelho
calça sapatinhos de cetim, sujos de lama
alheia a menina deslumbra-se no espelho
que a poça d’agua refletindo lhe emana

Uma menininha que ri gargalhadas agudas
pequenos gritinhos misturados ao burburinho
das abelhas, listradas, graciosas, parrudas
admira séria os poás das asas da joaninha

A Joaninha voa, a menina grita em êxtase
e corre a ver a nova flor rubra da papoula
cujas gotas de orvalho choram de ênfase
ao assistir a alegria da menininha que pula

A manhã se faz mais azul, mais turquesa
Raio de sol, banha de rosa as bochechas,
pálpebras e os cílios negros da princesa
que enfeita de rosas suas lindas madeixas

A menininha se assusta com o sapo verde
Ri dos olhinhos estufados do louva-deus
pulando na ponta dos pés na grama inerte
galga o instante, florindo os olhos seus

Desabrocham no jardim, tulipas, azaléas
Samambaias de metro despencam, rendas,
Antúrios, hibiscos, uvas verdes, foliáceas,
e a menininha de vermelho, que desvenda

Um canteiro inteiro de flores diversas,
abertas, e de repente ela grita surpresa:
- Mãe as flores estão voando!
E um bando de borboletas se dispersa